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Quadrinhos: Pedacinhos, de Shintaro Kago (2024, Darkside)

Este é um mangá complexo e que é muito mais do que aparenta. A princípio, ao lermos Pedacinhos , de Shintaro Kago, somos apresentados à história de um tenebroso serial killer que mata suas vítimas separando os corpos em duas partes, como o famoso assassinato da Dália Negra. Porém, a história é muito mais que isso. Pra começo de conversa, trata-se de uma obra de Kago, maior referência do ero guro, gênero que une o erótico e o grotesco. Então, há diversas cenas mais picantes e bastante perturbadoras. Mas o que torna Pedacinhos algo muito fora da curva é a abordagem metalinguística adotada por Shintaro. O autor discute técnicas e truques narrativos durante todo o quadrinho, explicando-os para a sua editora durante a história, e une tudo isso - a trama do serial killer doentio com as discussões sobre técnicas narrativas - em um resultado final que é de cair o queixo e beira a genialidade. O traço de Kago é limpo e ao mesmo tempo clássico, com ilustrações muito criativas e frequentemente c...

Quadrinhos: Eterna Magia, de Hope Larson e Rebecca Mock (2024, Darkside)

Eterna Magia ganhou o Prêmio Eisner de melhor publicação infantil. Porém, após ler a HQ, preciso fazer um adendo: ela é indicada para todas as idades. Escrito por Hope Larson ( Batgirl, Uma Dobra no Tempo ) e ilustrado por Rebecca Mock, o quadrinho acabou de ser publicado no Brasil pela Darkside em uma edição em capa dura com 240 páginas em cores, com tradução de Flora Pinheiro. Acompanhamos a história da garota Vonceil, de apenas 11 anos, que, junto com a família, recebe o irmão que acabou de voltar da Primeira Guerra. Recém-casado, o rapaz é surpreendido pela chegada inesperada de uma linda mulher que conheceu na Europa e o quer de volta. Ao receber a recusa do jovem marido, ela, que na verdade é uma bruxa, lança uma maldição que afeta a todos. A história se passa em 1919, no interior dos Estados Unidos, e traz elementos de western e fantasia. Eterna Magia conta a grande jornada vivida por Vonceil para salvar aqueles que ama. O roteiro de Larson é repleto de sensibilidade e ação, en...

Quadrinhos: Odisseias Iniciáticas, de Milo Manara (2024, Comix Zone)

O italiano Milo Manara é, provavelmente, a maior referência quando falamos de quadrinhos eróticos. Porém, ilustrador talentosíssimo que sempre foi, nunca se prendeu apenas a esse tipo de história. Odisseias Iniciáticas , HQ publicada pela Comix Zone, mostra isso. O álbum reúne duas histórias, O Homem das Neves e O Homem de Papel , ambas produzidas no início da carreira de Manara e antes de ele se estabelecer como referência em quadrinhos sensuais. O Homem das Neves , com roteiro de Alfredo Castelli, criador de Martin Mystère, reimagina a lenda do abominável homem das neves explorando aspectos místicos que trazem uma abordagem interessante para a trama. Publicada originalmente em 1978 pela editora Bonelli dentro da série Um Homem, Uma Aventura , apresenta um Manara ainda desenvolvendo o traço que o tornaria famoso nos anos seguintes, e a diferença entre essa história e obras como Clic , artisticamente falando, é bastante perceptível. Já em O Homem de Papel , publicada em 1982, temos u...

Review: Robert Plant – Fate of Nations (1993)

Pelo menos aos meus ouvidos, os primeiros anos da carreira solo de Robert Plant não alcançaram as altas expectativas que se esperava do vocalista do Led Zeppelin. Na verdade, olhando em retrospectiva, nem Plant, nem Jimmy Page e nem John Paul Jones conseguiram, pelo menos na primeira década após o encerramento das atividades da lendária banda inglesa, gravar álbuns que atendessem o que se imaginava que eles pudessem produzir.   No caso de Plant, o jogo começou a virar com a entrada da década de 1990. Ainda que seus  quatro primeiros discos solo – Pictures at Eleven (1982), The Principle of Moments (1983), Shaken 'n' Stirred (1985) e Now and Zen (1988) – tenham entregado boas canções e alcançado altas posições nas paradas, foi só com Manic Nirvana (1990) que o vocalista efetivamente conseguiu chamar a minha atenção para a sua carreira pós-Zeppelin. Mas o ponto de virada definitivo foi Fate of Nations , sexto álbum de Plant, lançado em maio de 1993 e puxado pelo se...

Review: Thor – The Living Side of Death (2024)

O metal brasileiro vivia os seus primórdios na década de 1980, e isso é facilmente perceptível quando ouvimos hoje alguns álbuns que marcaram aquele período. E não estou falando de discos de bandas que se transformaram em lendas e referências como Sepultura, Sarcófago, Overdose e outras. Me refiro a toda uma cena que foi muito importante na época, em diferentes partes do Brasil, e já há alguns anos é resgatada por selos especializados. O Thor é uma dessas bandas. Natural do Espírito Santo, o quarteto era formado por Fabio “Midgard” (vocal), Wilson “Carrasco” (guitarra), Paulo “Guardião” (baixo) e Jeder “Animal” (bateria). O trampo do grupo for relançado pela Neves Records em The Living Side of Death , álbum que une o primeiro compacto da banda com faixas vindas da primeira fita demo dos caras. O material da Neves Records saiu em um LP de 10 polegadas e também em CD. A edição que tenho em mãos é a em CD, que vem com um slipcase que traz uma sobrecapa e também um pôster com um texto ...

Review: Dio – Strange Highways (1993)

Entre todos os dez álbuns lançados pelo Dio, Strange Highways provavelmente é o que possui a sonoridade mais peculiar. Fruto de uma época em que os grandes nomes do heavy metal lutavam para continuar relevantes, o disco apresenta influências até então inéditas no trabalho de Ronnie James Dio, o que causou - e ainda causa - calafrios nos ouvidos dos fãs mais ortodoxos. Na prática, Strange Highways foi o primeiro álbum de Dio depois do seu retorno ao Black Sabbath e que, após o bem sucedido Dehumanizer (1992), foi abreviado de maneira repentina pelo próprio vocalista, insatisfeito com a aproximação de Tony Iommi e Geezer Butler com Ozzy Osbourne, que realizava a sua primeira turnê de despedida e convidou o guitarrista e o baixista para tocarem no encerramento de seus shows. Hoje, percebe-se que o tempo fez bem para Strange Highways . O disco soa pesado, com canções que conseguem equilibrar a sonoridade clássica que se espera dos álbuns do Dio ao mesmo tempo em que insere elementos m...

Review: Trivium – In the Court of the Dragon (2021)

In the Court of the Dragon foi lançado em outubro de 2021 e é o décimo e mais recente álbum da banda americana Trivium. O disco era inédito no Brasil e apenas agora ganhou uma edição nacional, mérito da curadoria exemplar realizada pela Wikimetal e que tem gerado excelentes lançamentos. A edição vem em um slipcase com laminação de brilho, o que não apenas protege a caixa de acrílico do CD como também dá um acabamento mais luxuoso para o material. Musicalmente, o disco dá sequência à evolução da sonoridade da banda, que iniciou como uma espécie de filho bastardo do Iron Maiden com o Metallica em discos como Ascendancy (2005) e The Crusade (2006) e, a partir da dobradinha Shogun (2008) e In Waves (2011), encontrou definitivamente a sua identidade ao inserir elementos mais contemporâneos à mistura.  Produzido novamente por Josh Wilbur, que assinou os três últimos discos do grupo – além deste, The Sin and The Sentence (2017) e What the Dead Men Say (2020) -, o álbum entrega ...

Review: O Maldito – O Maldito (2024)

Surpresas são sempre boas, principalmente quando elas são inesperadas. É o caso do primeiro álbum do quarteto O Maldito, de Curitiba. Não conhecia a banda, e fui surpreendido com um trabalho que me surpreendeu muito. Formada em 2017 e contando com Rubão Zampieri (vocal e baixo), Jefferson Moraes (guitarra), Toni Antonio (guitarra) e Vilmar “Koreia” dos Santos (bateria), a banda entrega um som pesadíssimo e repleto de groove em seu álbum de estreia. Temos dez canções, todas com letras em português, com direito à participação mais do que especial do tecladista Derek Sherinian, do Black Country Communion, Sons of Apollo e ex-Dream Theater, em “Inês é Morta”. O que chama a atenção de imediato é a produção excelente, assinada por Marcelo Gelbke. Os timbres são densos, tudo é muito bem gravado, e isso destaca as inúmeras qualidades do grupo, que sabe compor canções fortes e cativantes, que cairão facilmente no gosto de quem não consegue imaginar os seus dias sem doses maciças de rock pes...

Review: Ramones – Animal Boy (1986)

O nono álbum do Ramones, Animal Boy (1986), traz uma das coleções de canções mais fortes entregues pela banda durante a década de 1980, período da carreira do grupo marcado por experimentações e que, historicamente, é um tanto menosprezado pelos fãs. Resumindo: o cara se fiz fã do quarteto nova-iorquino mas ouviu apenas algumas coletâneas e os quatro primeiros discos, e daí pulou direto para Brain Drain (1989), a enfim tão esperada consagração comercial do grupo com o hit global “Pet Sematary”. Divagações à parte, o fato é que há grandes trabalhos na fase oitentista do Ramones, e Animal Boy se destaca entre eles. Internamente o clima estava pra lá de tenso, e isso se refletiu em contribuições criativas menores tanto de Joey quanto de Johnny Ramone, com a abscência do vocalista e do guitarrista abrindo caminho para que o baixista Dee Dee dominasse as composições. A pegada mais agressiva de Dee Dee gerou pedradas como a música que batiza o disco, “Love Kills” e “Eat the Rat” (dobrad...

Review: Ramones – Too Tough to Die (1984)

Lançado em outubro de 1984, Too Tough to Die , oitavo álbum do Ramones, foi a estreia do baterista Richie Ramone no quarteto. O músico entrou pouco antes do lançamento do trabalho anterior, Subterranean Jungle (1983), assumindo o lugar de Marky Ramone, e integraria a banda até 1987, gravando mais dois discos com o quarteto, Animal Boy (1986) e Halfway to Sanity (1987). Como a maioria dos álbuns lançados pelo quarteto na década de 1980, é um disco que traz experimentações e a busca incessante por um reconhecimento maior. Em Too Tough to Die isso se traduz em uma sonoridade com momentos mais agressivos como o que ouvimos em “Mama’s Boy” e “Wart Hog”, com outros mais experimentais e onde a banda se aproxima de sonoridades mais acessíveis como em “I’m Not Afraid of Life” e “Howling at the Moon (Sha-La-La)”. Uma curiosidade é que a produção foi assinada pelo ex-baterista Tommy, aqui creditado como T. Erdelyi. No total temos treze faixas, com direito à única composição instrumental d...