24 de jul de 2009

Wilco - The Album (2009)

sexta-feira, julho 24, 2009

Por Jamari França
Jornalista
O Globo


Cotação: ****

Em Wilco (The Album), o grupo norte-americano Wilco desfila, em 42 minutos e 54 segundos, onze canções de uma fase mais serena, com faixas lentas e em midtempo. Jeff Tweedy diz que está mais equilibrado depois de se livrar do vício em analgésicos há cinco anos, porque já não sofre mais os efeitos secundários terríveis, que incluíam vômitos durante os shows num balde colocado atrás do palco.

"
Eu nunca estava numa boa quando estava na pior. Tudo na minha vida está melhor, sou uma pessoa feliz e tenho uma base sólida que me permite avaliar o passado. Eu contesto aquela imagem de o artista ter que ser angustiado, o mito do sofredor, mas muita gente não aceita isso" disse ele ao New York Times.

As bases do CD foram gravadas na Nova Zelândia. Numa entrevista à revista
American Songwriter, Tweedy disse que o grupo foi até lá gravar um disco beneficente com Neil Finn - do grupo Crowded House -, com o Radiohead e com Johnny Marr. Eles curtiram a vibe e gravaram algumas bases. Gostaram do resultado e estenderam a estadia para gravar todas as bases antes de voltar para os finalmente, em Chicago.

O álbum tem o sabor das primeiras gravações da banda, agora com toda a experiência de mais de dez anos de estrada acumulada. Mesmo tendo apenas Jeff e o baixista John Stirratt como membros originais, o Wilco conseguiu manter sua personalidade musical intacta e evoluir com a formação atual, em vigor desde 2004. Além dos citados formam o line-up Glenn Kotche (bateria), Pat Sansone (guitarra, teclados e percussão) e Mikael Jorgensen (piano e teclados), além do excepcional guitarrista Nels Cline. A sonoridade evoca o lado mais calmo de Neil Young, Tom Petty and the Heartbreakers e George Harrison na música, e primeiro single "You Never Know", com vocais e uma guitarra slide que poderiam muito bem ser uma gravação do ex-Beatle.

Além de colocar o nome da banda como título, numa espécie de auto afirmação, o disco abre com "Wilco (The Song)", uma louvação aos (pseudo) poderes de auto ajuda da banda: "
Você está deprimido? / Alguém está enfiando uma faca nas suas costas? / Você está passando por tempos difíceis? / Wilco vai te amar baby". Diante da esperada surpresa de muita gente, Tweedy diz que é uma gozação e que ele achou engraçado fazer uma canção assim. A cantora canadense Feist aparece em "You and I", faixa sobre briguinhas de um casal que escapa por pouco de ser uma baladinha pop.

Felizmente há canções mais interessantes, como "Bull Black Nova", com sangue para todo lado, que Jeff disse ser sobre pessoas que fazem coisas erradas e não podem fugir da responsabilidade. Guitarras martelam as notas na levada e tudo explode em ruídos no final.

A balada “Country Disappeared” ecoa os temas do DVD recém lançado pelo grupo (Ashes of American Flags), ao falar de cidades esmagadas como se fossem insetos e de tiros disparados para alimentar a fome de notícias dos noticiários da TV. Apesar do tema, a canção tem uma bela melodia, como boa parte das demais aqui, boas de assobiar, mesmo que tenham uma mensagem pesada. Mais leves são a já citada "You and I", boa para shows graças a um refrão fácil e repetitivo, e "Solitaire", balada envolvente com instrumentação simples e uma boa guitarra slide, que conta a história de alguém que acreditava na solidão como a melhor escolha: "Levei muito tempo para perceber que estava errado em acreditar apenas em mim mesmo", conclui Jeff.

Parêntese: a canção mais bonita que conheço sobre a solidão é “I Am a Rock,” de Simon and Garfunkel. Conhecem? Fecha parêntese.

Wilco é uma daquelas bandas em que não se passa imune pela audição de seus álbuns. Sempre nos acrescenta algo. Poucas conseguem isso hoje em dia. Ponto para Jeff Tweedy e seus camaradas.


Faixas:
1 Wilco (The Song) 2:59
2 Deeper Down 2:59
3 One Wing 3:42
4 Bull Black Nova 5:39
5 You and I 3:26
6 You Never Know 4:21
7 Country Disappeared 4:02
8 Solitaire 3:04
9 I'll Fight 4:23
10 Sonny Feeling 4:13
11 Everlasting Everything 3:58

Leonard Cohen - Live in London (2009)

sexta-feira, julho 24, 2009

Por Lidiana de Moraes
Jornalista
Revista Paradoxo

Cotação: ****1/2

Seria um sinal dos tempos o fato de Leonard Cohen ter lançado mais um disco ao vivo, com o mesmo repertório de sempre? Teria ele resolvido se juntar ao rol de bandas caça-níqueis, tal qual Sex Pistols e tantas outras? Quem ouve Live in London sabe que a resposta é um categórico não.

Antes de entender porque Leonard Cohen passa imune por qualquer crítica negativa quanto às suas intenções musicais, vamos aos fatos que levaram o célebre cantor canadense a deixar um longo período de isolamento para colocar o pé na estrada.

Há quatro anos, Cohen veio a público alegando que seu antigo empresário, Kelley Lynch, havia retirado ilegalmente U$ 5 milhões, deixando-o com apenas U$ 150 mil em conta. A quantia restante é efêmera se levarmos em conta que estamos falando de alguém com uma longa carreira e diversos fãs famosos, como Bono Vox, Nick Cave e Rufus Wainwright. Portanto, já que a justiça é lenta, o melhor foi voltar ao trabalho.

Mas, como é sempre melhor ver o copo meio cheio do que meio vazio, se Leonard Cohen não estivesse mal financeiramente, o mundo poderia continuar privado de uma pérola musical tão primorosa quanto
Live in London. Agora a pergunta é: o que há de tão especial neste disco?

No alto de seus 75 anos, Cohen construiu uma trajetória singular, edificada a cada trabalho. Mesmo não sendo seu primeiro disco ao vivo (
Cohen Live, de 1994 já havia dado um gostinho do que ele é capaz ao vivo, mas o ápice acontece neste novo trabalho duplo), é perceptível que ele consegue ser muito bem sucedido no sentido de continuar relevante, sem a necessidade de grandes inovações. Percebe-se neste registro um músico que conseguiu chegar a um nível utópico para 99% das pessoas que um dia tentaram fazer música como uma forma artística relevante.

Tal conquista pode ser explicada com a ideia defendida por Alfredo Bosi, ao definir arte como um “
objeto consagrado pelo tempo, e que se destina a provocar sentimentos vários”. A intensa reação da platéia a cada movimento de Leonard mostra como estamos falando de um verdadeiro artista, que consegue deixar marcas impossíveis de apagar nas pessoas que querem entender profundamente a alma humana através de suas canções.

Como performer, Leonard Cohen não precisa fazer esforço para agradar. Ele é ele mesmo, e o ouvinte pode vê-lo como o senhor muito bem vestido, como um Humphrey Bogart eternizado em
Casablanca, que estampa a capa do disco. Porém, ao colocar o CD para tocar, damos de cara com o criador de clássicos como "Everybody Knows" e "Hallellujah", que conseguiu para si a prerrogativa de se tornar um artista sem rosto, reconhecido apenas através da voz, que emana todas as sensações do mundo em poucas notas. Sua imagem é indubitavelmente fascinante, mas é o som que sai de sua boca que captura toda a atenção, seja acompanhando uma melodia como a de "Suzanne", recitando "A Thousand Kisses Deep" ou apenas conversando com a platéia, com a mesma intimidade com a que se fala com alguém que se conhece a vida toda.

Com o fim do álbum duplo mantêm-se a certeza de que
Live in London é primoroso porque Leonard Cohen conseguiu elidir o músico, o poeta, o ator, o compositor e todas as outras personas possíveis para deixar em cena apenas um artista nato e essencial, que personifica o pensamento do pintor russo, Wassily Kandisky: “Todos os procedimentos são sagrados quando interiormente necessários”.


Faixas:
CD1
1.1 Dance Me to the End of Love 6:20
1.2 The Future 7:20
1.3 Ain’t No Cure for Love 6:16
1.4 Bird on the Wire 6:14
1.5 Everybody Knows 5:52
1.6 In My Secret Life 5:02
1.7 Who by Fire 6:35
1.8 Hey, That’s No Way to Say Goodbye 3:47
1.9 Anthem 7:20
1.10 Introduction 1:29
1.11 Tower of Song 7:07
1.12 Suzanne 3:46
1.13 The Gypsy’s Wife 6:42

CD2
2.1 Boogie Street 6:57
2.2 Hallelujah 7:20
2.3 Democracy 7:08
2.4 I’m Your Man 5:41
2.5 Recitation w/N.L. 3:53
2.6 Take This Waltz 8:37
2.7 So Long, Marianne 5:24
2.8 First We Take Manhattan 6:15
2.9 Sisters of Mercy 4:56
2.10 If It Be Your Will 5:22
2.11 Closing Time 6:15
2.12 I Tried to Leave You 8:33
2.13 Whither Thou Goest 1:27

23 de jul de 2009

Cachorro Grande - Cinema (2009)

quinta-feira, julho 23, 2009

Por Iberê Borges
Colecionador e Jornalista

Cotação: ****

Se você não gosta de resgates ao rock, então provavelmente não se interessa por Cachorro Grande.

Se não se interessa por bandas que arriscam em todas as vertentes já exploradas do rock, desde as mais dançantes, às baladas, aos momentos mais psicodélicos, não se preocupando em ser exatamente original, você não deve gostar do Cachorro Grande.

Se não é compreensivo com letras em português, com temas diferenciados, que nem sempre exploram amores e, ainda por cima, que não são cantadas por alguém que pode ser considerado um exímio cantor, você não deve gostar mesmo de Cachorro Grande.

Agora, se está interessado pela música em sua essência, não se preocupando exatamente em que forma ou linguagem ela está sendo feita, mas se preocupando em que ela seja somente bem-feita, este é
Cinema, o quinto disco dos gaúchos do Cachorro Grande. E este é o melhor álbum deles.

Marcelo Gross prova, mais uma vez, que é o melhor compositor da banda. Mas Azambuja, Beto Bruno, Pedro Pelotas e Krieger não ficam pra trás. No todo, o álbum é bem homogêneo. Isso no quesito qualidade das composições, não há uma música que se destaca mais que a outra, mas no geral são todas realmente excelentes. As melhores já produzidas pelo quinteto gaúcho. Agora, quando o quesito é o estilo das composições, não há unidade.

Há unidade sim, por se tratar apenas de rock (ou rock'n'roll, como os próprios prefeririam), mas as vertentes trabalhadas são diversas. Brincam no hard rock. Tiram sarro numa onda mais dançante. Chegam a lembrar o novo trabalho do Oasis e o antigo Stone Roses, com momentos mais psicodélicos. Fazem baladas lindas e fortes, assim como foi com "Sinceramente". Criam riffs potentes e canções pra dançar, pular, gritar e apenas balançar a cabeça.

Em 12 faixas, produzidas novamente por Rafael Ramos, o Cachorro Grande decide revisitar tudo que já foi produzido em rock nas últimas décadas (inclusive na que estamos). E, como dito no primeiro parágrafo, isso pode ser o que te afastará do álbum e da banda. Uma pena pra você.

Acho infeliz o preconceito com o rock brasileiro que não possui verdadeiras influências nacionais. Realmente, o Cachorro Grande não parece possuir nenhuma influência direta de artistas e música brasileira (há quem fale de Mutantes, eu não vejo muito). Mas há uma certa resistência aos artistas brasileiros que não produzem músicas com identidade do país, e o Cachorro Grande não é a única banda a passar por isso. Bastou fazer canções sem referências ao samba, ou à bossa, com letras em português, que nego torce o nariz. Ou dizem parecer forçado, ou dizem ser cópia de alguma banda estrangeira.

No início da carreira, o Cachorro Grande temia ser comparado ao Strokes (diziam isso em seu próprio site), mas realmente não havia motivos para temer tal comparação. Mas o tempo passou e o que não faltou foram comparações ao Cachorro Grande. Felizmente, as comparações eram as reais influências da banda e a artistas admirados pelos mesmos. Mas quando dizem quem o som dos gaúchos é forçado, a barra é que é forçada. O Cachorro Grande produz rock, pois é isso que parecem viver. Todo o álbum, de cabo a rabo, é sincero. Agora, se você não gosta da banda por outros motivos, e não se trata de preconceito, esse sermão não é pra você.

Não há sermão pra quem consegue se encher de motivos para não gostar do Cachorro Grande mas, enquanto eu conseguir me encher de razões (e de orgulho) para admirar o trabalho feito por eles e achar que há algo excepcional o suficiente para vir até aqui e fazer um longo texto como esse, o farei.

Se você gosta de música, pode gostar e desgostar de diversas coisas. Mas se procura boa música, pode encontrar em
Cinema, o novo álbum do Cachorro Grande.


Faixas:
1. O Tempo Parou/Sabor a Mi
2. Dance agora
3. Amanhã
4. Por Onde Vou
5. A Alegria Voltou
6. A Hora do Brasil
7. Diga o que Você Quer Escutar
8. Ela disse
9. Ninguém mais Lembra de Você
10. Luz
11. Eileen
12. Pessoas Vazias

Discos Fundamentais: Cheap Trick - Heaven Tonight (1978)

quinta-feira, julho 23, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Heaven Tonight é um verdadeiro clássico dos selvagens anos setenta! O terceiro disco deste grupo natural da cidade de Rockford, no estado do Illinois, contém o ápice do hard festeiro e carregado de melodia que transformou o Cheap Trick em um dos principais nomes do rock norte-americano setentista.

Lançado no dia 30 de janeiro de 1978, Heaven Tonight é um senhor disco de power pop, com riffs mortais do guitarrista Rick Nielsen, um trabalho de bateria econômico - mas certeiro - de Bun E. Carlos e uma performance impecável do vocalista Robin Zander.

A faixa-chave do disco é "Surrender", um hard contagiante com um refrão inesquecível, que se tornou o maior sucesso do grupo. Em "Surrender" o Cheap Trick paga tributo ao Kiss, influência assumida da banda, com inspiradíssimas linhas vocais, um refrão pra lá de grudento e um alto astral inebriante. Ou seja, uma faixa perfeita não só para dar início a um LP, mas, principalmente, para colocar fogo em qualquer festa em uma garagem esfumaçada e repleta de adolescentes famintos por farra, bebidas e sexo!

Mas, além de "Surrender", Heaven Tonight ainda possui outros grandes momentos, como "California Man", "High Roller", "On Top of the World", "Auf Wiedersehen", "Stiff Competition" e a ótima faixa-título.

Heaven Tonight, ao lado do ao vivo At Budokan (1979), gravado durante a turnê japonesa de promoção do álbum, é o ponto alto da carreira do Cheap Trick. Um discaço, um documento de uma época em que o rock era, antes e acima de tudo, diversão pura, selvagem e sem compromisso!

Ouça no volume máximo, com uma cerveja bem gelada e uma bela companhia!


Faixas:
A1 Surrender 4:14
A2 On Top of the World 4:01
A3 California Man 3:44
A4 High Roller 3:58
A5 Auf Wiedersehen 3:40

B1 Takin' Me Back 4:51
B2 On the Radio 4:30
B3 Heaven Tonight 5:21
B4 Stiff Competition 3:39
B5 How Are You 4:14
B6 Oh Claire 1:01


Discos Fundamentais: Tommy Bolin - Teaser (1975)

quinta-feira, julho 23, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Gravado antes de Tommy Bolin assumir o posto de Ritchie Blackmore no Deep Purple, Teaser é um disco brilhante, obrigatório em toda coleção de qualquer fã de uma guitarra bem tocada.

Bolin exibe toda a sua técnica e o seu talento como compositor nas nove faixas do disco. Teaser começa a nos conquistar já pela faixa de abertura, "The Grind", dona de um groove contagiante. Com bom gosto e classe acima da média, Tommy Bolin mostra, de forma clara e inquestionável, o porque de ter sido escolhido como o substituto do até então insubstituível Ritchie Blackmore no Purple.

"Homeward Strut" é uma faixa instrumental repleta de balanço, enquanto os pouco mais de cinco minutos de "Dreamer" e a bela "Savannah Woman" mantém o LP no mais alto nível. Outros pontos altos do disco são as ótimas "Teaser", "People, People" e "Wild Dogs", exemplos extremamente bem acabados da capacidade de Bolin como compositor e de sua criatividade como instrumentista.

Somos brindados ainda com mais uma faixa instrumental, "Marching Powder", bastante influenciada pela fase jazz rock de Jeff Beck, e que conta com a participação do tecladista Jan Hammer, ex-Mahavishnu Orchestra.

Teaser se encerra com "Lotus", uma excelente composição que inicia suavemente e aos poucos vai ganhando elementos introduzidos por Bolin, que toca e sola de maneira primorosa, além de cantar de forma apaixonada, fechando o disco com chave de ouro.

Com grande competência e talento, Tommy Bolin trilhou diversos caminhos musicais em sua breve carreira, seja em seus álbuns solo, ao lado do James Gang, Moxy e Deep Purple, ou em participações mais que especiais em trabalhos como Spectrum (1973) de Billy Cobham e Mind Transplant (1974) de Alphonse Mouzon.

Sua música é a prova de sua imensa capacidade criativa e talento. Sua morte, em 04 de dezembro de 1976 por overdose de heroína, deixou inacabada uma grande trajetória que certamente nos brindaria ainda com vários grandes discos.

Ouvir um álbum com Teaser nos causa duas reações: a primeira é imaginar para quais caminhos a música de Tommy Bolin seguiria; e a segunda é agradecer a esse músico único, que mesmo com uma breve e atribulada carreira nos presenteou com trabalhos sublimes como esse.


Faixas:
A1 The Grind 3:26
A2 Homeward Strut 3:55
A3 Dreamer 5:08
A4 Savannah Woman 2:45
A5 Teaser 4:27

B1 People, People 4:55
B2 Marching Powder 4:14
B3 Wild Dogs 4:10
B4 Lotus 3:56

Dave Matthews Band - Big Whiskey and the GrooGrux King (2009)

quinta-feira, julho 23, 2009

Por Paulo Camargo
Jornalista
Cotação: ****

O mês de agosto do ano passado foi trágico para a Dave Matthews Band. Um de seus integrantes (e fundadores), o saxofonista LeRoi Moore, morreu aos 46 anos em decorrência de ferimentos sofridos num acidente de carro na sua fazenda, no estado da Virginia, nos Estados Unidos. Como era um sujeito de poucas palavras, que evitava entrevistas e interação com o público, sabia-se muito pouco sobre o músico, a não ser que tinha um grande talento e era irremediavelmente fechado. Para Dave Matthews, no entanto, Moore era muito mais do que isso.

O vocalista, compositor e instrumentista sul-africano que dá nome à banda adorava o saxofonista. Tanto que a elaborada capa do excelente
Big Whiskey and the GrooGrux King, totalmente desenhada por Matthews, traz ao centro um retrato de Moore como uma cabeça gigante e coroada, típica de um carro alegórico do Mardi Gras, carnaval da cidade de Nova Orleans.

E, logo na primeira faixa, a instrumental “Grux”, há uma tocante homenagem ao músico: ouve-se o rasgante do sax alto de Moore, emoldurado pela bateria forte e pulsante de Carter Beauford e pelo baixo inconfundível de Stefan Lessard – vale dizer aqui que o instrumentista morreu antes que boa parte do disco fosse finalizada, mas deixou várias participações gravadas, algumas não-identificadas ou creditadas. “Grux” marca o início de um trabalho que muitos críticos americanos tem chamado de o melhor álbum da Dave Matthews Band.

Não à toa,
Big Whiskey and the GrooGrux King, quinto disco da banda a estrear em primeiro lugar na parada da revista Billboard, vendeu mais de 400 mil cópias apenas na primeira semana de lançamento.

A presença de LeRoi Moore, quando não é concreta, por meio da sonoridade do seu instrumento, permeia o álbum. Espiritualmente até. Na faixa “Why I Am”, por exemplo, Matthews canta que “
ainda está aqui dançando com o rei GrooGrux”, em referência ao personagem encarnado pelo saxofonista na capa e no encarte do CD.

LeRoi (que em francês quer dizer “o rei”) surge de novo em referências mais sutis, como “
o último suspiro do soldado” em “Funny the Way It Is”, primeiro e contagiante single do disco. A perda do amigo e parceiro também se faz presente na introspectiva “Spaceman”, triste sem ser depressiva: “Todo mundo não merece ter uma vida boa? / Mas nem sempre isso dá certo”.

“Squirm”, por sua vez, mergulha ainda mais num certo fatalismo que até certo ponto contradiz o tom festivo do projeto gráfico do álbum. “Lá fora, nenhuma comida, nada para beber / Quantos dias você acha que iria durar?”, diz a letra, para, em seus versos finais, arrematar: “se bondade é seu rei, então o céu será seu antes que você encontre seu fim”.

Mas o fantasma de Moore sabe quando dar uma trégua à sua banda. Sobretudo quando o disco assume um tom mais romântico, explicitamente sexual até, como nas suingadas faixas ‘’Shake Me Like a Monkey’’ e ‘’Seven’’, ou intimista, nas canções ‘’You and Me’’ e ‘’My Baby Blue’’. Nesses momentos percebe-se que Matthews, embora deixe clara a extensão de sua perda, quer celebrar a vida, mesmo diante da morte.


Faixas:
1 Grux 1:11
2 Shake Me Like a Monkey 4:00
3 Funny the Way It Is 4:26
4 Lying in the Hands of God 5:13
5 Why I Am 3:53
6 Dive In 4:26
7 Spaceman 4:08
8 Squirm 5:32
9 Alligator Pie (Cockadile) 3:59
10 Seven 4:17
11 Time Bomb 3:59
12 My Baby Blue 3:41
13 You and Me 5:40

"Kind of Blue": o álbum mais místico do jazz completa 50 anos

quinta-feira, julho 23, 2009

Por Bruno Vitorino
Músico e Pesquisador
Clube de Jazz

No início da tarde de 02 de março de 1959 Jimmy Cobb chegava cedo ao lendário 30th Street Studio da Columbia Records para montar calmamente sua bateria e escolher, junto com os engenheiros de som, o melhor lugar para captação de seu instrumento. Aguardava os demais músicos envolvidos na primeira sessão que aconteceria em breve como se fosse apenas mais um dia de trabalho em toda a sua banalidade.

Enquanto terminava de preparar a bateria, iam chegando os demais músicos escalados: John Coltrane, Julian "Cannonball" Adderley, Paul Chambers, Wynton Kelly, Bill Evans e o líder Miles Davis. Penduraram seus casacos, armaram suas estantes para apoiar as partituras, verificaram seus instrumentos, tomaram suas posições dentro da sala de gravação, distribuindo banquetas e cadeiras para todos ficarem confortáveis. Aguardavam o sinal da cabine técnica, após uma breve conversa sobre a estrutura das composições, a ordem dos solistas e o que não fazer durante a música, para darem início à gravação do álbum mais místico da história do jazz: Kind of Blue.

Apostando na concepção musical de que menos é mais,
Kind of Blue é considerado pelos fãs, críticos especializados e músicos em geral a obra-prima de Miles Davis. Acompanhado da nata do jazz à época, ele foi na contramão do hard bop, que se apoiava num complexo encadeamento harmônico e nas melodias frenéticas, conclusivas e cheias de notas, reafirmando o blues e o gospel. Davis ancorou-se no modalismo. O resultado proporcionava uma música aberta baseada em escalas (modos), que ampliavam as possibilidades melódicas dos improvisadores, de poucos acordes e com temas flutuantes, combinando notas longas e silêncios.

Miles estava no ápice de sua verve criativa. Em 1959 liderava o grupo mais quente de Nova York, que fazia apresentações antológicas nos clubes da cidade para uma platéia repleta de figuras ilustres, como Marlon Brando e Elizabeth Taylor. O sucesso de público e crítica alcançado em
Porgy and Bess (1958), bem como nos outros três discos anteriores para a Columbia – ‘Round About Midnight (1967), Miles Ahead (1957) e Milestones (1958) – alavancaram o trompetista à categoria de astro tanto do meio musical quanto no universo das celebridades. O nome Miles Davis passou a ser sinônimo de requinte (status social) e refino musical (círculo jazzístico). Por isso, a gravadora lhe pressionava para que entrasse em estúdio novamente.

Contudo, antes de mergulhar nas sessões que gerariam
Kind of Blue, há necessidade de se fazer uma digressão para contextualizar a Columbia Records neste recorte histórico. No começo da década (1950), a gravadora, ainda em desvantagem em relação às outras companhias, procurava grandes ícones para compor seu quadro de artistas. Impulsionada pelos avanços tecnológicos e pelo crescimento econômico do pós-guerra, a indústria fonográfica desfrutou um crescimento sem precedentes, e a Columbia também queria sua parte. Por isso, se um olhar mais próximo for dedicado à empresa, perceber-se como ela se esforçava para agregar nomes de peso ao seu rol de artistas.

O jazz não ficou de fora, pois o mesmo não é apenas uma forma de música, mas também uma forma de fazer lucros. Partindo desse pressuposto, a Columbia utilizava também para o gênero a combinação de artistas consagrados com grandes campanhas publicitárias. O intuito era atrair o consumidor médio, transformando o estilo em um produto tão vendável quanto a musica pop feita à época, bem como proporcionar ao aficionado variedade suficiente de títulos para mantê-lo sempre comprando.

A Columbia oferecia a Miles Davis o aparelho institucional necessário (estúdio e equipamentos excelentes, engenheiros de som experientes, produtores com formação musical, eficiente seção de marketing), dando também plena liberdade ao seu gênio criativo (constante busca por novos paradigmas musicais, lirismo melódico infindável, capacidade de se rodear dos melhores músicos e deles extrair o melhor). O resultado dessa relação mostrou-se extremamente lucrativa para a gravadora e para o trompetista. Com
Kind of Blue não seria diferente.


As sessões que se desenrolariam representaram um audacioso passo à frente para Miles. O trompetista estava consolidando sua auto-suficiência em estúdio, ou seja, a Columbia lhe permitira desta vez dirigir todo o projeto, desde a composição até o comando da banda e a gravação. Os arranjos foram definidos no dia da gravação, para que a música fosse captada em seu estado mais espontâneo.

"Freddie Freeloader" é um blues de 12 compassos em andamento moderado, cheio de swing, em homenagem a um excêntrico barman da Filadélfia. Provavelmente, por sua estrutura blues muito familiar a todos os integrantes do sexteto, foi a primeira composição a ser gravada - apesar de se tornar a segunda faixa do disco. É também a única música onde o piano de Wynton Kelly pode ser ouvido, porque, segundo Miles,
Kind of Blue foi pensado para o toque suave e minimalista de Bill Evans. Entretanto, por se tratar de um blues mais tradicional, provavelmente o trompetista tenha preferido o peso da mão de Kelly. Vale ressaltar como soa confortável o improviso de Cannonball nessa música. Nas outras faixas, fica claro como ele não mergulhava por inteiro no jazz modal.

Já "So What" é uma composição simples baseada em duas escalas (ré dórico e mi bemol dórico), com prelúdio etéreo tocado em rubato por baixo e piano. Sua inspiração melódica vem de duas fontes bem definidas: o folclore africano e o gospel norte-americano. Há também, ainda que oculta, a presença de Gil Evans na composição (existe, inclusive, quem diga que a introdução foi escrita por ele). O solo de Miles evidencia duas de suas características mais marcantes: a simplicidade melódica (notas longas e pausas) e a tendência de adiantar o ritmo e brincar com as acentuações. Coltrane e Cannonball são explosivos, o primeiro com mais densidade que o segundo. Por sua vez, Bill Evans é bem econômico, um pouco cauteloso, mas sempre consciente.

"Blue in Green" foi a última composição gravada nessa sessão de 02 de março. Trata-se de uma balada de dez compassos com um efeito de suspensão extraordinário, que segue um simples padrão tonal sem evidente tema principal. Cannonball não participa dessa faixa, que requer solos calmos e flutuantes. Paul Chambers assume função importante para o desenvolvimento da música, servindo de âncora tonal e rítmica aos solistas. O desfecho é sublime. Contudo, existe uma questão de âmbito não musicológico sobre essa música que permanece aberto: qual a razão para Miles negar a autoria da composição a Bill Evans?. Apesar das constantes reclamações o pianista não insistiu muito no assunto, e os créditos foram todos ofertados ao trompetista.

O sexteto volta ao 30th Street Studio na tarde de 22 de abril de 1959 para gravar mais duas faixas para finalização do álbum. "Flamenco Sketches" é a música mais puramente modal dentre as que seriam gravadas para Kind of Blue. Um tema composto sobre cinco escalas que se articulam formando um ciclo, com destaque para o modo frígio que lhe dá o sabor ibérico. Transitar entre os cinco blocos da estrutura exigia cautela, portanto os improvisadores não tocam além da conta. Miles, com sua surdina, perpassa as notas necessárias sem se arriscar em seu solo; Coltrane se mostra pesaroso e melancólico; Cannonball soa atento às articulações das escalas, como se andasse em terreno desconhecido; Bill Evans é pura delicadeza e simplicidade. Hipnótico.

A gravação do disco começou com um blues e terminaria da mesma maneira. "All Blues" é estruturada em doze compassos com andamento 6/8 e escassa harmonia modal. O ostinato de Chambers, combinado ao trinado constante de Evans, reforça o balanço de valsa e fornece a base para os sopros. Os saxofones harmonizam e Miles costura milimetricamente o tema com suas notas longas, para depois devanear improvisando. Cannonball o segue despreocupadamente, tendo a forma blues como porto seguro. Coltrane se revela intenso, despejando camadas de notas furiosamente. Bill ataca com a agressividade necessária ao estilo, mantendo o ritmo com a mão esquerda. Miles alça vôo novamente antes que a banda retorne ao tema para finalizá-lo, e encerrar a última sessão de gravação. Nascia o disco que marcaria definitivamente a carreira de Miles Davis.

Na esteira do sucesso dos últimos discos do trompetista, a equipe de vendas da Columbia recebeu
Kind of Blue com bastante entusiasmo. Com o suporte dado pela campanha publicitária da gravadora, o álbum caminhava para se tornar um best-seller. No entanto, musicalmente, as inovações estruturais – modalismo – promovidas pelo sexteto só seriam percebidas um pouco mais a frente. O álbum fez menos barulho quando saiu do que sua reputação atual poderia sugerir – fazendo sua mágica na música por meio da evolução, não da revolução. A cena musical incorporaria algumas de suas idéias, mas sua real dimensão foi sendo descoberta aos poucos.

Para comemorar o aniversário de 50 anos desse lendário álbum, a Sony Legacy, detentora do catálogo da extinta Columbia Records, lançou, em setembro de 2008, uma edição especial para colecionadores com dois discos cheios de takes alternativos e falsos inícios, um DVD documentário sobre o álbum, um vinil azul de 180 gramas e um livreto de 60 páginas com textos e fotos da imortal sessão.

Ao longo de seus cinquenta anos de existência,
Kind of Blue se consolidou como um marco. Sua simplicidade convida à reflexão de como o muito pode ser dito de maneira convincente e inovadora com poucos elementos. A espontaneidade contagiante, o frescor das composições, a verve emotiva dos improvisadores, a ambiência suspensa, envolvem o ouvinte de maneira a levá-lo para longe de onde se encontra fisicamente. São exatos 55 minutos e 16 segundos de perfeição. Cada nota, cada pausa no seu devido lugar. Uma das poucas obras na história pintada na primeira pincelada sem nenhuma falha. Se o jazz tem uma essência, ela pode ser encontrada nesse álbum.

Leia também: O dream team do jazz e seu jogo inesquecível

22 de jul de 2009

Ben Harper & Relentless7 - White Lies for Dark Times (2009)

quarta-feira, julho 22, 2009

Por Henrique Inglez de Souza
Jornalista
Guitar Player

Cotação: ***1/2

Ben Harper e sua nova banda, a Relentless7, fizeram uma interessante mistura de timbres e abordagens em White Lies for Dark Times. Um mosaico de guitarras e violões que muito se parece com o rock feito nos anos setenta.

Algumas canções chegam a escancarar tal flerte, como "Keep It Together (So I Can Fall Apart)", de riffs à la Black Sabbath e bateria na linha Led Zeppelin. Mas esse disco não trilha na direção do heavy metal. Apresenta guitarras com groove e levadas cativantes, conduzidas por drives sossegados, ora mais acentuados, ora menos incisivos.

Não é de hoje que Ben Harper saber ser criativo quando escreve. White Lies for Dark Times tem um ótimo trabalho de guitarra, seja nos riffs, nos timbres ou nos solos. E os méritos vão também para o guitarrista Jason Mozersky.


Faixas:
1 Number With No Name 3:05
2 Up to You Now 5:01
3 Shimmer & Shine 3:06
4 Lay There & Hate Me 4:15
5 Why Must You Always Dress In Black 4:41
6 Skin Thin 4:33
7 Fly One Time 4:12
8 Keep It Together (So I Can Fall Apart) 4:56
9 Boots Like These 3:54
10 The Word Suicide 5:03
11 Faithfully Remain 4:28

Discos Fundamentais: Free - Fire and Water (1970)

quarta-feira, julho 22, 2009

Por Márcio Okayama
Jornalista
Guitar Player

Paul Kossoff, do Free, foi um dos ícones da guitarra inglesa do início da década de setenta. Como alguns de seus contemporâneos, ele fez uma ponte entre a tradição blueseira e elementos pesados, sendo um dos pais da linguagem hard blues. Kossoff faleceu prematuramente aos 25 anos de idade, durante um voo nos Estados Unidos, devido a um enfarte causado por abuso de drogas. Todavia, em sua breve carreira tornou-se um ídolo que influenciou muitos músicos relevantes.

Como curiosidade, vale a pena citar que a famosa Fender Stratocaster preta de Dave Murray, guitarrista do Iron Maiden, pertenceu a Paul Kossoff. O então adolescente Murray vendeu tudo o que tinha quando viu anunciado o instrumento em uma revista inglesa. Esta guitarra foi usada extensivamente nas gravações e turnês do Maiden, tornando-se depois referência para o modelo signature de Dave Murray, lançado no ano passado pela Fender.

Fire and Water foi considerado o disco de maior impacto comercial do Free. A intenção da gravadora e da banda era criar um álbum mais acessível, tirando o Free do nicho em que se encontrava - apesar de ter conquistado o status de artista cult entre os fanáticos do blues, era considerado uma banda de alcance restrito, mesmo tendo a bênção de ícones do blues britânico, como Alexis Korner. É desse disco o hino "All Right Now", considerada a canção mais emblemática da banda. Seu riff de abertura tornou-se um dos mais célebres da história da guitarra, possuindo pegada, força e aquela qualidade essencial que prende o ouvinte, chamado por críticos e produtores como "gancho musical".

Contando com a formação clássica do Free - Kossoff nas guitarras, o baterista Simon Kirke, o baixista Andy Fraser e o cantor Paul Rodgers -, Fire and Water foi produzido pela própria banda, apresentando assim uma certa crueza que, por incrível que pareça, proporcionou ao grupo seus melhores resultados comerciais, inclusive levando-o a tocar na lendária edição de 1970 da Ilha de Wight, do qual participaram Miles Davis, Jimi Hendrix (em sua última apresentação), The Who, Emerson Lake & Palmer, entre outros gigantes da música.

Kossoff tinha um dos vibratos mais expressivos da guitarra, com controle e entonação perfeitos. Esta pegada vinha de sua formação blueseira. Ele devorou discos de blues tradicional e também era fã incondicional de músicos que levaram o gênero a outro patamar, como Eric Clapton e Jimi Hendrix.

Kossoff chegou a ter aulas de violão clássico na infância, mas, já no início da adolescência, impressionava espectadores em bares londrinos, inspirado por nomes como John Mayall (cuja banda contou com Clapton e Mick Taylor em suas diferentes formações).

O approach do músico em relação a equipamento era o mais simples e prático possível: Gibson Les Paul Standard plugada diretamente em um cabeçote Marshall de 50 watts, com gabinetes da mesma marca. O lirismo de sua guitarra pode ser ouvido em músicas como "Oh I Wept" (uma aula de como exercer sutilezas em bends). Os riffs venenosos de "Mr Big" e o solo de "All Right Now", com os vibratos característicos de Kossoff, também são inesquecíveis. Ouvir e tirar solos do guitarrista são verdadeiras aulas de entonação e controle de bends e utilização do vibrato como ferramenta de expressão.

Paul costumava afirmar que detestava tocar solos pela simples questão de tocá-los. Achava que eles deveriam existir dentro do contexto da canção. Dizia que seu som e estilo se formavam a partir de ideia de fazer uma contravoz às linhas melódicas do cantor Paul Rodgers, resultando assim na identidade única do Free - uma sonoridade que tornou-se referência a outras bandas do gênero. Expressão, finesse, sensibilidade e contraste entre agressividade e sutileza (como fogo e água!) são os maiores legados que Paul Kossoff deixou para nós, guitarristas.

Faixas:
A1 Fire and Water 4:03
A2 Oh I Wept 4:29
A3 Remember 4:29
A4 Heavy Load 5:22

B1 Mr. Big 5:58
B2 Don't Say You Love Me 6:07
B3 All Right Now 5:42

Podcast Collector´s Room#011

quarta-feira, julho 22, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Sim, hoje é apenas quarta-feira e o último podcast saiu a apenas dois dias atrás, na segunda, mas como eu fiquei em débito com vocês na semana passada, sem programa inédito, resolvi produzir mais um podcast essa semana.

Então está aí: muita música, sons interessantes e informações a princípio úteis.


Espero que vocês curtam, e até semana que vem.

21 de jul de 2009

Discos Fundamentais: Rush - 2112 (1976)

terça-feira, julho 21, 2009

Por Bento Araújo
Colecionador e Jornalista
Poeira Zine

Uma fábula futurista do rock: é assim que se define o quarto disco do trio canadense Rush.

2112 teve um parto difícil; o grupo havia sido muito criticado pelo seu trabalho anterior (Caress of Steel, 1975), e a melhor lição que eles tiraram disso tudo foi a de exigir para si mesmo uma busca dentro do seu próprio som. A verdade é que Geddy, Alex e Neil sentiam que era hora de crescer, de rebuscar todas as possibilidades que um estúdio, e suas próprias mentes, podiam oferecer.

O primeiro passo foi com o tempo gasto para a composição. Ao contrário dos trabalhos anteriores, esse levou seis meses para ser escrito e mais um mês para ser gravado e mixado. O envolvimento do trio com o projeto era total.

Lançado em março de 1976, a aceitação foi imediata. Só na primeira semana foram vendidas mais de 100 mil cópias, e um mês após o lançamento as vendas já ultrapassavam a soma dos três primeiros discos juntos.

Além de bem melhor produzido que os anteriores,
2112 trazia toda uma mística em volta de si. Desde o próprio som até todas as simbologias contidas na parte gráfica. O maior destaque ficava por conta da faixa título, que ocupava todo o primeiro lado do álbum; era uma suíte com mais de vinte minutos de duração, dividida em sete partes. Nunca um simples trio de rock and roll havia ousado tanto.

É justamente nessa época que a figura de Neil Peart passa a ser decisiva no som e na imagem do conjunto. Considerado o baterista mais inteligente do rock, Peart concebeu sozinho essa novela futurista que era "2112".

"A Passage to Bangkok" abre o lado dois (a edição em CD peca um pouco por omitir essa proposital divisão), uma canção sobre uma fantástica viagem através de lugares exóticos. "The Twight Zone" traz um começo cheio de guitarras espaciais e se transforma num lindo refrão sussurrado por Geddy, terminando tudo com a guitarra chorada de Alex. "Lessons" é um dos raros casos onde Alex assume sozinho o crédito pela canção.

"Tears" é uma das mais belas composições do trio; suave e viajante, ela mostra uma grande preocupação da banda com o feeling da música. Basta reparar no andamento simples da bateria de Peart (caso raro, em se tratando de bateristas tão técnicos como ele). Foi nessa música também que pela primeira vez um estranho tocou em alguma canção do grupo; Hugh Syme toca Mellotron, flauta e conduz o quarteto de cordas, além de ser uma pessoa fundamental na concepção do projeto, pois também desenhou a capa e o famoso logo onde um homem nu estende suas mãos sobre a estrela vermelha. "Something for Nothing" fecha o disco em grande estilo, mostrando um entrosamento pouco visto em uma formação baixo-guitarra-bateria.

Terminado o álbum o trio saiu por uma muito bem sucedida turnê mundial. Em muitos lugares foi a primeira vez que tocaram como banda principal, e ainda se dando o luxo de ter uma banda de abertura. A tour foi devidamente registrada em seu primeiro disco ao vivo, All the World’s a Stage, lançado também em 1976.

Os experimentos que a banda se aventurou em
2112 abriram o apetite do grupo pela mudança constante de disco para disco. O Rush sempre se recicla, nunca faz um disco parecido com outro, característica essa iniciada com esse álbum, que também serviu como pontapé no aprofundamento progressivo que a banda viria a seguir.


Tracklist:
A 2112
a. Overture 4:32
b. The Temples of Syrinx 2:13
c. Discovery 3:30
d. Presentation 3:40
e. Oracle: The Dream 2:00
f. Soliloquy 2:22
g. Grand Finale 2:18

B1 A Passage to Bangkok 3:30
B2 The Twilight Zone 3:14
B3 Lessons 3:48
B4 Tears 3:29
B5 Something for Nothing 3:56

Notas:

# Os Quimonos usados pelo trio na foto da contracapa do disco foram presentes de fãs japoneses do conjunto;

# Quando a banda entregou o disco para sua gravadora (Mercury), a mesma torceu o nariz e não botou fé no projeto, alegando ser um disco fadado ao fracasso comercial. Os engravatados fizeram de tudo para jogar a faixa-título, com seus 20 minutos de duração, para o lado B do disco, e graças ao contrato, que dava total liberdade ao grupo, isso não aconteceu;

# Nessa época o envolvimento do trio com a ficção científica era tão intenso que a editora Marvel Comics dedicou a eles uma série de gibis chamada
The Defenders. A obra era toda baseada nas letras de Peart para 2112, e a publicação trazia a seguinte dedicação: "To Alex, Geddy and Neil of Rush";

# Com muitas músicas orientadas para o teclado e sintetizadores, chegou a ser cogitada a inclusão de um quarto membro nessa época, idéia rapidamente abortada, pois ao vivo os três davam muito bem conta do recado;

Nota do editor: texto de Bento Araújo. Matéria escrita em 2002 para ser publicada na edição número 0 (zero) da poeiraZine, mas que ficou arquivada todo esse tempo.

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE