Para muita gente, O Máskara é imediatamente associado a Jim Carrey, ao terno amarelo e ao humor cartunesco do filme de 1994. Mas existe um outro Máskara, bem mais insano, violento e politicamente incorreto, escondido nas páginas das HQs da Dark Horse. É esse personagem que a Pipoca & Nanquim resgata na edição que reúne as três primeiras minisséries escritas por John Arcudi e desenhadas por Doug Mahnke.
Criado por Mike Richardson, o conceito do Máskara ganhou sua forma definitiva no final dos anos 1980, quando Arcudi e Mahnke assumiram o personagem. A proposta era combinar a lógica dos desenhos animados de Tex Avery com a violência de filmes como O Exterminador do Futuro. O resultado é exatamente tão absurdo quanto essa mistura sugere. Stanley Ipkiss é um sujeito inseguro, reprimido e cheio de frustrações. Ao encontrar uma misteriosa máscara, descobre que ela possui a capacidade de eliminar suas inibições. O problema é que aquilo que surge por trás da máscara não é exatamente um herói. É uma criatura de humor delirante, poderes aparentemente ilimitados e uma disposição assustadora para a violência.
Esse é o grande mérito da HQ: a máscara não funciona simplesmente como uma fonte de superpoderes. Ela serve como um catalisador para os desejos e impulsos de quem a utiliza. Ao longo das histórias, outros personagens também entram em contato com o objeto, permitindo que Arcudi explore diferentes manifestações desse mesmo conceito.
A diferença para o filme é enorme. Enquanto a produção estrelada por Jim Carrey transformou o personagem em uma espécie de super-herói cômico, os quadrinhos são muito mais próximos de uma comédia de humor negro com doses generosas de violência gráfica. Arcudi não torna seus personagens particularmente simpáticos, e justamente por isso consegue extrair situações genuinamente imprevisíveis. Doug Mahnke é fundamental para esse funcionamento. Seu desenho transita entre a caricatura e o grotesco, exagerando expressões, corpos e movimentos até transformar as páginas em uma espécie de desenho animado enlouquecido. A violência, por mais brutal que seja, ganha uma dimensão quase absurda graças à linguagem visual do artista.
Publicado pela Pipoca & Nanquim em uma caprichada edição de capa dura com 380 páginas, O Máskara reúne as três primeiras séries do personagem: O Máskara, O Retorno do Máskara e O Máskara Contra-Ataca. É uma oportunidade de conhecer a origem de um personagem que acabou sendo completamente remodelado pelo cinema.
Mais do que uma simples curiosidade para quem cresceu assistindo ao filme, a HQ de Arcudi e Mahnke funciona como um retrato particularmente divertido do espírito irreverente dos quadrinhos independentes americanos dos anos 1990. E talvez sua maior ironia esteja justamente aí: o personagem que o cinema transformou em uma figura engraçadinha nasceu, nas páginas dos quadrinhos, como uma representação bastante perturbadora daquilo que pode acontecer quando finalmente perdemos todos os nossos freios.
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Olá Ricardo.
ResponderExcluirAssim como comi muito miojo antes de provar Lamen em algum restaurante, conheci todos os derivados de O Máskara antes de tomar contato com os quadrinhos da série (como a grande maioria no Brasil né?)
Lendo sua resenha lembrei de todo alerta de diversão que o filme causou lá nos anos 90 - se saiu do cinema, tenta alugar na locadora de terça a quinta, sexta em diante não se encontrava! - e também logo depois (poucos anos) o game do Máskara para SNES fez muito sucesso , era bastante doidão, capturava a imaginação. Sem esquecer que, posteriormente, ainda saiu o desenho, com aquela abertura que todo mundo gritava junto (rs).
Como eu acompanhava gibis, sabia que existia lá fora as histórias do Máskara, mas só fui tomar contato depois dos derivados formaram as imagens na minha cabeça. Adquiri na primeira vez que a PN lançou e a sensação foi de expansão completa do personagem, como você frisou muito bem na resenha, essas camadas humor ácido e mais maduro que os derivados. Lembro que quando chegou em casa eu abri e a primeira coisa que li foi " vamos voltar lá e pegar aqueles nazistinhas", opa! Algo mudou ali naquele máscara que eu tinha comigo.
Um abraço, conheci seu blog há pouco tempo e sempre passo por aqui.