25 de out de 2013

Veredito Collectors Room: Carcass - Surgical Steel (2013)

sexta-feira, outubro 25, 2013
Terceira edição do Veredito Collectors Room, seção onde nossa equipe analisa, de forma coletiva, aquele que julgamos ser o principal disco lançado no último mês.

O escolhido desta vez foi o novo álbum do Carcass, Surgical Steel, que marca o retorno de uma das mais importantes e influentes bandas da história do heavy metal. O disco representa o primeiro trabalho de inéditas do grupo desde 1996, e foi lançado no dia 13 de setembro pela Nuclear Blast.

Guilherme Gonçalves, Ricardo Seelig, Rodrigo Carvalho, Marcelo Vieira e Thiago Cardim escreveram abaixo, cada um, as suas opiniões sobre Surgical Steel. Com base na avaliação e na nota atribuída por cada um dos nossos redatores chegamos a uma média final, que está no fim deste texto.

Gostaríamos de saber também qual a sua opinião sobre o novo disco do Carcass. Conte o que achou do álbum para a gente, nos comentários.




Se havia alguma dúvida em relação à relevância de um álbum novo do Carcass em pleno 2013, ela simplesmente foi extraída, dissecada, cauterizada com ácido, carbonizada e obliterada de uma vez por todas com o lançamento de Surgical Steel. Quase duas décadas após o derradeiro Swansong, Bill Steer e Jeff Walker demonstram mais uma vez o porquê de o legado da banda inglesa permanecer um dos mais importantes da música extrema até hoje: com uma coleção de faixas que parece reunir de forma orgânica todas as vertentes nas quais o Carcass esteve diretamente ligado em sua história, como um agregado das melhores composições guardadas pela dupla ao longo dos anos.

Enquanto as características letras patológicas são vomitadas insanamente, o instrumental comprova que brutalidade não é exatamente sinônimo de ritmos descontrolados e ininteligíveis. A experiência de Steer e Walker traz uma música por vezes simples, sempre mantendo a violência e a carga equilibrada de melodias, que engrandecem ainda mais a obra (mostrando que, talvez, Michael Amott não fez tanta – ou nenhuma – falta), como pode ser ouvido em “Cadaver Pouch Conveyor System”, “The Granulating Dark Satanic Mills” e a mais do que excelente “Mount of Execution”. Surgical Steel é sim, e muito, relevante em 2013. Tanto para o legado do próprio Carcass, quanto para o que pode vir a seguir. Nota 8 (por Rodrigo Carvalho)

Um dos mais longos silêncios da história do metal foi quebrado de maneira espetacular pelo Carcass. Dezessete anos após seu último disco, Swansong (1996), a banda inglesa retornou com o excelente Surgical Steel, um dos grandes álbuns dos últimos anos. As onze músicas presentes no trabalho entregam uma mistura azeitada de peso e agressividade temperada com doses fartas de melodia. Essa receita, comandada com precisão pelos chefes Bill Steer e Jeff Walker, mostra por A mais B o quanto o Carcass segue sendo necessário e muito relevante para o heavy metal. Michael Amott, acomodado em seu Arch Enemy, deve ter se arrependido profundamente de não participar desse retorno. Ouça, compre, tenha! Nota 9 (por Ricardo Seelig)

Ainda que em um universo bem mais restrito, Surgical Steel teve impacto congruente ao de 13, do Black Sabbath, no sentido de simbolizar o renascimento dos fundadores de um gênero. Ou de várias vertentes dele. Se o Sabbath criou o heavy metal e é o pai de seus conceitos centrais, o Carcass é um dos pilares de pelo menos três ramificações oriundas desse ponto de origem. Situá-lo na discografia da banda não é tarefa difícil. A primeira impressão é de que ele está estrategicamente no meio do caminho entre Necroticism - Descanting the Insalubrious (1991) e Heartwork (1993). Algumas audições depois, entretanto, constata-se facilmente que o mesmo se aproxima muito mais do segundo.

O ponto alto de Surgical Steel ninguém tira de Bill Steer, que tem atuação simplesmente de outro planeta. Guitarras gêmeas e riffs brutais, velozes ou com groove e, acima de tudo, criativos, são o carro-chefe. Tudo afinado alguns tons abaixo, em Si, e temperado com solos melódicos no ponto exato, destilando toda sua influência de classic rock e, principalmente, NWOBHM. Em seu habitat, que é o da música extrema e que congrega vasta gama de lançamentos de qualidade em 2013, não há dúvidas de que Surgical Steel se sobressai e praticamente oblitera a concorrência. Um verdadeiro marco na cena death metal como há tempos não se via. Além disso, um álbum para cooptar neófitos e recém-iniciados ao necrotério em que repousa incólume o legado do Carcass, assim como fez Heartwork, seu irmão mais velho, 20 anos atrás. Nota 9,5 (por Guilherme Gonçalves)

 
Para mim, o Carcass se resumia a um álbum, Heartwork (1993), frequentemente apontado entre os melhores discos de death metal da história. Como estou longe de ser um profundo conhecedor — e mesmo admirador — do gênero, nunca me permiti ir além do fundamental, do óbvio. Após ouvir mais atentamente o recém lançado Surgical Steel, arrisco dizer que é questão de tempo eu ir mais a fundo no trabalho dos caras, pois 2013 ainda estava devendo um disco que coubesse na definição de brutalidade sonora. Jeff Walker e Bill Steer agem como dois necromantes, esconjurando mortos famintos por cérebros e tímpanos, que atacam ao rufar dos tambores do estreante, porém monstruoso, Daniel Wilding. Capa e título fazem jus ao conteúdo, uma vez que ao término de cada canção era como se um órgão tivesse sido extraído cirurgicamente do meu corpo. Quem acha que não é possível decompor sentimento em selvageria deveria dar uma chance, e comprovar que existe vida — e vida foda — após a morte. Nota 8,5 (por Marcelo Vieira)

Não sei se isso vai ser considerado uma falha de caráter na minha formação como headbanger, mas o fato é que nunca fui dos maiores fãs do Carcass. Conhecia o som dos caras e já tinha ouvido e acompanhado muito de seu trabalho, em grande parte por conta de um grande amigo que era simplesmente fanático pelo grupo. Mas nunca me atraiu de verdade, confesso. No entanto, bastou os caras se reunirem mais uma vez para lançar o seu primeiro álbum de inéditas depois de quase 20 anos para que eu ouvisse grandes nomes da crítica musical, nomes que eu sempre admirei, incensando este Surgical Steel como um dos maiores e melhores lançamentos de heavy metal dos últimos anos. Não tinha como não aguçar a minha curiosidade. E deu no que deu. Que porrada. 


Lançado de maneira independente e sem a presença do estrelado Michael Amott, Surgical Steel tinha todos os motivos do mundo para despertar a desconfiança de seus seguidores mais fiéis – mas a banda, agora no formato de um trio, está numa forma invejável. E a adição de Dan Wilding às baquetas parece ter injetado ainda mais sangue novo, embora a sua escolha tenha se dado justamente pelo estilo similar ao de Ken Owen, que ficou afastado da turnê de reunião por problemas de saúde. A patada batizada de "Thrasher's Abattoir" é a prova de que este é, inegavelmente, um disco de death metal, poderoso, jovem intenso, inquieto. Mas o grande trunfo está no fato de que não se trata de um disco APENAS de death metal. 

"Cadaver Pouch Conveyor System" é uma das muitas canções que conversam com o metal tradicional, em especial pelo trabalho primoroso de Bill Steer, que fez com que a guitarra fosse o grande arregaço desta bolacha. Ouvir o interlúdio instrumental de "A Congealed Clot of Blood" é uma beleza, pois Steer nos entrega um solo lindíssimo, ao mesmo tétrico e emocionante, triste e delicado. E o que dizer da crueza quase thrash de "The Master Butcher's Apron"? É fato que quando uma banda consegue fazer um disco pesado, extremo, sem concessões, mas ainda assim acessível o suficiente para que você sinta vontade de cantar junto, na primeira audição, um refrão como o de "The Granulating Dark Satanic Mills", é sinal de alguém está fazendo a coisa certa. Nota 9 (por Thiago Cardim)

Com base em todos esses textos, que emitem as opiniões individuais de toda a equipe, chegamos a um veredito sobre Surgical Steel.

O nosso veredito final é: 8,8

E o de vocês?


Por Equipe Collectors Room

Novos vídeos: Paul McCartney, Bruce Springsteen, Rolling Stones, Rush, Dream Theater e mais um monte de coisas

sexta-feira, outubro 25, 2013
Sexta-feira cheia de novos vídeos legais pra caramba. Tem o novo clipe de Paul McCartney cheio de participações especiais, performances ao vivo de Bruce Springesteen, prévias dos novos DVDs dos Stones, Rush e Dream Theater, e muita música pra você ter um ótimo dia.

Aumenta que é bom!

 

Por Ricardo Seelig

Asking Alexandria: crítica de From Death To Destiny (2013)

sexta-feira, outubro 25, 2013

Idealizado pelo guitarrista Ben Bruce em 2008, o Asking Alexandria tornou-se um dos grupos britânicos que teve uma das mais rápidas ascensões no mercado norte-americano (tratando-se de post hardcore). Com uma proposta muito bem estabelecida, altamente influenciada tanto pelas bandas de metalcore quanto por aquele hard rock despojado da década de oitenta, o quinteto investiu fortemente em atingir o público dos Estados Unidos, atingindo expressivos resultados com seus dois primeiros discos: Stand Up and Scream, de 2009, e Reckless & Relentless, de 2011, ambos pela Sumerian Records.


Desde o ano passado, porém, os ingleses começaram a dar pistas de que o seu novo trabalho, From Death to Destiny, apresentaria uma mudança na linha de raciocínio, inclinando mais para o que é comumente categorizado como “radio-friendly”, aonde as suas influências mais farofeiras viriam à tona. Novamente produzido por Joey Sturgis, o terceiro álbum do grupo foi descrito por eles como uma mescla entre Mötley Crüe e Slipknot, e bem, não estão completamente errados ...


Logo no início, com “Don’t Pray For Me”, já é possível notar uma banda se distanciando aos poucos do metalcore predominante dos álbuns anteriores e sutilmente invertendo os papéis com os elementos de hard rock que sempre estiveram presentes em suas composições. Com passagens ainda mais simples e carregadas de melodias fáceis, o álbum prossegue cadenciado com “Killing You”, que apesar de manter as típicas alternâncias entre vocais rasgados e limpos, fica no mesmo trilho iniciado na primeira faixa.


“The Death of Me”, porém, retorna àquela estilização do post hardcore americano, com ligeiras inserções eletrônicas em suas várias e bem encaixadas mudanças de andamento. O mesmo pode ser dito de “Run Free”, aonde os efeitos tomam um pouco a frente e geram insistentes melodias, memoráveis apesar da tolice da letra. Aliás, estes efeitos dubstep se apresentam como os personagens principais na excelente “Break Down the Walls”, com uma batida tipicamente de bate-estacas servindo de base para uma faixa perfeitamente composta para figurar nas apresentações ao vivo da banda.


E essa definitivamente parece ser o grande foco do Asking Alexandria aqui, que já teve as suas performances de palco severamente criticadas, em especial no que diz respeito às vozes, e agora parece ter encontrado um meio termo equilibrado, em um tom mais natural para o vocalista Danny Worsnop, como pode ser conferido em “Poison”, que soa como a continuação da faixa anterior, e “Believe”, retomando moldes mais tradicionais do post hardcore.


Esbarrando um pouco com o lado mais heavy metal da sua sonoridade, em certos momentos é possível observar similaridade entre o apresentado em “Creature”, a faixa seguinte, e o Avenged Sevenfold em seu período transicional (estabelecendo as devidas proporções, claro). E, caso não fosse o suficiente, a semelhança atinge níveis quase gritantes em “White Line Fever” e seu andamento extremamente cadenciado, com um bom trabalho de guitarras. “Moving On”, por outro lado, é praticamente uma ode às baladas do hard rock farofeiro oitentista, e, por incrível que pareça, não soa deslocada em relação ao restante do disco nem por um segundo sequer.


Em seguida, “The Road” segue caminhos um pouco mais tortuosos e arrastados, que quebram de forma considerável a linha ascendente pela qual o álbum vinha até o momento, e apesar dos pouco mais de três minutos de duração, deixa a impressão de prolongar-se mais do que o devido. As coisas voltam a melhorar com “Until the End”, aonde o andamento mais lento realmente funciona, em parte pela participação de Howard Jones e pela criação de um contraste notável com o restante do álbum, como uma ressaca interminável pela manhã. O trabalho ainda conta com uma faixa bônus, nada mais do que uma mixagem diferente para “The Death of Me”, que traz as guitarras e a bateria mais pra frente, dando um tom mais agressivo (e nada realmente considerável).


Até porque, considerável mesmo é como o Asking Alexandria soube trabalhar os pontos em suas composições que mais o prejudicavam, e como a banda reverteu isso em uma sonoridade relativamente nova, sem distanciá-la do já apresentado anteriormente. A simplicidade e o foco nas melodias, bem como o propósito de trazer os efeitos eletrônicos e os elementos de hard rock para desempenharem papéis mais importantes (não coincidentemente, a banda lançou um EP apenas com covers de bandas do estilo no ano passado), tornou as composições mais inteligíveis, com características e momentos marcantes, sem se perder na confusão desenfreada na qual o ouvinte eventualmente se encontrava ao longo dos primeiros álbuns.


E talvez estes sejam os maiores pontos positivos em From Death to Destiny: uma banda que não apenas está adquirindo tempo de estrada, mas está sabendo como lidar com as experiências e como melhorar gradativamente a sua sonoridade, diferentemente de certa parcela de outras bandas de post hardcore que parecem eternamente presas a uma única fórmula, repetindo-se a cada novo disco. O Asking Alexandria lançou um trabalho que é por vezes intencionalmente despreocupado, e até inocente em certos quesitos, mas com um excelente raciocínio ao criar uma atmosfera e uma sucessão de músicas para servir de trilha sonora em diversos momentos.


Pois é, o hard rock está mais presente aqui do que se imagina.


Nota 8,5


Faixas:
01. Don’t Pray For Me
02. Killing You
03. The Death Of Me
04. Run Free
05. Break Down The Walls
06. Poison
07. Believe
08. Creature
09. White Line Fever
10. Moving On
11. The Road
12. Until The End
13. The Death Of Me (Rock Mix)


Por Rodrigo Carvalho

24 de out de 2013

26 Bandas para o Matias: I de Iron Maiden

quinta-feira, outubro 24, 2013
Ouvi Iron Maiden a primeira vez quando tinha 12 ou 13 anos. Vi aqueles cabeludos na TV fazendo história no Rock in Rio, e depois fui atrás do som do grupo. Um primo mais velho tinha uma fita k7, e nela estava gravada a clássica “The Number of the Beast”. O impacto daquele riff, daquela voz e daquela música sobre um garoto que estava descobrindo o rock foi permamente: até hoje, passados muitos anos, o Iron Maiden segue sendo uma das minhas bandas favoritas.

O primeiro disco do grupo que comprei foi o duplo ao vivo Live After Death. Ouvia todo dia. Ouvi tanto que cheguei a decorar as falas de Bruce Dickinson entre as faixas. A minha parte preferida do álbum era o lado 4, que começava com “Wrathchild”, passava por “22 Acacia Avenue”, me levava às nuvens com “Children of the Damned”, tocava o infinito com “Die With Your Boots On” e chegava ao paraíso com “Phantom of the Opera” e seus solos inesquecíveis. Mais tarde, quando o disco saiu em CD, fiquei decepcionado pelo fato estas cinco músicas terem sido limadas do disquinho, fato que só foi corrigido em uma reedição futura.

Mas o momento em que o mundo se abriu e toda a beleza da sonoridade do Iron Maiden me atingiu em sua plenitude se deu com o álbum seguinte, Somewhere in Time. Ganhei o dito cujo no meu aniversário de 14 anos, em novembro de 1986 - ele havia sido lançado um pouco antes, em 29 de setembro daquele ano. Lembro nitidamente o momento em que coloquei Somewhere in Time para tocar pela primeira vez. Minha coleção de discos ficava em um espaço na frente da casa dos meus pais, espaço esse que havia sido o escritório do meu velho. Haviam grandes estantes ali, cheias de livros e revistas, e tomei posse de um dos cantos, instalando o meu aparelho de som e conquistando um território cada vez maior com o crescente número de LPs. Abri o plástico e coloquei o vinil para tocar, e uma espécie de portal se abriu. Foi ouvindo “Caught Somewhere in Time”, “Wasted Years”, “The Loneliness of the Long Distance Runner”, “Deja-Vu” e “Alexander the Great” que o meu coração foi conquistado de vez. E a cereja do bolo era aquela capa incrível, que revelava novas surpresas a cada audição.

Dali em diante, foi uma avalanche. Todos os discos do Maiden foram aterrisando como água em minha coleção, e é assim até hoje. Completei os LPs. Daí, quando lançaram os CDs, completei também. E então foram lançados as famosas versões em CD duplo, com o tracklist original em um disco e os lados B em outro. Adivinha? Completei também. E, por último, vieram as versões enhanced com novas mixagens, que também estão, em sua plenitude, em minha estante.

É difícil colocar em palavras tudo que o Iron Maiden representa na minha vida. Ouvi tanto a banda e por tanto tempo que até peguei a minha mãe, certa vez, cantarolando uma de suas melodias. Eles me ensinaram a gostar, verdadeiramente, de música. Eles me ensinaram o que é uma paixão por um artista. Me mostraram o quão legal e gratificante é possuir uma coleção de itens de uma banda que a gente gosta. Me mostraram inúmeras outras bandas através de seus b-sides, repletos de covers interessantes. Costumo dizer que Bruce Dickinson é o irmão mais velho que nunca tive, me dando conselhos, mostrando caminhos e me inspirando, desde sempre, com suas atitudes.

Hoje, o Maiden continua ocupando o maior espaço em minha coleção de discos. Na última contagem, feita há alguns meses, eram 74 CDs, 14 DVDs, 3 LPs e 3 livros. Mas o tamanho não importa, porque por mais itens que eu tenha do grupo de Steve e Bruce - e o número sempre irá aumentar, tenham certeza disso -, o que vale realmente é o quanto a música desses ingleses significa para minha vida, o quanto ela está impregnada em meu DNA.

E sim, acredito nisso. O Matias, meu filho, desde que nasceu possui uma identificação forte com o grupo. Desde bem pequeno adora folhear os livros, as capas e tudo que possua ilustrações do Eddie. Sabe, desde que aprendeu a falar, o nome de todos os integrantes. Seus preferidos são Bruce ("de cabelo curto", ele faz questão de frisar) e Nicko, que ele acha hilário e que despertou um interesse, ainda que pequeno, pela bateria. Um de nossos programas preferidos quando estamos juntos é assistir a algum dos DVDs do grupo. Ele adora ver a banda tocando, sentir a sua energia. Tenho certeza de que essa relação com a música do Maiden será uma das lembranças mais duradouras de sua infância.

Não há nada como o Iron Maiden. Quase quarenta anos de carreira e com um público que não só não para de crescer como, ainda por cima, se mostra cada vez mais novo e rejuvenescido.

Longa vida ao Maiden e a tudo o que ele significa não só na minha vida e na do meu filho, mas também na de todos os fãs e colecionadores deste banda única e sem precedentes.

Por Ricardo Seelig

Autobiografia de Corey Taylor é lançada no Brasil

quinta-feira, outubro 24, 2013
A editora Best Seller está lançando no Brasil a autobiografia de Corey Taylor, vocalista do Slipknot e Stone Sour. Sete Pecados Capitais, título nacional do original Seven Deadly Sins, já está disponível nas livrarias.

O livro, escrito pelo próprio Tylor, foi publicado nos Estados Unidos em 2010 e logo se tornou um dos mais vendidos na lista do prestigiado jornal New York Times. Taylor conta a sua história desde a infância, em West Des Moines, no estado de Iowa, ate o megaestrelato, fazendo, no caminho, associações entre a sua trajetória e os pecados capitais do título.

Além de Sete Pecados Capitais, Corey Taylor é autor também de A Funny Thing Happened on the Way to Heaven, lançado este ano e sem edição nacional.


Por Ricardo Seelig

23 de out de 2013

Crítica do livro Alice Cooper: Bem-vindo ao Meu Pesadelo

quarta-feira, outubro 23, 2013
Quando o biógrafo é fã do biografado, a imparcialidade em muitos momentos é deixada de lado. Uma das certezas que tive ao terminar de ler Bem-vindo ao Meu Pesadelo foi a de que o autor, o jornalista Dave Thompson, possui carteirinha das Forças Especiais de Alice Cooper, a quem confere um status quase divino. Não fosse Cooper e sua paixão por filmes de terror trash — um gosto incomum compartilhado pelos outros quatro integrantes da formação original do grupo —, a teatralidade talvez nunca tivesse sido inserida no contexto dos shows de rock.

O texto de Thompson aborda desde a infância marcada pela saúde frágil e adolescência no seio de uma família cristã radical até o ano de 2011, quando lançou
Welcome 2 My Nightmare. O apreço do autor pelo Alice Cooper como grupo é total. Praticamente metade do livro aborda desde os primeiros shows em ginásios e clubes decadentes até o fracasso de Muscle of Love nas prateleiras, que levou a figura de Alice a alçar um vôo solo (Welcome to My Nightmare, 1975) sem dia pra voltar.

Talvez pela falta de registros na mídia, o período mais obscuro da carreira de Alice é tratado sem a profundidade que os fãs gostariam de ver. Apesar de todas as polêmicas, Vincent Furnier é um sujeito fechado, muito dedicado à família e aos hobbies - em especial, ao golfe. Poucos de seus demônios pessoais vêm à tona e muitos segredos permanecem restritos. O que se lê sobre as décadas de 1990 e 2000 também carece de maiores detalhes, mas por um lado, isso faz com que a leitura flua sem pesar.


Mas também tem problema sim: pela terceira vez em um livro da Madras, muitos erros de tradução e ordem técnica. São nomes de músicas e pessoas escritos errado e uma série de equívocos linguísticos solucionáveis mesmo na mais superficial revisão. O acabamento também não é lá essas coisas, mas é meio que um padrão da editora publicar seus livros em Arial, por mais que a fonte, somada ao espaçamento simples, seja terrível para a leitura.


Para os fãs de música que desejarem um mergulho visceral nas origens do rock como espetáculo visual,
Bem-vindo ao Meu Pesadelo é obrigatório. 


Por Marcelo Vieira

Monsters of Rock (Anhembi, São Paulo, 19 e 20/10/2013)

quarta-feira, outubro 23, 2013
Doem as pernas, as costas, as articulações em geral. Rosto, pescoço e braços queimados. Dois dias vivendo à base de água, refri e a junk food mais cara que você possa imaginar. Duas noites mal dormidas que sem sombra de dúvida influenciaram no meu rendimento ontem e hoje no trabalho. Mas no rosto, um sorriso sem tamanho. Na alma, a certeza do sonho realizado. Quando a então última edição do Monsters of Rock aconteceu, eu não fazia a menor ideia do que era rock n' roll — eu era apenas uma criança. Através de vídeos, fotos, leituras e conversas com amigos mais velhos, fui capaz de imaginar como era o festival, responsável por trazer tantos artistas e bandas a terras tupiniquins. Mas nem nos meus devaneios mais loucos eu poderia imaginar que viveria para ver o monstro tomando forma novamente — e de maneira tão arrasadora no que diz respeito a atrações. Nos dias 19 e 20 de outubro, a passarela do samba de São Paulo foi invadida por um desfile de camisetas pretas. Alas e mais alas de roqueiros de todas as vertentes, carregando no peito os emblemas das mais diversas bandas, quase que em clima de disputa para ver quem era mais lado B, mas, surpreendentemente, nutrindo respeito entre si. Pode-se dizer que houve paz entre as tribos.

Por conta de compromissos familiares — pai e irmão mais novo moram em São Paulo e eu não podia abrir mão de vê-los depois de tanto tempo —, cheguei atrasado no sábado, a tempo apenas de conferir as três atrações finais, começando pelo Limp Bizkit, que foi uma das minhas portas de entrada para o mundo do rock, tocando seis músicas de Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water (2000), álbum que marcou o meu início no lado negro da força, para o terror da vizinhança. Comprovando a máxima de que tem sempre um filho da puta, tentaram bater a minha carteira durante o show. Em vão, e é com enorme satisfação que informo que o mesmo voltou para casa com um dedo quebrado. Infelizmente, este não foi um incidente isolado e tive colegas (no plural) que tiveram carteira e celular furtados na multidão. É uma droga, mas faz parte. Com o melhor som da noite, o Korn colocou todo mundo pra pular e ainda convocou o Sepultura ao palco no bis para uma muito bem a calhar "Roots Bloody Roots". E o Slipknot é aquela coisa: goste você ou não, reconheça a competência musical e a capacidade dos caras de realizar shows impecáveis. O som deu umas falhadas, a guitarra de Jim Root ficou no mudo várias vezes, mas o repertório matador assegurou a apresentação como a melhor da noite.

Adoro horário de verão, mas ele não poderia ter vindo em um dia pior. Cheguei ao Anhembi no domingo devendo horas de sono. A ausência de nuvens no céu indicava que o sol não daria trégua — e o copinho d'água a R$ 5 me deu a certeza de que eu voltaria pobre para o Rio de Janeiro. Vestindo a recém comprada camiseta do Ratt, cheguei a tempo de ver o eficiente Dr. Sin dar início aos trabalhos tocando sons que já fazem parte da cartilha do metal verde e amarelo e preparar terreno para o Dokken, banda esta que eu amo — e é amor dos antigos! Deu pena ver (e ouvir) Don Dokken detonado pelos anos de noitada, mas a emoção de ouvir clássicos como "In My Dreams" e "Into the Fire" supriu a falta que a voz de Don fez. O vocalista agradeceu pelo carinho do público e ainda pagou de badass ao percorrer a passarela de uso exclusivo do Aerosmith ("Me disseram que eu não podia vir até aqui. Mandei eles se foderem!"). Na sequência, o Geoff Tate's Queensrÿche deixou de lado as esquisitices dos trabalhos mais recentes e apostou num setlist praticamente dedicado aos fundamentais Operation: Mindcrime (1988) e Empire (1990). Acompanhado de músicos do gabarito de Rudy Sarzo — que roubou a cena fazendo malabarismos com seu baixo — e o baterista Simon Wright, Tate acertou em cheio. Cantando como poucos e menos afetado que de costume, conduziu um ainda modesto público a uma viagem ao fundo do ser em "Silent Lucidity", a música que, segundo ele, cada um interpreta a letra de uma maneira distinta.

Da safra hard rock que eu chamo de Geração American Pie, o Buckcherry é, sem dúvida, uma das bandas mais divertidas e carismáticas. No palco, a insanidade reina e você sente que o espírito junkie das letras tem um fundo de verdade. Da abertura com "Lit Up" ao encerramento com "Crazy Bitch" ("puta louca", segundo o vocalista Josh Todd), todo mundo agitando. O Ratt entrou em cena ao anoitecer com o pior som de todo o festival. Volume absurdo, agudos estridentes, voz soterrando todos os instrumentos. Repertório fantástico — apesar de não terem tocado nada de Detonator (1990), meu álbum favorito da banda —, porém prejudicado pela incompetência do operador de áudio. Sem o menor fôlego e com o corpo caindo aos pedaços, recorri aos deuses do metal, pedindo forças para aguentar o que ainda estava por vir: meu terceiro show do Whitesnake — que acabou sendo o melhor dos três — e o Aerosmith, que eu tinha certeza, entraria no meu top five. Steven Tyler é o vocalista de hard rock definitivo; todo o resto é cópia, bem ou mal feita, mas que ainda assim peca em uma coisa ou outra. O pai da Liv esbanja carisma, cretinice, sensualidade, sexualidade e, principalmente, VOZ! Não há um ser vivo na idade dele que cante o que ele canta, e como canta. A fidelidade das músicas ao vivo às originais é indescritível e os olhos se encheram d'água em vários momentos. Ok, faltou "Crazy", mas faltaram tantas outras... um show do Aerosmith, para ser perfeito, deveria durar dias.

Ao contrário da maioria dos festivais, o Monsters of Rock não possuiu uma vasta gama de tendas e afins. As poucas opções de entretenimento cessariam atividades ao anoitecer, obrigando todo mundo a se dirigir para a área dos shows. Fiz um teste play na guitarra signature do Edu Ardanuy e visitei o estande do Wikimetal, onde rolavam umas bandinhas. A programação musical dos intervalos ficou a cargo da 89 FM, a rádio rock de São Paulo. O merchandising oficial era um absurdo de caro (R$ 90 o boné, R$ 100 a camiseta e R$ 120 o agasalho) e, acredito eu, deve ter encalhado. Na saída, porém, as camisetas genéricas vendiam que nem pãozinho quente. Para comer, de tudo um pouco, de pastel (R$ 6) a fondue de frutas e chocolate (R$ 8), mas os favoritos da galera eram mesmo o cheeseburger (R$ 12) e o hot dog (R$ 10). Quem comprasse duas cervejas ganhava um copo maneiríssimo do patrocinador do evento e eu, obviamente, garanti um.

Do que eu senti falta? Acho que domingo o público poderia ter sido mais desinibido — não no visual, pois o que tinha de glam rocker lá não era brincadeira, mas sim em não sentir vergonha de cantar, mesmo que em inglês errado, as músicas dos seus ídolos. Ninguém vai a show para fiscalizar o inglês alheio. Muitos momentos que poderiam ter sido marcantes levaram medalhinha FAIL por conta do público calado e insosso. Nem mesmo os sortudos que conseguiram lugar na grade e viram tudo bem de pertinho pareciam empenhados em dar o melhor de si na cara dos monstros do rock. Ainda mais em shows de bandas como Whitesnake e Aerosmith, cujas músicas já fazem parte do inconsciente coletivo do brasileiro. David Coverdale e Steven Tyler mereciam muito mais do que tiveram. 


Voltei para o Rio, ou melhor, para o mundo real, na segunda de manhã. Mas parte do meu espírito, eu acredito, ainda está lá pelo Anhembi, cantando e pulando ao som dos meus heróis que (ainda) não morreram de overdose.

Por Marcelo Vieira

22 de out de 2013

Novos vídeos: Arcade Fire, Arctic Monkeys, Paul McCartney, Vintage Trouble, Killswitch Engage e muito mais

terça-feira, outubro 22, 2013
Destaques para a nova música do Arcade Fire com cenas do filme Orfeu Negro, Arctic Monkeys acústico, o sempre excelente Vintage Trouble, o ótimo e cheio de sentimentos “Always” do Killswitch Engage, o trailer do novo clipe de Paul McCartney com a participação de Johnny Depp, e para Charles Bradley comprando discos na Amoeba!

Enjoy!

 

Por Ricardo Seelig

21 de out de 2013

Considerações sobre o Monsters of Rock 2013

segunda-feira, outubro 21, 2013
Após uma ausência de 15 anos, o festival Monsters of Rock retornou ao Brasil e aconteceu neste final de semana em São Paulo, no Anhembi. O balanço final foi muito positivo, com ótimos shows e um grande público nos dois dias, estimando em aproximadamente 30 mil pessoas tanto no sábado quanto no domingo.

A escolha por escalar bandas bastante distintas nos dois dias me pareceu bem acertada. Sem se fixar a uma sonoridade específica, a escalação do Monsters foi de um extremo ao outro: nomes mais atuais e agressivos no sábado e um domingo dedicado ao festivo hard rock norte-americano. Isso fez com que o público, também, se comportasse de forma distinta. A audiência do sábado foi claramente mais participativa, pulando e cantando junto com os grupos, enquanto no domingo o que se viu foi um público mais apático, que apenas cantou e mostrou estar vivo quando as duas principais atrações do dia, Whitesnake e Aerosmith, subiram ao palco.

Com som muito bom, ótima estrutura e organização praticamente impecável, o Monsters of Rock mostrou que retornou para ficar pelas mãos da XYZ Live, produtora responsável pelo evento. O que se viu no Anhembi foi um festival de primeiro mundo, e com grande público em todos os dias.

Em relação às bandas, há de se fazer alguns comentários específicos. No sábado tivemos grandes shows durante todo o dia, com destaque para o Hatebreed (que deu uma aula de violência e energia e levantou o público), Limp Bizkit (apesar de não curtir a banda, só um cego não percebeu a ótima receptividade e a grande participação do público durante o show dos caras), KoRn (com um show excepcional, com ótima performance dos músicos e, na opinião desse que vos escreve, ganhando com folga o título de melhor show do Monsters) e Slipknot (sempre uma experiência impressionante, tanto visual quando musicalmente). O Killswitch Engage também fez uma boa apresentação, apesar de a receptividade do público à banda ter ficado aquém da esperada.

Já no domingo, as coisas não correram tão bem. O Dokken fez uma apresentação muito fraca, com Don Dokken não conseguindo esconder os seus problemas vocais. O que já havia sido ruim desceu a um nível inimaginável com o Queensrÿche de Geoff Tate, responsável pelo pior show do festival, em todos os sentidos. Interação praticamente inexistente com o público, performance distante e mudanças no arranjo das composições, além da execução pra lá de discutível dos músicos, mostraram que o melhor caminho para Tate é demitir toda a banda e sair em busca de outros instrumentistas. Buckcherry e Ratt fizeram bons shows, mas infelizmente o mesmo não pode ser dito do Whitesnake. David Coverdale é outro que já não apresenta a mesma capacidade de cantar as composições criadas por ele mesmo, e recorreu aos backing vocals da competentíssima banda que o acompanha - onde os destaques foram o guitarrista Doug Aldrich e o baterista Tommy Aldridge - além da conta. Era fácil perceber que, nos trechos com vocais mais agudos, Coverdale simplesmente afastava o microfone da boca e deixava essas passagens por conta do guitarrista Reb Beach e do tecladista Brian Ruedy. Além disso, visivelmente acima do peso e carregadíssimo na maquiagem, David Coverdale foi uma triste e deprimente figura no palco do Monsters of Rock, longe da imagem icônica construída em torno do seu nome. Se pudesse dar uma dica para ele, diria para esquecer os tons mais altos de sua voz e focar apenas nos mais graves, onde ainda canta de forma correta.

O fechamento, com o Aerosmith, foi em altíssimo nível, salvando um dia de shows apenas medianos. Steven Tyler e sua turma mostraram estar na ponta dos cascos, principalmente o cantor, que do alto dos seus 65 anos cantou de maneira excepcional durante toda a apresentação. A única crítica negativa durante o concerto do Aerosmith vai para o público, que mostrou desconhecer praticamente toda e qualquer canção gravada pela banda durante a década de 1970. O Aerosmith não surgiu com Pump, informem-se melhor na próxima vez.

O saldo final do retorno do Monsters of Rock foi muito positivo, e mostrou que há um enorme público para um festival destinado ao hard rock e ao heavy metal aqui no Brasil. Parabéns à organização do evento, e esperamos que o Monsters se consolide como uma atração anual no calendário de shows brasileiro.

Por Ricardo Seelig

Novos vídeos: Tarja e Floor Jansen juntas, Flying Colors, Volbeat, Motörhead, My Ruin, Kill Devil Hill e All That Remains

segunda-feira, outubro 21, 2013
Começando a semana com muito rock temos os novos vídeos do Flying Colors, Volbeat, Motörhead, My Ruin, Kill Devil Hill e All That Remains. O destaque é o encontro de Tarja Turunen e Floor Jansen, primeira e atual vocalistas do Nightwish, em uma bela versão de “Over the Hill and Far Away”, de Gary Moore, executada esse final de semana no festival belga Metal Female Voices.

 

Por Ricardo Seelig

Max Cavalera: segue o jogo, meu velho!

segunda-feira, outubro 21, 2013
Era de se esperar que acabasse acontecendo – afinal, tanto o Soulfly quanto o Sepultura vão lançar novos discos este ano, mais ou menos na mesma época. Logo, a questão dos irmãos Cavalera (em especial o vocalista Max) versus os atuais integrantes de sua ex-banda voltaria a se tornar pauta do dia no meio do rock pesado. O que me fez escrever estas linhas, no entanto, foi a declaração que Max fez para o site Live Metal, talvez uma das mais contundentes que o camarada já versou sobre o assunto. “Pra mim, eu meio que não me importo com o que eles fazem”, começou ele.  “É um assunto um pouco complicado porque eu criei a banda e ainda a considero parte de minha vida. E é realmente difícil de lidar com o fato que eles continuam com o nome sem mim e sem qualquer Cavalera. Depois de meu irmão sair, ficou ainda mais difícil pra mim levar eles a sério. Não há ninguém original na banda. É assim que eu vejo o Sepultura, e eu acho que muitos dos fãs compartilham da mesma opinião". Como se não bastasse, eis que então ele arremata, com chave de ouro: "Eu já estou no Soulfly há mais tempo do que estive no Sepultura, e eu amo o Soulfly e eu amo o que o Soulfly criou. E estou muito ocupado aqui, então eu realmente estou pouco me fudendo pro que aqueles caras fazem". 

Tá legal. Isso seria o que eu REALMENTE gostaria que acontecesse, de fato. Afinal, pelo tempo de estrada, hoje o Max Cavalera é muito mais o vocalista do Soulfly do que o ex-vocalista do Sepultura. E eu mesmo já defendi que, no ano passado, ele lançou Enslaved, um dos melhores discos do ano à frente do Soulfly – e talvez um dos melhores de toda a sua carreira. Mas a julgar pelo fato de que o Max está falando sobre este assunto pela milésima vez nos últimos anos, sou levado a crer que, não, infelizmente, ele não está pouco se fudendo para o que o Sepultura faz. Mas deveria. 

Antes de entrar no assunto, Mr.Cavalera, é bom que se corrija: ninguém original na banda? Amigão, será que você não se esqueceu do Paulo Xisto Jr., baixista do Sepultura desde o primeiro disco? Esqueçamos esta história de que ele não tocou nas gravações de estúdio, que foi o Max quem gravou as linhas de baixo. Aqui, isso não importa. Porque quem estava no palco, desde o começo, empunhando e espancando o baixo, era o Paulo. Então, mais respeito. Da mesma forma, não faz qualquer sentido tanta desconsideração com o guitarrista Andreas Kisser – que entrou para a banda em 1987, apenas dois anos depois que ela se formou. Antes dele, a banda tinha lançado apenas Bestial Devastation (85, no formato de split LP com o Overdose) e Morbid Visions (86). A partir de Schizophrenia (87), o álbum que alçou o Sepultura ao estrelato, ele esteve em nada menos do que 11 discos do grupo, completando exatos 26 anos empunhando as guitarras da banda. Sério mesmo que, para você, isso é pouco? E o Derrick Green, que já é vocalista do Sepultura há 15 anos, tendo gravado seis álbuns? Isso é praticamente uma vida, muito mais do que duram muitas outras bandas. 

Dito isto, que era algo que estava engasgado na minha garganta, sejamos honestos: quantas vezes vocês já não ouviram Max Cavalera falar sobre a tal turnê de reunião do Sepultura? Eu já li, contando por baixo, pelo menos umas vinte entrevistas nas quais ele diz que adoraria que ela acontecesse. Isso não é, nem de longe, o comportamento de um cara que não liga para o que sua antiga banda faz. Porque um cara interessado em seguir em frente com a carreira simplesmente não tocaria mais no assunto. Falar sobre o passado, beleza. Revisitar as antigas canções no palco com o Soulfly e com o Cavalera Conspiracy, a banda ao lado do mano Iggor, excelente. Mas remoer em toda e qualquer entrevista as causas de sua saída e, principalmente, o futuro do grupo, honestamente, é um saco. Já deu o que tinha que dar – ainda mais porque a outra metade, o próprio Sepultura, refuta esta reunião sempre que questionada a respeito. 

Importante: não me venham com o lenga-lenga de "ah, mas o Max só fala sobre o assunto porque a imprensa não pára de perguntar sobre isso". Discordo. Sou jornalista. E já estive diante de inúmeros artistas que, antes de uma entrevista, já me pediram cordialmente: "cara, vamos evitar falar sobre este ou aquele assunto? Pra mim, já deu, não tô mais no barato de falar sobre isso". E pronto. Forma educada de deixar um assunto que o incomoda para trás. "Não quero falar sobre o Sepultura de hoje, tudo bem? Sobre o meu passado na banda, sem problemas, mas o Sepultura de hoje, pra mim, não existe". Estaria resolvido. Mas ele simplesmente não consegue. 

Não preciso ir muito longe porque, dias antes da entrevista para o LiveMetal, outra publicação especializada, o MetalPaths, publicava uma outra entrevista do Max, na qual ele falava sobre…guess what?…uma possível reunião com o Sepultura. "Eu acho que é por isso que a banda não vai para lugar nenhum. Aproximam-se do chão mais e mais a cada ano. Menos pessoas gostam deles. Por alguma razão parece que eles não percebem que uma turnê de reunião seria a melhor coisa a fazer para os fãs e para o nome da banda. Eu gostaria de fazer isso por mim e pelos fãs, especialmente porque estamos todos aqui e isto é possível", disse o camarada. Possível é, meu velho. Mas não precisa acontecer. Porque o nome da banda, que tem um contrato com a maior gravadora de heavy metal do planeta e vem se apresentando no palco do maior festival de heavy metal do planeta, vai bem obrigado. Falei que eles lançaram recentemente Kairos, que é aquele que considero o melhor disco de sua trajetória com Derrick nos vocais? Mano, se isso é "se aproximar do chão mais e mais a cada ano", rapaz, eu vou me jogar com a cara no chão agora mesmo. 

É claro que uma parte dos fãs parece agir como viúvas dos Cavalera e resolveram parar de segui-los. Justo, justíssimo. Mas isso não impede, como aconteceu nitidamente, que eles arrebanhem uma nova parcela de fãs no processo. Acontece sempre que uma banda passa por um período de mudança. Para mim, com ou sem Cavaleras na integração, este é o Sepultura. Se para você não é, legal, pegue seus discos antigos da banda, com Max nos vocais e Iggor na batera, e ouça como se não houvesse amanhã. 

Sou fã do Sepultura, admito. Mas não estou, nem de longe, sendo pago para defendê-los. O caso é que me incomoda profundamente esta postura de um artista que perde seu tempo despejando o mesmo blá-blá-blá insuportável a respeito de seu ex-grupo ao invés de usar a oportunidade para criar e divulgar ainda mais a sua nova banda – que, vejam só, é muito boa. Me lembra claramente daqueles longos e agonizantes anos anteriores à reconciliação de Dave Mustaine com o Metallica, quando tudo que o cara sabia era, a cada entrevista, falar de novo e de novo sobre sua antiga banda. Mas ele é simplesmente o líder do Megadeth, porra. E o Megadeth é uma banda ótima, que tem lançado consistentemente discos excelentes (por mais que você não concorde com Super Collider, pelo menos Endgame e Thirteen são uma dupla e tanto). Preocupe-se, então, com o diacho do Megadeth e deixe o Metallica pra trás, no passado, que é onde ele ficou para você. 

Querem outro exemplo? Eu dou, sem pensar duas vezes: Paul Dianno. Embora prefira muito mais a voz e a postura de palco do frontman Bruce Dickinson, sei admitir a importância que Dianno teve para a história da Donzela de Ferro, dando voz aos memoráveis Iron Maiden (80) e Killers (81). São discos incríveis, com clássicos fantásticos como "Wrathchild" e "Running Free", só para citar aqueles mais ouvidos (o que dirá, então, de "Charlotte, The Harlot" e "Phantom of the Opera"?). Isso é óbvio. O que não é óbvio, pelo menos para mim, é perceber que mais de trinta anos depois, Dianno simplesmente não conseguiu decolar uma carreira solo decente sem se desvincular do Iron Maiden. 

Por que esta obsessão ridícula em atacar o Maiden e especificamente Bruce Dickinson, tentando conseguir alguma atenção por meio da polêmica? Será que o cara não percebe que isso só tira todo e qualquer brilho que seu trabalho solo possa ter? Já encheu o saco esta história de ver o sujeito fazendo a sua carreira sempre e sempre em cima do passado, usando até a tipologia do Iron Maiden em seus discos solo e flyers de seus shows, e batizando a si mesmo como The Beast - termo que, como todos os fãs sabem muito bem, só surgiu relacionado à banda de Steve Harris no disco The Number of the Beast (82), já sem a presença de Dianno. Soa demais como picaretagem de um cara que adora pregar a autenticidade da cena metálica, mas que tem mais discos com covers do Maiden do que com faixas inéditas. Agindo desta forma, Dianno parece ainda mais marketeiro do que os ex-companheiros de banda que costuma acusar desta forma.

Quem vive de passado é museu, diz o velho e batido ditado. Isso vale para Dave Mustaine, para Paul Dianno e sim, vale bastante para Max Cavalera. Deixe o chororô de lado, esqueça esta bobagem de reunião do Sepultura e pare, de uma vez, de falar sobre os caras. Concentre-se no Soulfly e no trabalho com o seu irmão, que é a oportunidade de entregar aos fãs que sentem a falta de vocês no Sepultura o que eles estão querendo. Simples assim. Pare de querer ser lembrado eternamente como "o ex-vocalista do Sepultura". Isso é pouco, é limitador. Você está agindo como um mala, mas é um ótimo músico, merece bem mais. Se o Sepultura, para você, está horrível, está se afundando, pois bem, deixe que eles se afundem. Você criou a banda quando era um adolescente e parece ter uma relação quase obsessiva com um nome que, para você, agora não deveria significar mais nada. O legado ficou. Está escrito, na forma de sete discos memoráveis. Siga em frente. Corte, de uma vez, o seu cordão. Este não é o seu bebê, como alguém certa vez disse. Não se convença desta bobagem. Esta é sua ex-banda. Cante os clássicos nos shows, curta com o seu irmão e com as novas gerações de Cavaleras que estão se juntando a vocês. Mas faça isso sendo Max Cavalera, o vocalista do Soulfly. Isso é você. Porque caminhar só faz bem se for pra frente, sujeito. 

Pra mim, como fã, não existe qualquer necessidade de uma turnê de reunião ou do retorno desta ou daquela formação. Saudosismo besta. Estou feliz em ter Sepultura, Soulfly e Cavalera Conspiracy juntos, co-existindo. Helloween, Gamma Ray, Unisonic e Masterplan. Metallica, Megadeth e Newsted. Angra, Shaman e André Matos. 
Cardápio farto e variado. Assim é que eu gosto. 

Cavalera, meu velho: segue a porra do jogo.

Por Thiago Cardim

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