1 de mar de 2014

Entrevista com o colecionador Julio Escritor

sábado, março 01, 2014

"Uma vida é pouca para tudo o que ainda pretendo fazer", diz uma postagem recente no Facebook do primeiro entrevistado do quadro Minha Coleção deste mês. Julio César de Souza Marques, o Julio Escritor, é estudante de história, escritor, filatelista, numismata, audiófilo e colecionador de antiguidades em geral. Seu acervo de rock nacional é de deixar qualquer um com inveja. Aperte o play e acompanhe mais este bate-papo. 

Por Marcelo Vieira 

Comece se apresentando para os leitores do Collector's Room! 
Me chamo Julio Cesar, tenho 28 anos e moro em Itaboraí, no Rio de janeiro. Trabalho no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ), faço faculdade de História, escrevo romances, coleciono discos... Este sou eu, um cara excêntrico, único, impossível de rotular. [risos] 

Vamos falar logo sobre os seus discos. De onde veio essa paixão? 
Lembro de quando eu tinha uns 6, 7 anos e ficava no quintal de casa brincando com um velho toca-discos. Sempre gostei de discos, mesmo quando eu não tinha nenhum. Era eu que cuidava do toca-discos lá de casa. Consigo até ouvir minha mãe dizendo "Julio, vira o disco!". [risos] 

Quando a sua coleção, de fato, começou? 
Minha coleção começou oficialmente em 2003 com o compacto Pintura Íntima do Kid Abelha. Aí fui correndo atrás de comprar todos da banda. Sempre que eu via discos de rock nacional dos anos 1980, comprava também. Acabei me apaixonando pelo rock dessa época. Hoje em dia, tenho várias discografias completas!


O Kid Abelha é a sua banda favorita? 
Sim e é inclusive a banda da qual eu possuo mais itens: 40 ao todo. 

Conta para a gente como se tornou a sua banda favorita. 
Eu estava num momento ruim, problemas particulares etc. Colecionar os discos do Kid manteve a minha cabeça ocupada e me fez esquecer um pouco os problemas. As letras das músicas pareciam falar sobre a minha vida. Foi uma paixão avassaladora. [risos] Eles são únicos — nenhuma banda é igual ou se compara a eles.


Você concorda que o rock brasileiro foi amolecendo com o passar do tempo? 
Nos anos 1980 existiam a criatividade e o questionamento político, mas tudo isso teve fim com a queda das gravadoras e a internet, tanto que as bandas antigas não têm interesse em lançar coisas novas. Hoje em dia, toda banda pode gravar e se autopromover na internet. O problema é que não há um filtro de talentos como havia antigamente, ou seja, todo tipo de lixo é despejado em cima do público e cabe ao público decidir o que é bom e o que não é. 

Mas ainda devem existir bandas antigas lançando coisas boas e também bandas recentes que mereçam uma conferida, né? 
As bandas dos anos 1980 fazem muitos shows, mas, no geral, não gravam coisas com o valor de antigamente. Das bandas novas, tem o Vanguart e o Fiddy, sendo esta última um rock humorístico da melhor qualidade! 

Voltando à coleção, quantos itens ela possui atualmente? 
Exatos 1.787 discos de todos os estilos, mas principalmente de MPB e rock nacional. CDs tenho poucos, apenas o necessário para completar algumas discografias. 

Para você, quais as vantagens e desvantagens do LP em relação ao CD? 
O LP explora sentidos além da audição: visão ao admirar as capas em tamanho real; tato ao manusear aquele bolachão imenso e olfato pelo cheiro inconfundível de disco guardado há muito tempo. A única desvantagem é que não tem a mesma praticidade que o CD. 

Como você organiza a sua coleção? 
Através de catálogos que preencho a caneta, com os títulos em ordem alfabética. Colo um pequeno adesivo em cada disco com o ano de lançamento e o número de registro no catálogo. 

Quais os itens mais raros da sua coleção? 
Tenho o primeiro disco do João Gilberto, alguns do Raul Seixas, a coletânea Rock Voador, que revelou Kid Abelha e Celso Blues Boy e discos de 78 rpm da década de 1940, entre outros.


Qual LP te custou mais caro? E em qual você pagou mais barato? 
O mais caro foi Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets, 70 reais. O mais barato foi o ...And Justice for All do Metallica, três reais na mão de um mendigo bêbado embaixo de um viaduto. 

Três reais???! Conta essa história para a gente!! 
Um amigo e eu estávamos voltando frustrados de uma feira que vende games antigos. Não há nada pior para um colecionador do que voltar para casa de mãos abanando! [risos] No final da feira, vi o tal mendigo, que pelo cheiro não devia tomar banho há tempos. Ao lado dele estava aquela pilha de discos em péssimo estado. Pedi para olhar despretensiosamente e lá estava o Metallica em excelente estado! Como aquele disco foi parar lá é um mistério. Em lojas, esse vinil não sai por menos de 40 reais. Perguntei quanto era e ele disse: "Isso aí é rock do bom, relíquia, me dá três real (sic) para a cachaça!". Voltei para casa felizão! [risos]


Além de comprar discos com mendigos [risos], onde você costuma fazer suas compras? 
Vou muito à Galeria Good Star, em Niterói, além de feiras livres onde se vendem coisas usadas. Tem também as feiras do Laranjal e de Neves em São Gonçalo, além da famosa feira da Praça XV todo sábado de manhã. 

Quais são os seus 10 discos favoritos? 
Engenheiros do Hawaii - O Papa é Pop 
Biquíni Cavadão - Descivilização 
Ultraje a Rigor - Nós Vamos Invadir a Sua Praia 
Titãs - Cabeça Dinossauro 
Kid Abelha - Educação Sentimental 
Rita Lee - Fruto Proibido 
Cazuza - Ideologia 
Legião Urbana - V 
Os Paralamas do Sucesso - Selvagem? 
Overdose - Circus of Death 

Além de discos, você coleciona outras coisas, certo? 
Sim. Coleciono aparelhos de som, moedas, cédulas e selos. 

Esse colecionismo é herança de família ou se deve ao fato de você ser estudante de história? 
Quando eu era pré-adolescente, já colecionava moedas e já tinha certeza que queria ser historiador. Uma coisa levou à outra.


Qual a diferença entre colecionar moedas e selos e colecionar discos? 
Moedas e selos são coleções estáticas, que a gente pega, olha e depois guarda. Os discos, além do fator raridade, você ainda pode curtir o som! 

E os aparelhos de som? 
Comecei comprando aparelhos quebrados e tentando consertar por conta própria. Acabava os destruindo ainda mais! [risos] Mas com o tempo, aprendi a consertar toca-discos. Já tive muitos; hoje em dia tenho apenas alguns, entre eles uma radiola à válvula de 1968 que eu mesmo restaurei e é o meu xodó. 

Você também é autor de livros. Fale um pouco sobre essa atividade. 
Há quatro anos embarquei na loucura de escrever um livro. Vi na TV uma reportagem sobre um site onde qualquer um pode publicar um livro gratuitamente e investi na ideia. Já publiquei cinco livros desde então. Faço tudo sozinho, até as capas, e adoro fazer isso. Espero um dia ter uma oportunidade, encontrar alguma editora que aposte em mim e sair do anonimato.


Que conselho você daria para um jovem escritor?
Não deixe o seu talento na gaveta! Você não tem o direito de privar o mundo da sua criatividade! 

E para quem está pensando em começar a colecionar discos? 
Lembre-se: você não pode comprar felicidade, mas pode comprar discos, que é a mesma coisa. 

Contato: julio.souzamarques@yahoo.com.br

28 de fev de 2014

Top Collectors Room: os 35 melhores discos de thrash metal de todos os tempos

sexta-feira, fevereiro 28, 2014
Entre os inúmeros gêneros do heavy metal, poucos tem os seus principais trabalhos distribuídos entre tão poucas bandas como o thrash. A alcunha Big 4 não existe à toa, já que o quarteto Metallica, Slayer, Anthrax e Megadeth é responsável pelos maiores clássicos do gênero.

Mas o thrash vai muito além destas quatro bandas norte-americanas. O estilo se popularizou rapidamente pelo mundo durante a década de 1980 e viu nascer ótimos representantes em diversos países.

Essa lista, como todas que publicamos aqui na Collectors, não passa nem perto de ter alguma pretensão de ser definitiva. Ela serve, isso sim, para elencar os principais discos lançados em toda a história do thrash metal, como um guia para você que quer saber mais sobre o gênero.

Como ela foi feita? Compilamos 17 listas diferentes com os melhores discos de thrash metal já lançados, publicadas em todo o mundo em revistas como Decibel e Terrorizer e sites como About.com Heavy Metal. Utilizamos também as avaliações dos sites Rate Your Music, All Music e Metal-Archives. Tendo como base todos esses números, chegamos ao resultado final abaixo.

Você pode gostar do que vai ler. Você não precisa concordar com o resultado final. Você deve dividir conosco a sua impressão sobre a lista, e também gostaríamos que compartilhasse o seu top 10 thrash nos comentários. E, é claro, ficaríamos muito felizes se você fosse atrás e ouvisse os álbuns que ainda não conhece e estão presentes em nosso levantamento.

Com vocês, os 35 melhores discos de thrash metal de todos os tempos:

35 Nevermore - Dead Heart in a Dead World (2000)
34 Exodus - Fabulous Disaster (1989)
33 Slayer - South of Heaven (1988)
32 Nevermore - This Godless Endeavor (2005)
31 Exodus - Tempo of the Damned (2004)
30 Flotsam and Jetsam - Doomsday for the Deceiver (1986)
29 Pantera - Cowboys From Hell (1990)
28 Kreator - Coma of Souls (1990)
27 Testament - The Legacy (1987)
26 Overkill - Horrorscope (1991)
25 Testament - The New Order (1988)
24 Annihilator - Never, Neverland (1990)
23 Metallica - ... And Justice for All (1988)
22 Slayer - Show No Mercy (1983)
21 Artillery - By Inheritance (1990)
20 Sodom - Agent Orange (1989)
19 Sepultura - Arise (1991)
18 Destruction - Eternal Devastation (1986)
17 Slayer - Seasons in the Abyss (1990)
16 Kreator - Extreme Agression (1989)
15 S.O.D. - Speak English or Die (1985)
14 Overkill - The Years of Decay (1989)
13 Dark Angel - Darkness Descends (1986)
12 Sepultura - Beneath the Remains (1989)
11 Metal Church - Metal Church (1985)
10 Slayer - Hell Awaits (1985)
9 Anthrax - Among the Living (1987)
8 Megadeth - Peace Sells ... But Who’s Buying? (1986)
7 Kreator - Pleasure to Kill (1986)
6 Exodus - Bonded by Blood (1985)
5 Metallica - Kill ‘Em All (1983)
4 Metallica - Ride the Lightning (1984)
3 Metallica - Master of Puppets (1986)
2 Megadeth - Rust in Peace (1990)
1 Slayer - Reign in Blood (1986)

Por Ricardo Seelig

Led Zeppelin, The Who e a lei da oferta e procura

sexta-feira, fevereiro 28, 2014
A lei da oferta e da procura estabelece a relação entre a demanda de um produto — isto é, a procura — e a quantidade deste produto que é oferecida, que está disponível em mercado, a oferta. Se ambas, demanda e oferta, são altas, o valor é nivelado por baixo, mas se a demanda é alta e a oferta é baixa, recordes podem ser quebrados.

A equação é simples: demanda + escassez = valor.

The Who e Led Zeppelin, duas bandas lendárias que dominaram o mundo do rock nos anos 1970. Ambas nasceram no final dos anos 1960, têm raízes musicais bem definidas e possuíam grandes e inovadores bateristas que partiram desta vida por razões atreladas direta ou indiretamente ao alcoolismo — Keith Moon e John Bonham.

A diferença entre Who e Zep reside em como cada banda reagiu a perda de seus bateristas. Keith Moon morreu dormindo, na madrugada de 7 de setembro de 1978, vítima de uma overdose acidental de, veja você, medicamentos prescritos para combater o alcoolismo. O The Who virou a página e encontrou na figura de Kenney Jones, ex-Small Faces, o substituto ideal, com o qual gravariam Face Dances (1981) e It's Hard (1982). Após idas e vindas e a morte de outro integrante da formação original (John Entwistle, o baixista, se foi em 2002), o The Who segue embarcando em turnês esporadicamente.


Já o Led Zeppelin deixou de existir após a morte de John Bonham, em 25 de setembro de 1980. Assim como Moon, o baterista do Led Zeppelin teve morte acidental — só que causada por nada menos que umas 40 doses de vodka. Desde então, Jimmy Page, Robert Plant e John Paul Jones só se reuniram como Led Zeppelin em três ocasiões, sendo a primeira delas em 1985, no festival Live Aid, trazendo Phil Collins (Genesis) na bateria, numa apresentação "bestial", segundo Plant. Em 2007, os três decidiram se apresentar no show em memória de Ahmet Ertegun, presidente da Atlantic Records. Com Jason Bonham, o filho do homem, na bateria, entraram para o Livro Guinness dos Recordes como "Maior Procura por Ingressos para um Concerto Musical". Foram mais de 20 milhões de pedidos online.

Houve quem apostasse em turnê de reunião ou coisa que o valha, mas, realmente, não passou daquele one night only. Exibido em mais de 40 países, o show arrecadou em torno de 2 milhões de dólares. Em 2012, chegou às lojas em DVD e Blu-ray com o título mais adequado possível: Celebration Day.

Tanto o The Who quanto o Led Zeppelin merecem ter reconhecidos os seus lugares entre as maiores bandas de rock da história, mas em se tratando de agregar valor à marca, o Led soube fazê-lo ao manter a oferta muito abaixo da procura.

Por Marcelo Vieira

Livro clássico da cultura zumbi será lançado pela primeira vez no Brasil

sexta-feira, fevereiro 28, 2014
Considerado o marco zero da cultura zumbi, A Noite dos Mortos Vivos foi lançado em 1968 e mudou definitivamente a maneira como o tema foi explorado a partir de então. Vem do filme dirigido por George Romero e roteirizado pelo cineasta e por John Russo todas as regras que até hoje acompanham séries como The Walking Dead, jogos como Resident Evil e sátiras como Zumbilândia. Se todo mundo hoje sabe que para matar um zumbi é preciso atirar em sua cabeça, é porque Romero e Russo criaram esse e outros macetes.

A Darkside Books está lançando pela primeira vez no Brasil o livro A Noite dos Mortos Vivos, escrito pelo próprio John Russo, obra que transpõe para a literatura o clássico filme. Com 320 páginas, a obra traz como bônus o texto do que seria a continuação jamais filmada de A Noite dos Mortos Vivos, intitulada A Volta dos Mortos Vivos (um filme com o mesmo título foi lançado em 1985, no gênero “terrir” - comédias de terror). São dois livros em um, prestando tributo a uma das obras cinematográficas mais influentes da história não apenas do cinema, como da cultura pop como um todo.

O impacto de A Noite dos Mortos Vivos foi gigantesco. Greg Nicotero, maquiador de The Walking Dead, declarou que “A Noite dos Mortos Vivos é como o cálice sagrado dos filmes de zumbi. O filme foi uma espécie de farol para o episódio piloto de The Walking Dead”. Michael Jackson também prestou tributo à obra no clássico clipe de “Thriller”, lançado em 1983 e considerado por muitos o melhor vídeo musical já gravado.


A Noite dos Mortos Vivos chegará às livrarias brasileiras durante o mês de março em duas versões: a Classic Edition, com acabamento em brochura e preço mais acessível, e a Limited Edition, com capa dura.

O que isso tem a ver com um site de música, você deve estar se perguntando? A Collectors Room tem como objetivo levar sempre conteúdo diferenciado para os seus leitores. A maioria das pessoas que acessam o site são fãs de heavy metal, e a cultura do metal é bastante próximo à dos filmes de terror. Por esse motivo, esse livro tem tudo para agradar uma parcela considerável de nossos leitores.

Não precisa nem dizer que é uma obra sensacional, que não dá pra perder.

Para maiores informações, acesse o site da Darkside Books.

Por Ricardo Seelig

Por que Load, do Metallica, e Risk, do Megadeth, fazem até hoje os fãs mais radicais torcerem o nariz?

sexta-feira, fevereiro 28, 2014
Metallica ou Megadeth? Com certeza você, amigo leitor, já se fez essa pergunta ou participou de alguma discussão acalorada entre amigos sobre qual dos dois dos principais ícones do thrash metal é o melhor. Bem, esse texto não tem como objetivo alimentar ainda mais esse tema, até por que com certeza quem lê essas linhas já tem a sua opinião mais do que formada a respeito dessas duas bandas. O assunto aqui é outro. Por mais que a banda liderada por James Hetfield e Lars Ulrich de um lado e a outra sob o comando ditatorial do líder Dave Mustaine tenham seguido caminhos distintos em termos de sonoridade em suas carreiras, é fato que mais ou menos na mesma época ambas têm um ponto em comum: o lançamento de dois discos controversos e que até hoje são considerados como o ponto baixo em suas discografias – sim, eles mesmos! Estou falando de Load (1996) e Risk (1999). Os dois álbuns tem em comum, além da mudança visual das bandas, afinações predominantemente baixas nos instrumentos, logotipos novos, maquiagens e cabelos curtos por parte da maioria de seus integrantes. Em casos mais extremos, até mesmo “beijo na boca” entre Lars Ulrich e Kirk Hammett.  Mas vamos ao que interessa: será que o que realmente importa – a música – é realmente ruim?

Mesclando elementos do grunge, hard rock, blues e até mesmo do country norte-americano, Load não deixa a desejar a nenhum lançamento anterior na discografia do Metallica. Sem querer bancar o advogado do diabo, mas o disco é realmente bom e tem seus méritos! Assim como Risk, levemente inferior, mas igualmente instigante quanto à sonoridade buscada por Mustaine, incluindo ao thrash agressivo da banda samplers, uma forte influência de industrial, elementos pop, country e também influenciado pelo rock alternativo lançado nos anos 1990. Quanto ao primeiro, é difícil considerar mediano ou ruim um álbum que contém composições do quilate de “Until It Sleeps”, “Hero of the Day”, “Bleeding Me” ou “Mama Said”. Já no segundo, o destaque fica por conta de “Prince of Darkness”, “Crush’em” - que fez parte da trilha sonora do filme Universal Soldier: The Return, lançado no Brasil como Soldado Universal 2 -, “I’ll Be There”, a divertida e inesperada “Seven” e a sequência final “Time: The Beginning” e “Time: The End”.

Já foi dito que, se não fossem lançados sob as patentes de Metallica e Megadeth, Load e Risk seriam sucessos absolutos de crítica. Quem sabe, provavelmente sim. Mas não teriam a graça do desafio da fuga do status quo, que é o que deveria mover toda banda em termos criativos. Como o que ouvimos cada vez mais por aí, bandas cada vez mais soando como paródias de si mesmas e incluindo poucas novidades ou inovações em suas carreiras.
 

Em retrospecto, é perceptível que a mudança de sonoridade nesses dois casos nem foi tão radical assim. Falando do Metallica, ouça com atenção o Black Album (1991). Ou mesmo “One”, de ...And Justice for All (1988). Desde então, é clara a busca da banda de Los Angeles por novas sonoridades, buscando a auto afirmação após a morte de Cliff Burton, em 1986. Possivelmente, se Cliff estivesse vivo, a música da banda não seguiria por esses caminhos. Já no Megadeth, a busca de Mustaine por novos elementos para a sua música teve origem em Countdown to Extinction (1992), passando por Youthanasia (1994) e se acentuando-se ainda mais em Cryptic Writings (1997). Ou seja, não foi da noite para o dia que as bandas resolveram fazer um som “diferente”. Eles optaram pela mudança, mas será que os fãs estavam preparados para isso? A julgar pela recepção dos mais radicais, até hoje ainda não. Na verdade, eles ainda esperam que todo disco por eles lançado seja uma cópia de Master of Puppets (1986) ou de Rust in Peace (1990). Prova disso, o Metallica vêm realizando apresentações com o setlist escolhido pelos fãs via internet, intitulado Metallica by Request. Olhe o setlist de uma forma geral, com as escolhas dos internautas. Seguido de outras escolhas óbvias, está lá, no topo de todas as pesquisas o desejo dos headbangers em gritar a plenos pulmões: “Master, master!”. Um setlist totalmente manjado e previsível, não muito diferente das apresentações que o grupo vêm realizando ultimamente. Fosse pelo desejo dos fãs, suas bandas favoritas lançariam sempre o mesmo disco com a mesma sonoridade. Ainda bem que nem todo mundo pensa assim, não é?

Quatro letras e um desafio. Sem a carga de risco (qualquer alusão aos títulos e a proposta dos álbuns em questão não será mera coincidência) que envolve o instinto criativo de seus compositores, as carreiras de muitas bandas seriam destinadas ao ostracismo e ao tédio. Exemplos disso não faltam por aí. Portanto, ouça novamente e com atenção esses discos, deixe o “mais do mesmo” de lado e dê a devida atenção a esses dois belos álbuns. A aventura vale a pena, tanto para quem os grava, como pra quem os ouve. Assim, Metallica e Megadeth foram além do óbvio, como é a proposta deste site que você lê todos os dias.

Por Tiago Neves

27 de fev de 2014

Crítica do livro Max Cavalera: My Bloody Roots

quinta-feira, fevereiro 27, 2014
Versão nacional de My Bloody Roots: From Sepultura to Soulfly and Beyond, autobiografia escrita com a ajuda de Joel McIver, o livro que conta a vida de Max Cavalera nas palavras do próprio músico foi lançado no Brasil pela editora Agir e é uma leitura obrigatória para quem quer saber mais sobre Max, o Sepultura, o Soulfly e a própria evolução do heavy metal em nosso país.

Com o título de My Bloody Roots: Toda a Verdade Sobre a Maior Lenda do Heavy Metal Brasileiro, a obra tem pouco mais de 200 páginas e oferece uma leitura fácil e recompensadora. Escrito claramente para o público norte-americano e não para o brasileiro - fato que fica claro pelas inúmeras definições que Max dá para nomes e artistas conhecidos por quem vive por aqui -, My Bloody Roots é uma espécie de grande diário pessoal do vocalista e guitarrista. Nele, Max vai contando a sua vida com uma linguagem extremamente próximo ao leitor, sem maiores firulas literárias. Se por um lado isso faz a leitura fluir rapidamente, por outra peca ao não se aprofundar historicamente em alguns aspectos.

O que mais chama a atenção na obra é o retrato que Max e as pessoas que convivem de maneira próxima com o artista tem a seu respeito. Aqui no Brasil, todo o episódio envolvendo a separação traumática do Sepultura e em como esses acontecimentos foram percebidos e relatados por revistas e sites especializados pintou uma figura antipática de Max. Isso, somado ao fato de que as inovações e experimentalismos presentes em discos como Chaos AD (1993) e Roots (1996), e que até hoje não são bem aceitos por uma parcela do público banger brasileiro, vieram em grande parte da mente criativa de Max, fez surgir uma opinião coletiva pouco favorável a Max Cavalera entre jornalistas e fãs.

A história não é bem essa. Max é, sem sombra de dúvida, o maior nome e o maior músico que o heavy metal brasileiro teve em toda a sua história. É muito difícil, praticamente improvável, que surja outro como ele. Sempre inquieto, criativo, conduzindo a sua música para terrenos improváveis, expandiu consideravelmente os horizontes do metal, e a relevância e importância de sua obra crescem e são reconhecidas cada vez mais. O livro ajuda a entender todo esse processo e coloca alguns pontos nos i’s, principalmente através das declarações de artistas como Ozzy Osbourne, Lemmy, Corey Taylor, Dave Grohl e muitos outros.

Max expõe o seu modo de vida, a sua maneira de ver a música, e não se furta de falar de momentos complicados de sua vida, como a morte prematura do pai, o falecimento do enteado e grande amigo Dana Wells, a perda de um neto e o vício em álcool e analgésicos. Ao mesmo tempo, elogia efusivamente Andreas Kisser, afirmando que o guitarrista foi o responsável por colocar a música do Sepultura em outro nível, mais elevado ao que estava antes da sua entrada. As críticas mais duras são para o baixista Paulo Jr. e para Mônika Cavalera, ex-esposa de Iggor e atualmente empresária do ramo musical.

Em relação ao irmão Iggor, fica claro que sempre houve uma simbiose entre ambos. A diferença de idade muito pequena - apenas um ano e meio - fez com que crescessem como grandes parceiros, apesar das personalidades claramente distintas. O rompimento com Iggor após a separação do Sepultura foi algo traumático para Max, e um dos momentos mais emocionantes do livro é justamente o trecho em que o guitarrista fala sobre a reaproximação com o irmão e a criação do Cavalera Conspiracy.

No que diz respeito à separação do Sepultura, Max dá a sua versão dos fatos, que são, em grande parte, bastante diferentes daqueles presentes em Sepultura: Toda a História, livro escrito por André Barcinski e publicado durante a década de 1990. O tempo fez o seu serviço e mostrou que o que está relatado em My Bloody Roots é o mais próximo do que realmente aconteceu, uma vez que ficou claro, com o passar dos anos, que o ciúmes e a influência das esposas dos demais integrantes - principalmente de Monika, ex-mulher de Iggor - foi a força propulsora para a desintegração da formação clássica do Sepultura.

Ao falar do Soulfly, Max esmiuça as gravações de cada um dos álbuns lançados pela banda, revelando detalhes curiosos e histórias de bastidores que imprimem outra significância para as canções. Marc Rizzo, guitarrista parceiro de Max há anos no Soulfly, tem o seu valor e talento ressaltado inúmeras vezes, reafirmando a importância que possui na banda e na vida do vocalista.

My Bloody Roots é um livro sincero e transparente, que mais se assemelha a uma boa conversa de bar com um ídolo do que propriamente a uma autobiografia. Fácil e rápido de ler, é indicado a toda e qualquer pessoa que gosta e é fã de heavy metal. Como esse é o seu caso, vá agora mesmo até a livraria mais próxima e adquira já o seu exemplar. Você não irá se arrepender.

Por Ricardo Seelig

26 de fev de 2014

Discografia Comentada: Star Star

quarta-feira, fevereiro 26, 2014
Oriundos de Nova York, o vocalista e guitarrista Johnnie Holliday e o baixista Weeds se mudaram para Los Angeles em busca do pote de ouro. Com Carol Marrujo (vocal), Mickey Mess (guitarra) e Chris Madl (bateria), fundaram o Star Star, em 1986.


O nome provavelmente veio da canção dos Rolling Stones lançada em Goat's Head Soup (1973), mas não há fontes oficiais que confirmem tal especulação.

Como um quinteto, registraram uma demo de três faixas e deram início às gravações de Go Go Girls in Love. Tudo que poderia ter dado errado, deu. Johnnie e Weeds voltaram para Nova York e concluíram o álbum com Kane Dailey na guitarra e Darcy Drash na bateria. A bolacha finalmente veria a luz do dia, ainda que através de um selo independente, em 1988.


A repercussão de Go Go Girls in Love foi tão boa que os executivos da Roadrunner não pensaram duas vezes antes de contratar o quarteto. Nesse meio-tempo, Dailey e Drash deram no pé. Os substitutos foram Jay Henning e Deon Molyneux.


The Love Drag Years foi gravado num intervalo de nove meses, sendo lançado em 1992 e seguido de uma turnê pela Europa. A promoção do álbum nos EUA foi pequena, apesar dos reviews positivos da mídia especializada. Os tempos já eram outros e não demorou para que tudo saísse dos eixos no Star Star.


O azar bateu na porta de Johnnie primeiro — um grave acidente de carro sofrido na Grécia em 1995 deixaria o vocalista fora de ação por anos. Em 1997, problemas pessoais levaram Henning a cometer suicídio. Dois anos mais tarde, Molyneux morreria em decorrência de um câncer.


E o integrante que era junkie até no nome, Weeds, quem diria, continuou muito bem, obrigado.


O Star Star voltaria aos palcos no início dos anos 2000, com Vice Colton na guitarra e Jak Kennedy na bateria. A última formação que se teve notícia contava com Jami Underwood e Chris Jones no lugar de Colton e Kennedy e estava prestes a iniciar as gravações de Rock Trash Au Go Go Show.


Mas isso era em 2004. E até hoje, nada de disco — exceto por uma canção, "Pizza Patti", cujo videoclipe não obteve qualquer repercussão no YouTube. Seguimos no aguardo.



Go Go Girls in Love (1988)

Não se sabe quantas cópias deste aqui foram lançadas, mas só de não ter tido lançamento oficial em CD, merece o status de raridade. O primeiro full length do Star Star tem qualidade de demo e a falta de músicos classe A é compensada com um punhado de canções acessíveis com potencial inexplorado. A sonoridade atira para todos os lados, e o fato de tantos músicos diferentes terem contribuído nesta gravação dificulta que se estabeleça uma identidade musical. Parte deste material seria retrabalhada mais tarde em The Love Drag Years, que é o the real deal da banda. (Nota 6)

The Love Drag Years (1992)

O produtor aqui foi Neil Kernon, que anos mais tarde se consagraria no meio death metal produzindo bandas como Cannibal Corpse, Nevermore e Nile. E foi justamente Kernon quem orientou a turma a pesar a balança mais para o lado do rock and roll de letras calhordas, deixando de lado as nuances de gótico que permeiam Go Go Girls in Love. Percebe-se aqui um grande diferencial no quesito guitarra, o que justifica as palavras de Johnnie Holliday ao afirmar que Jay Henning foi o melhor guitarrista com quem já trabalhou. Aqui está seu hit, a irresistível "Science Fiction Boy". Uma resenha entusiasmada publicada na Metal Hammer previa um futuro glorioso para o Star Star — uma alternativa ao grunge que não apontava com tudo para a decadente farofa oitentista. (Nota 8,5)


The Love Drag Years pode ser baixado gratuitamente no site oficial da banda. A versão disponível para download contém duas bonus tracks: "Whore Whore" e uma versão ao vivo matadora de "Break on Through" do The Doors.


Por Marcelo Vieira

Adrenaline Mob: crítica de Men of Honor (2014)

quarta-feira, fevereiro 26, 2014
Há uma alteração de curso em Men of Honor, segundo álbum do Adrenaline Mob. A saída de Mike Portnoy, substituído por AJ Pero (Twisted Sister), representou não apenas uma simples mudança na formação, trocando um instrumentista conhecido por sua técnica diferenciada por outro onde essas características não são o prato principal. A impressão que temos ao ouvir o disco é que o controle criativo, as rédeas da banda, que antes eram divididas entre Russell Allen e Portnoy, agora estão todas nas mãos do vocalista. E Russell, meu amigo, sabe o que faz.

Produzido pela própria banda, Men of Honor traz a sonoridade que os fãs conheceram em Omertà (2012), mas dá um passo adiante em relação ao disco de estreia. O metal cheio de groove que gerou críticas de alguns por soar demasiadamente semelhante ao Disturbed (banda que o baixista John Moyer também faz parte) agora divide espaço com um hard rock de personalidade própria. O guitarrista Mike Orlando, dono de uma técnica absurda e que em alguns momentos de Omertà e do EP Covertà (2013) passava do ponto em solos primordialmente fritadores, está mais focado na música, nos riffs e na melodia em Men of Honor. Isso, somado ao fato de AJ Pero criar levadas evidentemente menos elaboradas que as de Portnoy, tornou o som do Adrenaline Mob mais limpo e muito mais eficiente.

Por esses motivos, esse segundo disco acaba sendo superior a tudo que a banda lançou antes. Russell Allen, além da classe habitual de seus vocais, se destaca por colocar linhas vocais cativantes em todas as canções, o que torna a audição do álbum agradável do início ao fim. Ao mesmo tempo em que temos faixas que se aproximam do que foi feito no primeiro disco, como é o caso de “Mob is Back” e da ótima “Come On Get Up”, somos apresentados a um novo caminho sonoro em músicas como no delicioso hard rock “Dearly Departed”, com uma pegada bem anos 1980. Mesclando o groove com o hard, o Adrenaline Mob começa a encontrar a sua cara, e isso se reflete em todas as faixas. As baladas “Behind These Eyes” e “Crystal Clear” e a mid-tempo “Fallin’ to Pieces” estão entre os melhores momentos do trabalho, evidenciando o aspecto radio friendly.

Em termos individuais, Russell Allen é o destaque óbvio. No metal atual é muito difícil encontrar um vocalista com o gabarito do californiano. Ele é espetacular, variando entre timbres agressivos e momentos onde utiliza a sua voz de forma mais limpa. E, arriscando ser apedrejado pelos fãs, afirmo: para mim, a voz de Allen soa muito mais apropriada ao estilo do Adrenaline Mob do que ao prog metal do Symphony X, a banda que o tornou famoso em todo o planeta. AJ Pero segura a onda sem problemas, enquanto John Moyer é o recheio grudento e gorduroso do som do grupo, fazendo o seu baixo soar onipresente. E, como dito, Orlando soa mais contido, trabalhando para a banda e não apenas para mostrar como seus dedos são rápidos.

Men of Honor é um CD muito bom, que entrega ótimos momentos para o ouvinte. A qualidade de suas faixas tem tudo para tornar a banda ainda mais conhecida, e, dependendo da receptividade do público, transformar o Adrenaline Mob em prioridade total para todos os músicos envolvidos.

Nota 8,5

Faixas:
1 Mob is Back
2 Come On Get Up
3 Dearly Departed
4 Behind These Eyes
5 Let It Go
6 Feel the Adrenaline
7 Men of Honor
8 Crystal Clear
9 House of Lies
10 Judgment Day
11 Fallin’ to Pieces
12 Gets You Through the Night

Por Ricardo Seelig

+ R.I.P. Paco de Lucia (21/09/1947 - 26/02/2014) +

quarta-feira, fevereiro 26, 2014
O violonista espanhol Paco de Lucia, nascido Francisco Sánchez Gómez, faleceu nesta quarta-feira. O músico sofreu um infarto enquanto brincava com os filhos em uma praia mexicana.

Paco foi um virtuoso na guitarra e violão flamenco, e gravou trabalhos ao lado de nomes como Al Di Meola, John McLaughlin, Larry Coryell e outros.

O músico tinha 66 anos.

Uma grande perda, sem mais.

Por Ricardo Seelig

25 de fev de 2014

Tim Lambesis, vocalista do As I Lay Dying, condenado a 9 anos de prisão

terça-feira, fevereiro 25, 2014
O vocalista do As I Lay Dying, Tim Lambesis, há alguns meses enfrenta a acusação de ter planejado o assassinato de sua ex-esposa. O plano foi descoberto quando Lambesis procurou um matador de aluguel e o indivíduo era um policial infriltado - as autoridades já desconfiavam do cantor e o mantinham sob vigilância.

Hoje, em audiência realizada em um tribunal na Califórnia, Lambesis se declarou culpado das acusações e foi condenado a 9 anos de prisão.

A banda ainda não se pronunciou sobre o ocorrido, então não sabemos se o grupo encerrará as suas atividades ou se recrutará um substituto.

Por Ricardo Seelig

Bandas de Um Disco Só: Glasgow - Zero Four One (1987)

terça-feira, fevereiro 25, 2014

Tudo começou em Glasgow, no ano de 1982, quando o vocalista Michael Boyle, com passagem pela banda The Downtown Flyers, se juntou a Archie Dickson (guitarra), Neil Russell (baixo) e Joe Kilna (bateria) formando o Heaven, que logo mudaria de nome para Wildcat. 

Mas já existia um Wildcat em Glasgow. Era um grupo de teatro famosinho até. 

Usando como desculpa a existência de grupos como Boston e Chicago — nomeados a partir de suas cidades de origem —, mudaram de nome para... Glasgow (!!!). Em suas apresentações, material autoral era mesclado a covers de AC/DC e Deep Purple. 

Assinaram com a lendária Neat Records no ano seguinte para o lançamento de um EP, Under the Lights (AKA Miles Better). Em 1984, foi a vez do single de 7" Stranded/Heat of the Night chegar às lojas. Foram a banda de abertura de Nazareth e Uriah Heep e, num golpe de sorte do destino, substituíram o Shy como atração principal em evento realizado no centenário Pavillion Theatre. 

O primeiro e único full-length, Zero Four One, veio apenas em 1987, quando o Glasgow já gozava de certo prestígio na cena local. O disco, cujo nome foi retirado do código de discagem telefônica de Glasgow na época, é um registro de altíssimo nível, com apenas oito faixas, mas todas fundamentais, sem fillers. A produção é assinada por Kenny Denton, o mago por trás da obra-prima Eldorado, da Electric Light Orchestra. 

“We Will Rock” abre os trabalhos com um riff simples e marcante e um incendiário refrão cantado em coro. Na sequência, o single “Secrets in the Dark” transborda melodia e bom gosto. Depois de meio minuto de introdução, tem início “Back on the Run”, uma belíssima balada com peso na medida certa. O lado A da bolacha termina com a festeira “My Heart is Running with the Night”. 

“Meet Me Halfway” mantém o clima de festa na abertura do lado B e prepara o terreno para uma irreconhecível “Under the Lights” regravada com os teclados do arroz de festa, Don Airey. E tome mais uma balada: “No More Lonely Nights” é do tipo devagar-quase-parando — mas é também o momento em que a voz de Boyle mais se destaca numa interpretação matadora. A direta e pesada “Breakout” põe fim aos 41 minutos de audição. 

Por ironia do destino, o Glasgow se separaria em 1988. O ensaio de uma reunião aconteceu em dezembro de 2009, para o que seriam apenas alguns shows em homenagem ao então recém-falecido Kilna, mas parece que a ideia não saiu do papel. 

01. We Will Rock 
02. Secrets in the Dark 
03. Back on the Run 
04. My Heart is Running with the Night 
05. Meet Me Halfway 
06. Under the Lights 
07. No More Lonely Nights 
08. Breakout 

Michael Boyle – vocais 
Archie Dickson – guitarra 
Neil Russell – baixo 
Joe Kilna – bateria 

Músicos adicionais: 
Don Airey – teclados 
Gavin Povey – teclados


Por Marcelo Vieira

+ R.I.P. Kelly Holland +

terça-feira, fevereiro 25, 2014
Faleceu nesta segunda-feira, 24/02, o vocalista e guitarrista Kelly Holland. O músico integrou a banda Cry of Love entre 1991 e 1994, período em que o grupo de hard e southern norte-americano alcançou o seu maior sucesso impulsionado pela ótima receptividade de seu disco de estreia, Brother, lançado em abril de 1993. O álbum traz a música mais conhecida da banda, “Peace Pipe”, que atingiu o primeiro posto na Billboard.

Holland faleceu devido a uma severa infecção abdominal. Ele vivia na cidade californiana de Raleigh.



Por Ricardo Seelig

24 de fev de 2014

Discografia Comentada: Opeth - Parte 1

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Diretamente dos proliferantes subúrbios de Estocolmo, o Opeth foi formado na virada da década de 90 pelo vocalista David Isberg, ainda totalmente direcionada para o death metal da escola do Entombed e do Dismember. Não apenas o fundador da banda, Isberg foi o responsável por trazer um então jovem músico de dezesseis anos, do finado Eruption, que mudaria com o passar dos anos não apenas a sonoridade da banda em si, como cravaria de uma vez por todas o seu nome na história do heavy metal.

Mikael Åkerfeldt não apenas passou a compor de forma diferenciada, afastando-se gradativamente da música extrema mais direta, como se viu na posição de líder da banda após a saída de Isberg – uma responsabilidade que carrega há quase vinte e cinco anos, por um caminho nem sempre agradável – mantendo-se como o gênio criativo e filosófico que o levou a frente de um dos mais respeitados nomes da música atual.


Boa parte do reconhecimento vem do trabalho apresentado ao longo de seus dez discos, que sem estarem presos às limitações de um só gênero ou às influencias primordiais do death, black e doom metal, criaram um híbrido singular e praticamente inimitável graças às combinações técnicas e bem construídas com jazz, folk e rock progressivo (resultado da fixação de Åkerfeldt por estes estilos – em especial às obscuridades setentistas). 


Em seguida, um detalhamento disco a disco sobre a escalada criativa do Opeth, desde seus primórdios e até o nível que eles atingiram hoje.

Orchid (1995)


Lá pelo ano de 1993, o Opeth era um caso isolado entre os grupos suecos. Apesar de não estarem nem um pouco atrás das outras bandas no que diz respeito à brutalidade instrumental e lírica, eles não tinham amigos, dinheiro, ou alguém que realmente acreditasse em sua proposta. Foi quando Samoth (do Emperor) enviou uma fita contendo o trecho de um ensaio da banda para Lee Barrett, até então o dono de um minúsculo selo musical inglês emergente, que não passava de uma pequena sala em Londres, chamado Candlelight Records. Barrett precisou apenas de algum segundos para ser convencido a entrar em contato com o grupo, e pouco  tempo depois, Orchid seria concebido. Produzido por Dan Swanö, o debut do Opeth evidentemente ainda apresenta uma banda em seu estágio mais cru, relativamente mais próxima do black metal de fortes tendências melódicas (basta ouvir qualquer seção de guitarras dobradas), mas que de alguma forma explica um pouco como as atmosferas exauridas pela influência do rock progressivo e do folk se mostram perfeitamente encaixadas no sentimento das passagens extremas. Não há demonstração técnica gratuita, mas sim a criação de uma jornada livre e com viradas inesperadas, talvez um resquício de inocência musical inerente a qualquer álbum de estreia (vide a forma como Åkerfeldt violenta a sua própria voz ao cantar de forma agressiva) e uma visão artística bem definida (ainda que atrapalhada um pouco pela produção oscilante). Ora essa, Orchid trazia uma gama de influências completamente singular, com mais de uma hora de duração e quatro faixas que ultrapassavam naturalmente os dez minutos (“Forest of October” é um clássico, e a representação perfeita do que era a banda em seu início). Era 1995, a Suécia passava por outra grande transformação em Gotemburgo com a ascensão do melodic death metal – e em retrospecto, o Opeth pode não ter tido o mesmo impacto na época. Mas hoje, Orchid é uma obra quase tão importante quanto The Gallery ou Slaughter of the Soul. (Nota 8)

Morningrise (1996)


Com o lançamento oficial de Orchid postergado e a falta de oportunidade para fazer shows, Åkerfeldt e o seu amigo de longa data e guitarrista Peter Lindgren passaram a escrever massivamente e recolocar ideias que rondavam suas mentes e ensaios desde 1991. Apesar de o disco de estreia ter sido uma grande realização artística para os músicos que nunca sequer haviam estado em um estúdio antes, e de a recepção já apontar o trabalho como algo único até então, o Opeth necessitava de mais para estabelecer-se de uma vez por todas. Esse sentimento se materializou na megalomaníaca extravagância das cinco faixas que compõe Morningrise, seu segundo álbum. Novamente gravado sob os cuidados de Dan Swanö no Unisound Studios e lançado também pela Candlelight Records em 24 de junho de 1996, representa uma considerável melhora não só no que diz respeito à produção, mas em composições que se afastam um pouco do black metal de Orchid e trazem mais elementos de death e melodic death metal, assim como iniciam pra valer as trincadas inserções de jazz e focam ainda mais nos toques de rock progressivo e folk (sem contar as inúmeras referências ao Iron Maiden). A ligeira alteração no foco fez da música do Opeth algo ainda mais grandioso, sentimental e épico, muito bem exemplificado especialmente nos mais de 20 minutos de “Black Rose Immortal”, a mais longa composição em sua discografia e até hoje uma das mais completas. Por outro lado, parecia ainda haver certa insegurança ao lidar com as vozes nos momentos mais tranquilos e etéreos, com performances vocais que são meras sombras do que se ouve hoje. Ainda assim, Morningrise proporcionou aos suecos uma turnê de 26 datas pela Europa ao lado do Cradle of Filth, uma grande oportunidade a princípio, que culminou no lançamento do disco em vários países (EUA inclusive) e na saída tanto do baterista/tecladista Anders Nordin quanto do baixista Johan De Farfalla. Uma nova fase para o Opeth estaria prestes a começar. (Nota 7,5)

My Arms, Your Hearse (1998)


Esta seria a última jogada do Opeth. Segundo Åkerfeldt, nesta época eles já estavam com dois discos lançados, porém ainda não haviam recebido o retorno esperado, e o principal pensamento era de que o melhor a se fazer seria encerrar as atividades. Por outro lado, a banda acabara de passar por uma mudança com a entrada do baterista Martin Lopez e do baixista Martin Méndez . E todas estas questões, de alguma forma, acabaram influenciando no direcionamento musical da obra conceitual que estava se formando. Gravado desta vez no Fredman Studion, acompanhados do grande produtor Fredrik Nordström (e co-produzido por Anders Fridén – sim, do In Flames), My Arms, Your Hearse apresenta o Opeth enxugando todas as suas impurezas e exageros dos álbuns anteriores em busca de uma fórmula que não o fizesse perder a identidade já construída. Com faixas mais curtas e assombrosamente mais agressivas, aprimorando o equilíbrio entre o death metal denso (e por vezes arrastado) com o jazz, resultou em uma obra ainda mais soturna e melancólica para definitivamente afogar-nos na história de fantasma sendo contada. Ironicamente com apenas pequenas intervenções acústicas (infinitamente mais bem construídas), como nas indiscutivelmente essenciais “When”, “Demon of the Fall” e “April Ethereal”, é interessante notar que a sonoridade deste disco foi o amadurecimento primordial da música do Opeth, e tornou-se a linha guia que os conduziu daqui pra frente. Além disso, a formação Åkerfeldt/Lindgren/Lopez/Méndez seria aquela que levaria a banda ao patamar de reconhecimento de hoje – o que torna o álbum ainda mais essencial em sua trajetória. (Nota 9)


Still Life (1999)


Com as esperanças renovadas após o trabalho anterior, o Opeth assinou com a já estável gravadora inglesa Peaceville Records (que já contava com My Dying Bride e Anathema em seu catálogo) para o lançamento do álbum que representaria mais uma drástica mudança na carreira dos suecos: com apenas dois ensaios completos antes da gravação e novamente ao lado de Fredrik Nordström, Still Life traz uma banda dando continuidade à sonoridade de My Arms, Your Hearse ao mesmo tempo em que afunda bruscamente na singularidade proporcionada pela combinação virtuosa de rock progressivo e folk, deixada razoavelmente de lado anteriormente. O que temos aqui é uma banda trabalhando arduamente pela harmonia entre suas contrastantes personalidades, com predominância do lado mais tranquilo – algo explicado talvez pelo próprio conceito lírico abordado, seu brutal desenrolar e a sensação de estar em um rubro mundo pesaroso, de paisagens sangrentas. Lançado em 18 de outubro, quase seis meses após ter sido gravado, por conta do atraso com a espetacular arte de Travis Smith, os 62 minutos de Still Life contém outros indubitáveis momentos marcantes da discografia do Opeth. Da cadência extrema de “Serenity Painted Death” às amplamente discutidas referências ao Camel (uma das maiores influências de Åkerfeldt) em “The Moor” e “Benighted”, passando pela belíssima “Face of Melinda”, foi graças a este disco que a duas das mais criativas mentes do rock progressivo se encontraram... (Nota 8)


Blackwater Park (2001)


Afinal, com apenas um email, aonde Steven Wilson simplesmente dizia como havia gostado de Still Life, foi o marco zero para uma das grandes e mais interessantes colaborações artísticas da última década. A banda retornou em agosto de 2000 ao Fredman Studios com o disco em estágio praticamente embrionário, e apesar de já ter gravado boa parte ao longo de algumas semanas, foi com a chegada de Wilson para coproduzir o trabalho que ela expandiu o dinamismo das composições, um fato considerado pelos próprios músicos um impacto inacreditável em sua história. Blackwater Park não apenas combinou a genialidade criativa dos suecos sendo empurrada para outro patamar com a assertiva engenharia de Nordström e as intrigantes ideias de Wilson, como foi o responsável pela ascensão da banda em termos comerciais: o contrato com a Music For Nations levou o som do Opeth ao mundo em uma escala muito maior de distribuição, ao mesmo tempo em que a relação com Andy Farrow (que permanece até hoje no posto de manager do grupo) trouxe inúmeras oportunidades de turnês. Tudo isso não adiantaria nada sem um trabalho musical de qualidade nas mãos, certo? Perfeitamente equilibrado no limiar entre a mais absurdamente técnica e agressiva música extrema e as nuances etéreas criadas pelas intervenções ruidosas e acústicas, não há apenas uma reciclagem de idéias, mas sim o desafio a qualquer limite de composição que pudesse existir – de uma forma que atinja também a experiência ao ouvir o álbum. Seria injusto destacar qualquer uma das faixas. Porém, “Bleak”, “The Drapery Falls” e “The Leper Affinity” podem ser citadas como introduções perfeitas para o trabalho, aonde mesmo as faixas bônus (“Still Day Beneath The Sun” e “Patterns In The Ivy II”) soam espetaculares. Blackwater Park não é uma das mais importantes obras do heavy metal por acaso. É uma mudança no curso da história da música. (Nota 10)


Outros pontos interessantes sobre a discografia do Opeth até aqui:


- As faixas bônus nos relançamentos de Orchid e Morningrise (“Into the Frost of Winter” e “Eternal Soul Torture”) foram retrabalhadas e tornaram-se trechos de “Advent”, abertura do segundo disco. Contudo, o material disponibilizado é tão mal produzido que chega a ser difícil de qual parte exatamente eles estão falando.


- Há uma pessoa na capa de My Arms, Your Hearse, caso você não tenha percebido.


- O título Blackwater Park foi tirado do nome de uma obscura banda alemã de hard rock/progressivo, que lançou apenas um disco (Dirt Box, em 1971 - indicadíssimo, diga-se de passagem). Da mesma forma, acredita-se que Still Life tenha suas origens no álbum homônimo do Van Der Graaf Generator, de 1976 (ou talvez na banda inglesa de mesmo nome, da qual Roy Albrighton – fundador do Nektar – fez parte em uma das encarnações).


- Há um single em vinil 7” com as faixas “Still Day Beneath the Sun” e “Patterns in the Ivy II”, que chega a custar até R$300,00. 


Em breve, a segunda parte, comentando os cinco trabalhos mais recentes.

Por Rodrigo Carvalho

Tributo a Ronnie James Dio reúne cast estelar; ouça a primeira música do projeto

segunda-feira, fevereiro 24, 2014
Com o objetivo de levantar fundos para a Ronnie James Dio Stand Up and Shout, o álbum tributo This is Your Life reúne um dos casts mais fortes já visto em homenagem a um artista. Algumas das maiores bandas da história do metal e do hard rock fazem parte do projeto, que será lançado dia 1º de abril. O disco contém versões para faixas do Dio, Black Sabbath e Rainbow, algumas já conhecidas (no caso de Adrenaline Mob e Killswitch Engage) e outras inéditas.

Abaixo, você confere o tracklist completo e ouve a primeira faixa divulgada do projeto, “Starstruck”, executada pelo Motörhead com a participação de Biff Byford, do Saxon.

1. Anthrax - Neon Knights
2. Tenacious D - The Last in Line
3. Adrenaline Mob - The Mob Rules
4. Corey Taylor & Friends - Rainbow in the Dark
5. Halestorm - Straight Through the Heart
6. Motörhead & Biff Byford - Starstruck
7. Scorpions - The Temple of the King
8. Doro - Egypt (The Chains Are On)
9. Killswitch Engage - Holy Diver
10. Glenn Hughes & Friends - Catch the Rainbow
11. Oni Logan & Friends - I
12. Rob Halford & Friends - Man on the Silver Mountain
13. Metallica - Ronnie Rising Medley (com trechos de “A Light in the Black”, “Tarot Woman”, “Stargazer” e “Kill the King”
14. Dio - This is Your Life


Por Ricardo Seelig

Metal Hammer lança edição especial comemorando os 30 anos do thrash metal

segunda-feira, fevereiro 24, 2014
A Metal Hammer, principal revista de metal do planeta, está lançando uma edição especial em comemoração aos 30 anos do surgimento do thrash metal. A publicação tem 130 páginas e conta a história do gênero através de entrevistas e matérias especiais, além de pôsteres de Cliff Burton e Jeff Hanneman, uma lista com os 50 melhores discos de thrash de todos os tempos e o sorteio de uma guitarra signature de Hanneman.

Aos interessados, o especial da Metal Hammer sobre o thrash está à venda aqui.

Por Ricardo Seelig

23 de fev de 2014

Elton John (Goiânia Arena, Goiânia, 21/02/2014)

domingo, fevereiro 23, 2014
Paul McCartney, David Bowie, Bob Dylan... A lista dos maiores artistas vivos é pequena e tende a diminuir com o tempo, mas certamente tem espaço garantido para Elton John. Os cerca de 15 mil espectadores que assistiram ao show do inglês na última sexta-feira (21), em Goiânia, puderam comprovar isso de perto. Em duas horas e meia de apresentação, o cantor transita pelos mais diveros gêneros e exala uma musicalidade impressionante. Com a autoridade de quem tem 45 anos de uma longa e aclamada carreira, ele atinge o objetivo primordial da música: instigar quem a ouve a se emocionar de alguma forma.

"Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding" é a primeira a fazer isso. Com a tradicional pontualidade britânica, abre o show às 21h05 e usa seus 11 minutos para mostrar quanto Elton John é versátil e entende do riscado. Um medley progressivo que poderia figurar em qualquer álbum do Focus. Piano no melhor estilo Thijs Van Leer.

A sequência inicial privilegia o brilhante Goodbye Yellow Brick Road (1973), sétimo disco de estúdio de Elton John e que inspira sua atual turnê, denominada Follow the Yellow Brick Road - além de Goiânia, passa também por Rio de Janeiro (19), Salvador (22) e Fortaleza (26). Depois da abertura apoteótica, o álbum é representado por outras três: "Bennie and the Jets", "Candle in the Wind" e "Grey Seal". Só na quinta, "Levon", é que o britânico contempla outro discaço de sua autoria, Madman Across The Water (1971).

Com o público já nas mãos, Elton John anuncia o que, talvez, seja sua obra-prima: "Tiny Dancer". A execução é primorosa. Difícil não se encantar com a magia dessa canção, mundialmente conhecida por ilustrar uma das melhores cenas do filme Quase Famosos (2000), de Cameron Crowe. No ápice do refrão, automaticamente vem à cabeça o diálogo entre William Miller (Patrick Fugit) e Penny Lane (Kate Hudson):

- Eu preciso ir para casa.

- Você está em casa.


Outros destaques da primeira metade da apresentação são "Holiday Inn", "Goodbye Yellow Brick Road", o hino "Rocket Man", cantado praticamente em uníssono, além da ótima "Hey Ahab", do disco The Union (2010), feito em parceria com o mago Leon Russel. Ao vivo, ela fica pesadíssima e mostra que há coisas excelentes na produção recente do gordinho.

Do meio para o fim, o show esquenta de vez. Com a predominância de músicas mais dançantes, Elton John colocou o Goiânia Arena para celebrar uma verdadeira aula de rock e R&B. Destaques para a esperta "I Guess That's Why They Call It The Blues", a malícia de "Sad Songs" e outra trinca certeira de Goodbye Yellow Brick Road: "All the Girls Love Alice", "Your Sister Can't Twist (But She Can Rock'n Roll)" e "Saturday Night's Alright for Fighting". Teve gente que ficou sem entender nada. Coitados.

Ainda que mais intenso, o show continuou tendo espaço para baladas. A interpretação de canções como "The One", "Skyline Pigeon" e a belíssima "Home Again", de seu mais recente disco, The Diving Board (2013), causou comoção. Apesar de bastante modificada, a voz de Elton John, um tanto quanto mais grave, continua conseguindo emocionar multidões. A perspicácia no piano, idem. A banda que acompanha o britânico também é um arraso. Vale ressaltar fundamentalmente as lendas Davey Johnstone (guitarra) e Nigel Olsson (bateria), juntos com o cantor desde os primórdios. Muito carismáticos e competentes.

No encerramento, às 23h35m, um encore simplesmente incrível. A genialidade de "Your Song" e o clima de festa de "Crocodile Rock". Fim de um show irretocável, com 27 canções, e que mostrou toda a capacidade que Elton John, aos 66 anos, tem de tocar os sentimentos das pessoas com sua música. Desde o fã mais die hard até aquele que foi só para ouvir a "música do Rei Leão", não ouviu, mas acabou descobrindo um repertório vasto e encantador. Desde o coxinha que foi só pelo status de ser um show internacional até o incoveniente que adora fazer piadinhas sobre a orientação sexual do cantor. Até esses devem ter saído boquiabertos.


Setlist

Funeral For a Friend/Love Lies Bleeding
Bennie and the Jets
Candle in the Wind
Grey Seal
Levon
Tiny Dancer
Holiday Inn
Mona Lisas and Mad Hatters
Believe
Philadelphia Freedom
Goodbye Yellow Brick Road
Rocket Man
Hey Ahab
I Guess That’s Why They Call It The Blues
The One
Skyline Pigeon
Someone Saved My Life Tonight
Sad Songs
All The Girls Love Alice
Home Again
Don’t Let The Sun Go Down on Me
I’m Still Standing
The Bitch is Back
Your Sister Can’t Twist (But She Can Rock'n'Roll)
Saturday Night’s Alright For Fighting
Your Song
Crocodile Rock

Elton John Band

Davey Johnstone - guitarra, bandolim e banjo
Nigel Olsson - bateria
Matt Bissonette - baixo
Kim Bullard - teclado
John Mahon - percussão

Por Guilherme Gonçalves

Crítica do livro Crazy Diamond: Syd Barrett e o Surgimento do Pink Floyd

domingo, fevereiro 23, 2014

Apesar de suas seis décadas de existência, Syd Barrett, cujo nome de batismo era Roger Keith Barrett - viveu pouco. É essa a impressão que temos ao ler a biografia Crazy Diamond: Syd Barrett e o Surgimento do Pink Floyd. O vocalista, guitarrista, fundador e principal compositor da lendária banda inglesa de rock progressivo em seus primórdios entrou em colapso mental muito jovem, logo após o lançamento de seu disco de estreia, o seminal The Piper at the Gates of Dawn (1967), fato esse que levou o grupo a substituí-lo pelo seu grande amigo David Gilmour. Desde então, sua criação musical se resumiu a algumas poucas composições do segundo disco da banda, A Saucerful of Secrets (1968) e a gravação de dois álbuns solo de pouca relevância, The Madcap Laughs e Barrett, ambos lançados em 1970.


A biografia é fruto de sete anos de pesquisa dos jornalistas Mike Watkinson e Pete Anderson a partir de 1984, movidos pela curiosidade em saber por onde e o que Barrett estava fazendo após sua precoce aposentadoria musical. O livro foi editado e lançado em 1991 e é apresentado aqui em uma edição atualizada e complementada com detalhes da vida de Syd até o seu falecimento, em  2006. Inexplicavelmente, só foi lançado em 2013 no Brasil através da Sonora Editora.

Em Crazy Diamond os autores buscam, através de depoimentos de amigos e pessoas próximas ao Madcap – apelido pelo qual era conhecido – buscar explicações para o fim prematuro de sua carreira musical, e ajudam a revelar que os seus problemas mentais já vinham em evolução desde sua infância e adolescência, e foram agravados pelo uso excessivo de LSD. Sua trajetória é contada em detalhes e são apresentadas informações interessantes acerca da formação do Pink Floyd, bem como a influência direta de Syd em letras de no mínimo três álbuns da banda lançados após ser dispensado: The Dark Side of the Moon (1974), Wish You Were Here (1975) – aqui é contado em detalhes a aparição surpresa de um Barrett totalmente irreconhecível no estúdio Abbey Road durante as gravações do mesmo – e The Wall (1979). Watkinson e Anderson mostram o quanto a sombra do legado de seu fundador incomodava os membros remanescentes, principalmente o autoritário Roger Waters e David Gilmour, que sentiu certo desconforto em substituir seu amigo na banda, assim como tentam explicar a distância mantida por eles após a expulsão de Syd, confundida por muitos como abandono ao músico em virtude de sua insanidade mental. Todos os passos de Barrett são desvendados, como sua reclusão na residência de sua mãe e sua ocupação com a pintura de quadros, sua dedicação às artes plásticas e sua opção em se ausentar completamente da mídia e não conceder entrevistas até sua morte em decorrência de complicações causadas pelo diabetes, em 2006.

Apesar de conter alguns erros ortográficos, que com certeza serão corrigidos em uma revisão mais apurada para uma segunda edição, o livro não perde em qualidade. Ele apresenta também imagens em preto e branco e em ordem cronológica do músico e de sua infância, passando pela origem do Floyd e mostrando sua transformação de ídolo do então efervescente cenário underground do rock progressivo em um senhor calvo, obeso e comum, longe de ser aquele jovem de fisionomia marcante de meados dos anos 1960. Contando com pouco mais de 200 páginas, este livro é tão curto quanto a carreira de Syd Barrett, o que não impede aos fãs do Pink Floyd de conhecer em detalhes a trajetória deste visionário, tido por muitos como um gênio e que foi um dos mais representativos ícones decadentes da história da música, mas faleceu sozinho e como status homem comum que preferiu esquecer o próprio legado musical.

Por Tiago Neves

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