Chegar aos 30 anos de carreira sem ficar preso ao próprio passado é um desafio para qualquer banda. O Hibria conhece bem essa questão. Formado em Porto Alegre, em 1996, o grupo construiu uma reputação internacional com seu power metal veloz, técnico e repleto de passagens instrumentais elaboradas, especialmente a partir de Defying the Rules (2004). Três décadas depois, On the Shortness of Life apresenta uma banda renovada, que preserva parte de sua essência enquanto procura novos caminhos.
O álbum também marca a estreia de uma nova formação, com Abel Camargo e Vicente Telles nas guitarras, Benhur Lima no baixo, William Schuck na bateria e Ângelo Parisotto nos vocais. O retorno de Benhur, que participou de Blind Ride (2011) e Silent Revenge (2013), reforça a conexão com uma das fases mais celebradas do grupo. Já Parisotto assume a difícil tarefa de ocupar o posto de vocalista depois de diferentes mudanças de formação e de uma trajetória marcada pela presença de Iuri Sanson.
A diferença aparece logo nas primeiras músicas. “Undying” e “Fire Away” recuperam a velocidade, os riffs cortantes e o virtuosismo que fizeram a fama do Hibria, mas a sonoridade é mais pesada e moderna. Os vocais de Parisotto também seguem outra direção. Em vez de reproduzir os agudos característicos de Sanson, o cantor aposta em uma interpretação mais áspera, agressiva e teatral. É uma escolha que combina com o material, embora possa causar estranhamento em quem espera encontrar a banda de duas décadas atrás.
“Pulse” explora bases mais cadenciadas e variações rítmicas, enquanto “Persist” recupera parte da urgência das primeiras faixas. Em “Melting Alive”, o baixo de Benhur ganha destaque em meio às mudanças de andamento e às guitarras de Abel Camargo e Telles. Já “Against the Wall”, com seus mais de seis minutos, amplia o espaço para passagens instrumentais e duelos de solos. São momentos que demonstram como a precisão técnica continua sendo um dos principais trunfos do grupo, mesmo com a incorporação de elementos que o afastam do power metal mais tradicional.
A principal aposta, porém, está no encerramento. Com 17 minutos, “On the Shortness of Life” é uma suíte dividida em cinco partes, intituladas “Adiaphora”, “Prohairesis”, “Apatheia”, “Ataraxia” e “Eudaimonia”. Os termos remetem ao estoicismo e ao pensamento do filósofo romano Sêneca, autor de Sobre a Brevidade da Vida, obra que inspira o conceito do álbum. A composição alterna passagens progressivas, momentos de maior velocidade e trechos que privilegiam a construção atmosférica. Ambiciosa, funciona como síntese das diferentes facetas exploradas ao longo do disco, ainda que sua duração exija disposição do ouvinte.
A escolha do conceito faz sentido para uma banda que atravessou três décadas, mudanças de integrantes e transformações musicais. A reflexão sobre o tempo, as escolhas e a maneira como conduzimos nossa existência também pode ser interpretada como uma declaração de princípios: o Hibria não pretende viver apenas das conquistas do passado.
Isso não significa que todas as mudanças funcionem igualmente bem. Algumas passagens perdem impacto quando as estruturas se tornam previsíveis, e a nova abordagem vocal nem sempre alcança a mesma força das melhores intervenções instrumentais. O disco também não apresenta a mesma uniformidade de seu momento mais inspirado, alternando composições bastante eficientes com outras que demoram a encontrar uma identidade própria. Ainda assim, On the Shortness of Life merece atenção pelo que representa. O Hibria preserva a competência técnica que o colocou entre os nomes mais respeitados do metal brasileiro e demonstra disposição para experimentar, mesmo sabendo que parte do público preferiria uma volta às origens.
Não é uma tentativa de repetir Defying the Rules, tampouco uma renúncia completa ao passado. É o registro de uma banda que, aos 30 anos, procura entender quem é agora. E, diante de uma carreira marcada por tantas transformações, essa talvez seja a decisão mais coerente com a própria ideia que sustenta o álbum: o tempo é limitado demais para passar a vida inteira tentando ser aquilo que já fomos.
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