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Demonic (1997): quando o Testament mergulhou de vez no peso extremo


Ao longo dos anos 1990, poucas bandas de thrash metal passaram por tantas transformações quanto o Testament. Depois de consolidar seu nome com clássicos como The Legacy (1987), The New Order (1988) e Practice What You Preach (1989), o grupo viu o cenário musical mudar rapidamente. Com o avanço do groove metal e do death metal, além da perda de espaço comercial do thrash tradicional, muitas bandas buscaram novos caminhos. Em 1997, o Testament apresentou sua resposta a esse contexto com Demonic, um álbum que até hoje divide opiniões entre os fãs.

Lançado em 24 de junho de 1997, Demonic foi gravado durante um período de instabilidade na formação. Chuck Billy e Eric Peterson eram os únicos remanescentes do núcleo criativo que havia construído a reputação da banda. Ao lado do baterista Gene Hoglan (Death, Dark Angel) e do baixista Derrick Ramirez, o grupo apostou em uma sonoridade muito mais extrema do que qualquer coisa que havia feito até então.

O que chama atenção logo nos primeiros minutos é a mudança radical de abordagem. Os riffs rápidos e os solos abundantes dos discos clássicos dão lugar a guitarras mais graves, estruturas mais simples e uma forte influência do groove metal e do death metal. Chuck Billy também modifica sua interpretação, utilizando vocais agressivos e guturais em boa parte das faixas. O resultado é um álbum pesado, sombrio e opressivo, que se distancia consideravelmente da identidade tradicional do Testament.

A abertura com “Demonic Refusal” deixa claro o que está por vir. A música apresenta riffs densos, andamento cadenciado e uma atmosfera ameaçadora que se mantém ao longo de praticamente todo o disco. “The Burning Times” surge como um dos pontos altos do trabalho, combinando peso e intensidade de maneira eficiente. Já “Together as One” mostra uma banda confortável explorando territórios mais próximos do groove metal, enquanto “John Doe” aposta em uma construção arrastada e obscura.

Outros destaques incluem “Murky Waters”, marcada pelo clima sufocante e pelas excelentes linhas vocais de Chuck Billy, e “Ten Thousand Thrones”. Até mesmo faixas menos lembradas, como “Jun-Jun”, ajudam a reforçar a unidade sonora do disco.

Essa consistência, entretanto, também pode ser vista como um dos problemas de Demonic. A ausência de maior variedade entre as composições faz com que algumas músicas soem semelhantes. A redução dos solos e o foco quase exclusivo no peso também afastaram parte do público que esperava ouvir elementos mais próximos do thrash metal clássico.

Apesar das críticas recebidas na época, Demonic envelheceu melhor do que muitos imaginavam. O álbum funciona como um importante elo entre Low (1994) e The Gathering (1999), antecipando a aproximação do Testament com sonoridades mais extremas que seriam refinadas no trabalho seguinte. Embora esteja longe de ser um consenso, trata-se de uma obra que demonstra coragem artística e disposição para experimentar em um momento de profundas mudanças no metal.

Talvez Demonic nunca figure entre os títulos mais celebrados da discografia do Testament, mas também não merece ser lembrado apenas como um desvio de rota. É um registro pesado, sombrio e honesto, que captura uma banda tentando sobreviver e se reinventar em uma das fases mais turbulentas de sua trajetória. Para quem aprecia o lado mais agressivo do Testament, a audição continua sendo uma experiência que vale a pena.

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