30 de abr de 2010

Prateleira do Cadão: o genial Shuggie Otis

sexta-feira, abril 30, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room


Filho de peixe, peixinho é? Nesse caso, sim. Johnny Alexander Veliotes herdou do pai não apenas o nome, mas sobretudo o talento musical. Filho de Johnny Otis (cujo nome de batismo é John Alexander Veliotes), um dos pioneiros do rock norte-americano, Shuggie Otis nasceu em Los Angeles em 30 de novembro de 1953, e aos doze anos já tocava em clubes noturnos acompanhando o pai. Para disfarçar a tenra idade, escondia-se atrás de enormes óculos escuros e camadas de maquiagem, já que, pela lei americana, não poderia se apresentar profissionalmente sendo ainda um mero adolescente.

Desde cedo revelou-se um prodígio. Além da guitarra, seu instrumento preferido, tocava com perfeição também piano, órgão, bateria e baixo. Seu talento precoce impressionava a todos que o conheciam, e chamou a atenção de Al Kooper, que o convidou para substituir Stephen Stills no seu projeto Super Sessions, que já havia rendido um elogiadíssimo álbum lançado em julho de 1968.


Ao lado de Kooper, Shuggie, então com apenas 15 anos, gravou o disco Kooper Sessions: Super Session Vol II, gravado em 1969 e lançado em 1970. No álbum, além de Kooper, Shuggie contracenou com o baixista Stu Woods, com o baterista Wells Kelly, com o pianista Mark Klingman e com os backing vocals da The Hilda Harris-Albertine Robinson Singers. O disco era dividido em dois lados distintos: o primeiro, batizado como “The Songs”, era voltado para o gospel e para o rhythm & blues, enquanto o segundo, chamado “The Blues”, trazia o banda improvisando sobre bases de blues. A performance de Shuggie Otis chamou muita atenção, com o garoto recebendo rasgados elogios da crítica e dos próprios músicos, além de render o convite para a gravação de um álbum solo pela Epic.

Um fato importante que deve ser mencionado é que Shuggie cresceu tendo contato direto e convivência quase diária com músicos talentosíssimos como Sly Stone e Arthur Lee, da cultuada banda Love, além dos instrumentistas que acompanhavam seu pai. Outra passagem interessante é a participação de Shuggie no álbum Hot Rats, lançado por Frank Zappa em 1969. Nesse disco, Shuggie Otis toca baixo na faixa que abre o LP, a clássica “Peaches en Regalia”. O músico também participou de sessões de gravação ao lado de nomes como Etta James, Cal Tjader e Eddie Vinson.


Em 1970 chegou às lojas o primeiro trabalho solo de Shuggie Otis. Com o título de Here Comes Shuggie Otis, o álbum é um primor, mesclando com enormes doses de talento elementos do rock, blues, funk, soul e jazz. O resultado final é um dos melhores discos lançados nos anos setenta, infelizmente pouco conhecido do público em geral, mas presença garantida na prateleira dos mais antenados. Entre as faixas, pérolas como “Oxford Gray”, “Shuggie´s Boogie”, “Hurricane”, “Gospel Groove” e “The Hawks”. Se você nunca ouviu, vá atrás agora mesmo.


No embalo, Shuggie voltou para o estúdio e gravou o seu segundo play, Freedom Flight, lançado em 1971. Mais uma vez explorando a mistura dos gêneros musicais negros com o rock, nosso herói cometeu outro ótimo álbum, apontando para uma carreira promissora. Entre as faixas, destaque para “Ice Cold Daydream”, “Sweet Thang”, “Me and My Woman” e sensacional faixa-título, uma jóia free jazz com mais de doze minutos.


Após esses dois primeiros discos, Shuggie se recolheu, retirando-se do cenário musical e trabalhando obcessivamente por três anos em seu próximo álbum. Finalmente, em 1974 chegou às lojas o aguardado Inspiration Information. O disco foi instantaneamente aclamado pela crítica como uma obra-prima, e não sem motivo. Shuggie toca todos os instrumentos do álbum, em um trabalho de arquitetura sonora semelhante ao de um artesão. O que se ouve no disco mostra o quanto o jovem músico estava bem à frente do seu tempo. A inserção de beats eletrônicos nas composições deixou muita gente de queixo caído, e influenciou definitivamente a música negra pós-Inspiration Information, notadamente gênios comerciais como Michael Jackson e Prince.

Talvez a principal influência de Shuggie no LP tenha sido outro ícone da música negra, Curtis Mayfield. A delicadeza das canções e as melodias doces que saltam dos sulcos grudam de imediato, soando como um bálsamo reconfortante para os ouvidos.

Aclamado por Inspiration Information, um universo repleto de possibilidades apontava para o futuro de Shuggie Otis. O guitarrista foi convidado para ingressar nos Rolling Stones no lugar de Mick Taylor, mas recusou a oferta pela chance de trabalhar com Quincy Jones em seu quarto álbum – que, infelizmente, nunca viu a luz dia.

Uma série de incidentes com outros músicos e problemas em shows aos poucos deram fama de difícil para Shuggie. O músico, já naturalmente introspectivo e com propensão à reclusão, afastou-se definitivamente dos palcos, produzindo apenas trabalhos como músico de estúdio contratado.

No final dos anos setenta algumas músicas suas foram regravadas por outros artistas, jogando os holofotes sobre Otis. Aliado a isso, faixas gravadas por Shuggie começaram a ser incluídas com frequência em coletâneas, despertando nos ouvintes o interesse e a curiosidade sobre o legado do músico. Esse processo alcançou seu ápice nos anos 2000, e culminou com o relançamento de seu principal trabalho, a obra-prima Inspiration Information, pela gravadora Luaka Bop, do pesquisador e líder do Talking Heads, David Byrne. Essa reedição de Inspiration Information chegou às lojas em 03 de abril de 2001 com uma nova capa e com a inclusão quatro faixas bônus, todas retiradas do álbum Freedom Flight, de 1971 – “Strawberry Letter 23”, Sweet Thang”, Ice Cold Daydream” e “Freedom Flight”.

Nos últimos anos, Shuggie Otis tem feito algumas gravações esporádicas, como o registro das faixas “Violet in Blue” e “Novemberin´”, essa última presente na compilação de mesmo nome, lançada em 2008. Além disso, colaborou com Mos Def e com Beyonce, mostrando que está ligado no que anda acontecendo na música pop atual.

Pessoalmente, apesar de considerar Inspiration Information uma obra-prima inquestionável, recomendo como porta de entrada para o universo multicolorido de Shuggie Otis a sua estreia, Here Comes Shuggie Otis, de 1970, um álbum perfeito e coeso na medida certa.


Pra fechar, uma dica: se você estiver dando uma volta por Sebastopol, pequena cidade californiana com quase oito mil habitantes distante cerca de 80 kilômetros de San Francisco, é bem capaz de você topar com Shuggie Otis pelas ruas e praças do lugar, já que Shuggie reside nesse lugarejo há vários anos. Se isso acontecer, não perca a chance de bater um papo com um dos músicos mais influentes das últimas décadas.

Classic Tracks: Camel - Lady Fantasy (1974)

sexta-feira, abril 30, 2010

Por Ronaldo Rodrigues

Colecionador

Apresentador do programa Estação Rádio Espacial

Solid Rock Radio


Seminal suíte do disco com o qual o Camel entrou pisando duro no mapa do rock progressivo inglês, que vivia seu apogeu. O álbum Mirage, lançado em 1º de março de 1974 pela Deram, não se saiu muito bem na Inglaterra, mas gerou uma boa repercussão nos EUA e rendeu uma extensa turnê por lá.

Segundo Andrew Latimer, guitarrista, vocalista e um dos principais compositores da banda, Mirage foi uma espécie de “contraponto” ao disco de estreia da banda, já que lá mantiveram as músicas com solos curtos e arranjos bem polidos, e aqui é nítida uma desenvoltura maior nos temas e uma maior proximidade do resultado sonoro que acontecia no palco, com mais pegada e virtuose. Também foi o momento em que a banda encontrou direcionamento, como Latimer revelou em uma entrevista.

Nos EUA, a banda estava abrindo os shows para o Wishbone Ash durante um período, mas foram convidados pela produção da tour à acompanhá-los em toda a turnê pelo país, ao longo de 3 meses, o que ajudou a fundamentar a reputação da banda, que a partir daí veio em um crescente. A formação na época era Andrew Latimer (guitarra, flauta e vocal), Peter Bardens (teclados), Doug Ferguson (baixo e vocal) e Andy Ward (bateria).

Os 12 minutos da faixa desenrolam-se com tanta fluidez que mergulham o ouvinte numa incrível excitação mental, relativizando a aparente extensão demasiada. A introdução é embasbacante, com uma fraseado sintetizado de Peter Bardens, cruzando uma conexão poderosa com a bateria, que em toda a canção se equilibra entre o estilo régio e o sóbrio. A apoteótica introdução margeia a melodia escultural da guitarra de Andrew Latimer, que compete lado a lado com os mais perfeitos solos de Jan Akkerman (Focus) ou David Gilmour (Pink Floyd). Em diante, os tranqüilos vocais de Latimer são pontuados por inteligentes intervenções de Bardens.

Em si, a canção não foge muito aos padrões mais convencionais do rock, mas o que a torna tão especial e sideral é a diversidade de idéias, tão bem combinadas, e a riqueza melódica, tão sensorial quanto intuitiva, que atinge o limiar quase intangível que une o genial ao assobiável. Para o solo de guitarra, uma base poderosa de baixo-teclados sustentada com mão pesada pela bateria, permite um vôo quase apocalíptico-estrondoso de Latimer e depois no urgente ataque das teclas sofisticadas de Bardens. O fechamento da suíte é com o mesmo tema que a inicia a canção, após a intro.

A letra foge um pouco do estereótipo progressivo de temas ficcionais, tratando de um relacionamento, um encontro, de uma maneira sutil, com a voz funcionando mais como instrumento do que na posição dos holofotes centrais da canção. Trata-se de um suposto amor por uma figura feminina idealizada. A suíte é dividida em três movimentos - "Encounter", "Smiles For You" e "Lady Fantasy". Para quem gosta de rock progressivo, a faixa em questão e o disco a que pertence são referências.


Leia também: Classic Tracks: Rolling Stones - Gimme Shelter (1969)

27 de abr de 2010

Coloque mais música na sua vida

terça-feira, abril 27, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room


Sem música a vida fica menos interessante. É a música que nos faz sorrir ao lembrar de uma recordação. É a música que nos transporta de volta aos saudosos tempos do primeiro amor. É ela que mantém vivo um mundo de descobertas que teima em, todos os dias, se perder na escuridão da memória.

Todo colecionador é um saudosista que se cerca daqueles discos, livros, filmes ou objetos que não o fazem perder de vista os capítulos mais importantes de sua vida. De quebra, ao fazer isso, ao criar uma espécie de santuário para itens que passam batido pela vida da maioria das pessoas, mantém vivas não apenas as sua lembranças, mas a própria história de todos nós, seres humanos.

Uma coleção de discos é muito mais do que um amontoado de LPs e CDs. É uma fonte rica de cultura, de experiências e sensações. Bob Dylan ao lado dos Beatles soltando fumaça. Mick Jagger e Jimmy Page divagando sobre a vida. Jim Morrison batendo papo com as paredes. E Miles Davis observando tudo quieto, arquitetando a sua próxima revolução sonora.

Nos sulcos de cada LP corre uma imensidão de possibilidades. Tanto na ida quanto na volta, ouvir um disco é uma experiência sagrada, sempre. Música é momento, e todo o momento pede uma música. Os sons dão cores aos nossos sonhos, confortam nossas angústias e acariciam nossos dias. Respiramos fundo, fechamos os olhos e somos transportados ao mundo que sempre sonhamos, todos juntos e cada um na sua.

Sonho em estar à frente de uma fundação com o objetivo levar o maravilhoso mundo da música até as pessoas. Mostrar que a música não tem limites. Ensinar instrumentos para as crianças, mostrar gêneros dos mais variados, ouvir samba com jazz, blues com funk, rock com MPB. Quebrar nos pequenininhos, ainda enquanto são pequenininhos, os limites que impedem as pessoas de ouvir de tudo, de perceber beleza, harmonia e fartura musical em todos os gêneros. Deixar claro que você pode ouvir rock e gostar de samba, que você pode entender o jazz e dançar o funk (onde você lê funk, estou falando do funk de verdade, e não do carioca).

Ser feliz é apreciar o valor das pequenas coisas. É curtir deitar ao lado de seu filho enquanto ele dorme assistindo a um DVD infantil. É deixar a sua mente vagar no ritmo das notas musicais que surgem ao seu redor. Ser feliz é deixar a vida acontecer, sem medo, sem vergonha e com muita música por todos os lados.

Seja feliz, ouça música e viva melhor!

26 de abr de 2010

Discos Fundamentais: Os Replicantes - O Futuro é Vortex (1986)

segunda-feira, abril 26, 2010

Por Ugo Medeiros
Colecionador
Coluna Blues Rock

O punk, acima de tudo, é uma forma de protesto. Diferentemente do estilo dylaniano, letras recheadas de críticas ao sistema aliadas à simplicidade musical característica ao folk, o punk usa o sarcasmo como principal ferramenta. Fugindo do arquétipo panfletário, que o rebaixou a mero contestador político-partidário, esse estilo teve suma importância social desde a sua primordial criação por bandas como MC5 e Stooges. A forma era simples: perturbar e cutucar o inimigo com vara curta à base de muito escárnio e fanfarronice.


Passaram-se os anos e o estilo ganhou uma estética própria. O mundo se distraia com a Guerra Fria, mas a juventude estava mais interessada nos Ramones, Hüsker Dü, The Undertones ou Black Fag.


Apesar da década de oitenta ter sido, até então, a mais tranquila dos últimos trinta anos, a crise política (final da ditadura militar brasileira) e econômica (a famosa “década perdida”) tornavam a produção cultural brasileira um tanto esquizofrênica. Uma militância política parasitando as artes assolava e tirava toda a pureza das obras. Fosse um texto, uma encenação teatral ou musical, era necessário ter um elo político. O mercado da “produção cultural” viu que discursos e ideologias políticas vendiam bem, logo, bastava apenas "colocar trancinhas" para esconder o aspecto natural de Nosferatu.


Evidentemente, isso também influenciou o punk. Apesar do atraso de quase dez anos, o estilo chegou ao Brasil e de imediato consolidou uma das escolas mais significativas desse estilo. O movimento que começou em São Paulo logo ganharia reconhecimento por todo o território nacional. Se por um lado havia bandas com fortes vínculos com órgãos políticos (PT, CUT, MST, entre outros), havia aqueles que, ainda, tentavam mostrar o quão frustrante era esperar algo via encenação política.
Nesse contexto, Porto Alegre dava a luz aos Replicantes, em 1983.


A formação inicial, e considerada clássica, contava com Carlos Gerbase (bateria), Wander Wildner (vocal), Cláudio Heinz (guitarra) e Heron Heinz (baixo). Após gravar um EP pelo selo Vortex com apenas quatro canções, "Rock Star", "O Futuro é Vortex", "Surfista Calhorda" e "Nicotina" – essas duas últimas tornando-se hits na rádio Ipanema - o grupo fez estrondoso sucesso na capital gaúcha.


O próximo passo seria um LP. O trabalho trazia muita expectativa, pois seria a oportunidade da banda mostrar que tinha calos o suficiente para se consolidar na cena roqueira nacional. O Futuro é Vortex (RCA) chegou às prateleiras e, consigo, trouxe novos ares que oxigenaram o processo criativo e a própria concepção do indivíduo e do movimento “punk”. O disco começa bem. "A Verdadeira Corrida Espacial" fala sobre os rumos que a humanidade escolhe. Ao escutar essa faixa, temos uma certeza: os sortudos pegarão o primeiro vôo para fora deste planeta, enquanto que os fodidos permanecerão nesse caos rotineiro a espera do juízo final (e claro, nesse meio tempo, tomando ferro!).


"Boy do Subterrâneo" traz um dos maiores medos da Guerra Fria, a possível guerra nuclear. Meu amigo, também geógrafo, Francisco Antunes, já chamara a minha atenção sobre a quantidade de bandas daquela época que exploravam esse tema. Alguém já parou para pensar aonde e o que fazem atualmente os cretinos da censura? Por onde anda a pessoa do Governo Militar que selecionava e carimbava as obras permitidas? Censor é uma reflexão sobre a apatia cultural causada pela repressão. Como a dita liberdade garantiu menos uma produção cultural rica em qualidade do que apenas em quantidade, acredito que esse “trabalhador” continuou mandato após mandato e, hoje, deve ocupar algum cargo no governo Lula. Ele mostra que se tem fidelidade apenas à quem assina o contracheque e que a palavra, e não o estado de coisa, “liberdade” foi apenas mais uma concessão do Estado. Teoria da conspiração? Foda-se, isso aqui é uma resenha de punk!


A agulha continua gritando em "Ele Quer Ser Punk" e "Hardcore", duas faixas curtas, entretanto bem diretas. O bom e velho rock’n’roll ressurgindo em uma terra onde ser roqueiro é ser “menos brasileiro”. "Hippie-Punk-Rajneesh" é uma das letras mais inteligentes do rock nacional e fala das diversas fases que um cara apaixonado passou ao longo da vida.


"Motel de Esquina" e "Mulher Enrustida" falam sobre mulheres. Na verdade, trazem letras bem lúcidas que representam tudo o que os homens sempre quiserem falar: apesar do nhe-nhe-nhé feminino, no fundo elas querem apenas sexo. Atualmente, tais composições seriam alvos do movimento feminista, resultando em ação judicial e ato público contra a banda.


A música homônima ao disco, "O Futuro é Vortex", mantém a pegada das anteriores. Porque não é praticamente um “selo de qualidade punk”. Em pouco mais de um minuto, o quarteto, finalmente, fala a verdade a respeito da música brasileira: “Agora eu sei qual é a deles. Já peguei no pé do Gil. Eu quero que o Caetano vá pra PUTA QUE O PARIU. (...) O Gismonti é um chato tô cansado de saber, o Chico era um velho mesmo antes de nascer. (...) O samba me da asma bossa nova é de fuder, prefiro tocar bronha e punkar até morrer”. Finalmente criou-se coragem para criticar os queridinhos da "intelectualidade" tupi repleta de brasilidades ...


O melhor fica reservado para o final. "Surfista Calhorda" é uma marca registrada dos Replicantes, um dos seus maiores sucessos. A moral dessa história de apenas três minutos e meio (a mais longa) é que sempre há um otário se achando o "rei da cocada preta".


E por último, mas nem por isso a menos importante, "Festa Punk", um dos maiores hinos do punk tupiniquim. Impossível escutar e não se lembrar dos áureos tempos de “rodinhas”.


O Futuro é Vortex é um trabalho de importância ímpar para o rock nacional. Letras diretas, músicas curtas, o melhor da pegada punk e o mais ácido humor dão forma a essa obra seminal.


Escutar e divulgar o começo de carreira dos Replicantes é um exercício necessário para manter vivo a maior criação do homem: o rock!

Plumas, paetês, hipocrisia e supervalorização

segunda-feira, abril 26, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room
O final de semana de quem gosta de música foi sacudido pela notícia de que Bret Michaels, vocalista do Poison e um dos ícones da cena glam metal de Los Angeles, sofreu uma hemorragia cerebral e está à beira da morte.

Pra quem não se lembra, não consumiu ou não viveu aquela época, o Poison foi um dos maiores nomes do chamado “hair metal”, cena californiana formada por bandas influenciadas pelo glam rock setentista de artistas como T. Rex e David Bowie e pelo hard rock de nomes como Kiss e Aerosmith.


O Poison, ao lado do Motley Crue, Ratt, Quiet Riot, Dokken e outros, deixou de cabeça para baixo o rock norte-americano do final dos anos oitenta e início dos noventa, fazendo um rock básico, festeiro e repleto de energia que contrastava com o visual esvoaçante da banda, com os músicos ostentando fartas doses de maquiagem, figurinos pra lá de coloridos e vastas cabeleiras de fazer inveja a Tina Turner. Essa mesma geração de bandas geraria um dos maiores nomes da história do rock, o Guns N´Roses, mas isso é assunto para outro dia. Pessoalmente nunca curti muito esse hard rock californiano, que por aqui no Brasil ganhou primeiramente a alcunha de poser e, mais tarde, a nada elogiosa definição de “hard farofa”.

O fato é que foi justamente o visual andrógino e repleto de laquê desses grupos de Los Angeles que gerou uma reação no próprio rock norte-americano, levando ao nascimento do grunge e de grupos como Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam, todos com letras falando de temas mais próximos da realidade e com um visual onde o uniforme era tênis de cano alto, calças jeans e camisetas de bandas.

Uma parcela da crítica brasileira especializada em heavy metal aponta, equivocadamente, o grunge como único responsável pela queda das vendas desses grupos de hair metal nos Estados Unidos e, por conseqüência, da “morte do metal” na primeira metada da década de noventa. Uma bobagem sem tamanho, uma vez que basta olhar para trás para ver que a música é feita de ciclos – a reação ao hard farofa californiano é similar a que ocorreu nos anos setenta, quando o punk surgiu como uma resposta aos excessos do rock progressivo.


Além disso, os ouvintes mais novos provavelmente não irão lembrar, mas no início da década de noventa o Black Sabbath não tinha o seu valor e influência na música reconhecidos como hoje tem, e só foi alcançar essa credibilidade junto à crítica musical de maneira ampla e irrestrita graças a bandas como Nirvana e Soundgarden, que não cansavam de apontar o grupo como uma de suas principais influências.

Independente do fato de Bret Michaels sair dessa ou não, o fato é que já tem gente supervalorizando a sua obra, apontando os discos do Poison como “clássicos”. Ora gente, vamos lá, vamos abrir os olhos: os álbuns do Poison não passam de medianos, e reunindo sua melhores canções temos no máximo uma boa coletânea. Isso é um fato, então vamos deixar o fanatismo de lado. Além do mais, a sua mais conhecida canção, “Unskinny Bop”, é uma bobagem sem tamanho, digna de causar vergonha em figuras assumidamente pop como Lady Gaga.

Vou encerrar esse texto com dois pedidos: espero que Bret Michaels supere esse grave problema e siga em frente com a sua vida, e também desejo que os críticos e formadores de opinião que pipocam internet afora não comecem a apontar os trabalhos do Poison como "seminais" e adjetivos do tipo, coisa que eles nunca foram e nunca serão.

No mais, coloquem um disco do Quiet Riot a todo volume e gritem a plenos pulmões: “metal health!!!”.

25 de abr de 2010

Discos Esquecidos: Carnaby Street Pop Orchestra and Choir - Carnaby Street Pop Orchestra and Choir (1969)

domingo, abril 25, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

A Carnaby Street Pop Orchestra And Choir, liderada por Keith Mansfield, foi uma orquestra que lançou um único LP com essa designação, bastante cultuado no Brasil e disputado entre colecionadores mundo afora, cujo tema da capa é The London Theme.

Keith Mansfield fez o seu nome ainda durante a década de sessenta graças ao seu trabalho de arranjador para discos de artistas como Dusty Springfield, Tom Jones e Georgie Fame. Mas, como aconteceu com tantos outros orquestradores, Keith Mansfield também editou discos com seu próprio nome, LPs em que dava o seu toque especial a hits da época. Exemplos disso são trabalhos como
All You Need is Keith Mansfield (CBS, 1968) em que se fazia acompanhar de outros gigantes, como Alan Hawkshaw (o responsável pelos grandes Mohawks).

The London Theme foi o único LP lançado sob o nome Carnaby Street Pop Orchestra and Choir. Seria apenas mais uma orquestra se não fosse pelo fato de conter uma verdadeira relíquia: a sua sétima faixa - "Dr Jeckle and Hyde Park" - é o tema utilizado pela Rede Globo em um dos programas de esportes mais antigos da TV brasileira, o Esporte Espetacular. No Brasil o nome foi trocado para "Hyde Park". Esta mesma música foi utilizada na novela Selva de Pedra, produzida em 1972 e com participação de nomes como Francisco Cuoco e Regina Duarte. Outra faixa do disco utilizada nesta novela é "A Taste of Excitement", tema da personagem de Regina Duarte. Também foi utilizada em Selva de Pedra a faixa 10, "Drum Diddley", apenas como passagem entre um intervalo e outro da novela.

A capa do CD lançado em 1998

Em 1998 o selo inglês Recur Records lançou um CD com as gravações originais mais oito faixas bônus, com o título
Carnaby Street Pop Orchestra and Choir. Esse mesmo disco saiu no Brasil em vinil pela Top Tape em 1978, contudo com uma capa diferente, bem como a ordem das faixas. Tanto o LP original lançado em 1969, como o lançado no Brasil em 78, bem como o CD lançado de 1998 com as gravações originais remasterizadas não estão mais em catálogo, tornando o disco mais raro ainda.

O fato é que o conteúdo musical do único LP lançado pela Carnaby Street Pop em 1969, de onde se tem poucas referências, sobrevive na mídia pelas mãos de "Dr Jeckle and Hyde Park", que ainda é utilizada como tema de abertura de um programa de TV após 40 anos de sua gravação. O título "Dr Jeckle and Hyde Park" é um trocadilho com o Hyde Park em Londres e a história de Dr Jekyll e Hyde do filme
O Médico e o Monstro
. No Brasil o nome original foi trocado para "Hyde Park".

LP lançado no Brasil em 1978 pela Top Tape:


Lado A
A Taste of Excitement
Hyde Park
Funk Fanfare
Drum Diddley
Boom Bang a Bang
Teenage Carnival

Lado B
Show Rocker
Piccadilly Night Ride
Congratulations
London Hilton
Yong Scene
Puppet on a String

CD Lançado em 1998 pela Recur Records.


1. Young Scene - 2:31
2. Puppet on a String - 2:33
3. Slow Rocker - 2:43
4. Picadilly Night Ride - 1:53
5. Congratulations - 2:43
6. London Hilton - 2:43
7. Dr Jeckle and Hyde Park - 2:45
8. A Taste of Excitement - 2:50
9. Boom Bang-a-Bang - 2:09
10. Drum Diddley - 2:18
11. Teenage Carnival - 2:40
12. Funky Fanfare - 2:31
13. Monday´s Child - 3:21
14. Double Act - 2:33
15. Pop Package - 3:06
16. Main Line Special - 2:49
17. Power Montage - 2:37
18. Soul for Sale - 3:09
19. Pop Fugue - 2:57
20. Gold Metal - 2:37

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