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Mostrando postagens com o rótulo Prateleira do Cadão

Sinal amarelo no mercado brasileiro

A capa de 72 Seasons , novo álbum do Metallica, traz uma série de objetos pretos sobre um forte fundo amarelo. O disco, que tem algumas das letras mais confessionais de James Hetfield, entrega com essa apresentação um alerta, claro para alguns e talvez um tanto subliminar para outros, sobre a questão do suicídio. A cor amarela é a mesma usada na campanha Setembro Amarelo, que há alguns anos faz parte das iniciativas de saúde mental implementadas em todo o mundo e trata sobre o mesmo tema. Mas o amarelo da capa de 72 Seasons também tem outro significado, notadamente para o público brasileiro. Ela é um sinal de atenção para uma realidade cada vez mais consolidada no mercado fonográfico do Brasil: a escassez de lançamentos. 72 Seasons , apesar de ter sido anunciado em pré-venda pela loja oficial da Universal há alguns meses, no momento em que escrevo esse texto está indisponível para compra em CD , único formato que será lançado por aqui. E a sua entrega, para quem conseguiu adquirir ...

Alguém ainda lê?

Alguém ainda lê resenhas de discos? Esse era o título original deste texto, mas daí me dei conta de que as pessoas não apenas não lêem mais reviews, como grande parte da população simplesmente não lê. Nada e nunca. Sobre as resenhas de discos, sei que sou obsoleto. Afinal, não apenas ainda leio as críticas dos títulos que me interessam, como também sigo escrevendo reviews. Foram eles que me despertaram o interesse pela crítica musical e são eles que me mantém incentivado a continuar produzindo conteúdo relacionado à música quando falamos de textos. Mas o alcance é pequeno, sei disso. Quase ninguém as lê, e isso é reflexo do tempo em que vivemos. Para muitos, a crítica musical perdeu totalmente a sua relevância na era das redes sociais, onde a opinião de um amigo vale muito mais do que o raciocínio de quem se debruçou sobre um álbum e procurou entender o que o artista quis dizer com o seu novo – ou velho e clássico – lançamento. Vale mais uma opinião curta do que a busca pelo signif...

O que 2022 trouxe para a minha coleção

Em 2020, durante os dias solitários, intermináveis e incertos da pandemia, fiz algo que deveria ter feito há tempos: cadastrei todos a minha coleção no Discogs. E, ainda que o trabalho seja longo e cansativo para quem, como eu, possui um razoável número de itens, a recompensa é grande. São muitas funcionalidades na palma da mão, e, no meu caso específico, uma ajuda imensa na hora de lembrar se tenho ou não tal título na estante. Uma dessas funcionalidades é entender quantos itens entraram na coleção durante o ano. E foram muitos. Em 2021, mais de 450 novos CDs entraram no meu acervo, incluindo duas grandes doações que recebi. Já em 2022, o número foi maior e confesso que um pouco assustador: ao todo, 564 novos títulos entraram na minha coleção, entre CDs e DVDs, durante o ano. Foram ao todo 252 CDs usados comprados em sebos, com valor médio de R$ 10. Nesses itens, o valor máximo que aceito pagar é de R$ 20, e tenho encontrado muita coisa legal aqui em Floripa. Os itens dos sebos ge...

50 anos em 50 discos (e algumas palavras)

Na correria dos dias e na imensidão da vida, você muitas vezes nem percebe o tempo passar. E quando se dá conta, está fazendo 50 anos. Meio século. Uma data que não importava no passado, mas que agora faz pensar no futuro. Porque ela é simbólica, como todas as datas cheias, mas não só por isso. O que faz pensar, principalmente, é justamente esse meio século, essas cinco décadas, esses cinquenta anos. Tá, e daí? Fiz o que eu queria? Cheguei onde queria chegar? Vivi o que queria viver? Pensando bem, talvez a pergunta seja outra: onde eu queria estar, onde queria chegar e com quem eu gostaria de estar com essa idade? Não sei a resposta. E, por mais que entenda que é absolutamente normal passar por fases de questionamento, ter dúvidas de si mesmo e até uma certa dose de síndrome do impostor quanto olhamos para trás, para os sonhos que deixamos pelo caminho e os confrontamos com o que somos hoje, esses sentimentos não podem nos impedir de viver. Sabe onde estou hoje? Onde consegui chega...

Lovy Metal e o colecionismo inclusivo

O hábito de colecionar, por si só, é excludente. Ainda mais em um país com uma economia desigual como o Brasil. Falamos de música, mas podemos começar discutindo um item extremamente popular: o álbum de figurinhas da Copa do Mundo. O álbum da Copa 2022 custa R$ 12 na sua edição mais simples e R$ 44,90 na versão em capa dura. Cada envelope com cinco figurinhas sai por R$ 4. Como o álbum completo possui 670 cromos, para completar tudo sem repetir nenhuma figurinha é preciso R$ 536, pouco mais de 44% do valor do salário mínimo atual, que é de R$ 1.212. A estimativa é que 38% dos 217 milhões de brasileiros recebam um salário mínimo por mês, o que dá em torno de 82,5 milhões de pessoas que precisam fazer um cálculo simples: colecionar o álbum da Copa ou colocar comida na mesa? A resposta é bem simples, convenhamos. Voltando para o mundo da música, o colecionismo tem se tornado cada vez mais excludente, principalmente quando falamos de discos de vinil. Os valores praticados no Brasil são p...

O coach de coleção

Já fiz mais de cem entrevistas com colecionadores de discos nesses quase 13 anos de Collectors Room, o que me proporcionou ter contato com as mais variadas coleções e os mais variados perfis de colecionadores. E, também, com os mais diversos comentários envolvendo esses acervos incríveis. Nesse tempo todo, vi surgir e crescer uma figura que você, que coleciona discos e frequenta fóruns e grupos de colecionadores, certamente já teve contato: o coach de coleção. Ou o sommelier de discos. Chame como quiser. O perfil é sempre igual: mesmo não perguntado sobre algo, ele faz questão de externar a sua opinião sobre tudo. De julgar e avaliar as coleções e os discos que são apresentados com orgulho por apaixonados pela música como a gente. E faz isso de cima de um pedestal, emitindo opiniões que, em sua cabeça, são verdades absolutas. Mas que, na prática, só reforçam um estereótipo caricato a respeito de quem coleciona discos. A experiência de vida, de ouvir discos, de comprar álbuns, de am...

A caçada infinita

A mente de um colecionador funciona de maneira curiosa. Além de obter os itens que deseja, de organizar a sua coleção frequentemente e de ouvir seus discos, quem coleciona CDs, LPs e outros formatos possui também uma característica em comum: a caçada constante por novos títulos. Faz parte da personalidade de pessoas como eu e você deixar o alerta sempre ligado em busca de novos discos. Sabemos exatamente onde estão as lojas e sebos ao nosso redor, conhecemos seus acervos mais profundamente que seus próprios donos, e reservamos um tempo semanal para garimpar novos "soldados para nossos exércitos sonoros". E isso vale também para o mundo online, com sites devidamente favoritados e que recebem visitas quase diárias. Uma das coisas que mais curto aqui na minha Collectors Room é sentar, tomar um café e colocar um CD pra rodar. De maneira completa e sem pular nenhuma faixa, obviamente, pois é assim que se ouve um álbum. Por mais que muitos não acreditem nisso, os discos foram f...

Como é a realidade de produzir conteúdo sobre heavy metal no Brasil

Produzir conteúdo sobre heavy metal no Brasil não é das tarefas mais fáceis. Acima de tudo, é preciso paixão. É isso que moverá seus dias. Dinheiro? Pouco, e de forma esporádica. E a razão para isso passa por vários fatores. Primeiro, e obviamente, o público de metal em nosso país, apesar de grande, não sustenta uma mídia especializada e autossustentável. Você pode tirar essa dúvida tanto com jornalistas de mídia impressa quanto online, com donos de selos e gravadoras, com produtores de conteúdo, com promotores de shows, managers de bandas e os próprios músicos. A paixão é imensa, mas a receita que ela gera é limitada. Outro ponto está no próprio perfil do público. Há uma divisão em nosso país, e ela não está apenas no espectro político. O perfil do público brasileiro consumidor de metal é extremamente conservador, no sentido de se apegar de forma demasiada às bandas do passado (e, principalmente, aos discos do passado, ignorando a produção atual de gigantes do gênero) e ignorar os...

A música como fio condutor da vida

Ao pensar na vida, é normal que nos deparemos com alguns arrependimentos. E se tivesse feito tal coisa? E se não tivesse tomado tal decisão? Mas o passado não pode ser alterado, e ficar preso às armadilhas que ele traz apenas dificulta viver o presente e planejar o futuro. Música, discos, cultura, livros, seja o que for: a companhia e o conforto que esses itens nos proporcionam vão muito além do prazer de colecionar. São retratos de nossas vidas, recortes de recordações, projeções do que sonhamos. Uma coleção de discos, analisada com sensibilidade e atenção, revela muito sobre seu dono. Em diversos aspectos, é como um raio x da personalidade de cada colecionador: complexa, variada, plural e com algumas surpresas. Behemoth lado a lado com os Beatles. Chico Buarque fazendo companhia ao Clash. Judas Priest bem pertinho de Jorge Ben. Amor e ódio, admiração e inveja, alegria e tristeza. A montanha-russa de emoções que faz parte dos nossos dias é o que faz nos sentirmos vivos. Sem sentir...

Não precisamos voltar ao normal

Nesses tempos de pandemia, somos inundados todos os dias por sugestões sobre o que fazer nesse período em que estamos em casa. Cursos, meditação, arrumações, culinária, limpezas, desapego: o que não faltam são dicas de como ocupar o tempo, do que assistir, ler e ouvir nesses dias estranhos. Mas se não quisermos fazer nada disso? Equilibrar as atividades do dia a dia com a interrogação que é a realidade atual é uma tarefa não muito fácil para a cabeça. Precisamos trabalhar, precisamos viver, e também precisamos aprender a conviver com a ansiedade, as incertezas e tudo que veio junto com a pandemia. Quem, como eu, pode realizar a sua atividade profissional em home office, tem as suas vantagens. A mais óbvia é não precisar sair para a rua e se expor ao vírus. Mas nossas casas, nossos apartamentos, nossos lares, não são ambientes de trabalho. Não estávamos acostumados a enxergá-los desta forma. Eles eram refúgios onde recarregávamos as energias após um dia cheio, onde relaxávamo...

Como você organiza seus discos?

Por que temos uma coleção de discos? Na prática, porque gostamos de música. E mais: porque gostamos de OUVIR música. Os CDs, LPs ou seja lá o formato que você coleciona estão em suas estantes para serem ouvidos e não para servirem de decoração de ambientes. Ainda que alguns hipsters alimentem o mercado de vinis aqui e lá fora comprando discos mesmo sem ter uma vitrola para tocá-los, o objetivo não é esse. Uma coleção precisa ser curtida, usada, ouvida, descoberta. Precisamos estar em contato com ela, e não apenas para tirar o pó de vez em quando. Precisamos ouvir nossos discos. E agora, que estamos em casa devido ao isolamento social causado pela pandemia de coronavírus, essa conexão fica ainda mais forte. Então, olha essa ideia: além de fazer o que você já está fazendo, que é ouvir seus discos e usar a música como terapia para esses tempos estranhos que estamos vivendo, que tal dar aquela arrumada geral na sua coleção? Além de ocupar o tempo, tenho certeza de que você d...

O poder eterno dos discos clássicos

Estou me conectando novamente à minha coleção nessa fase de isolamento social. Com o home office, consigo trabalhar tendo sempre uma trilha sonora vinda direto das minhas estantes. E um CD que ouvi nesses últimos dias há muito tempo não frequentava meus ouvidos, e ao entrar novamente em meu sistema auditivo me fez pensar sobre algumas coisas. A questão é que os discos clássicos possuem um fascínio eterno. Foi isso que os fez conquistar milhões de admiradores mundo afora: a qualidade inquestionável, o momento de alinhamento criativo que produziu uma obra atemporal, a inspiração à flor da pele, a performance antológico, a soma de tudo isso. O álbum em questão que me fez pensar sobre esses aspectos foi Appetite for Destruction , estreia do Guns N’ Roses. Não ouvia esse disco há muitos anos. Comprei a edição dupla comemorativa lançada em 2018, e confesso que só agora fui escutá-la. E é impressionante como a força desse trabalho segue intacta. Appetite for Destruction segue ...

A reconexão

Os tempos inéditos que estamos vivendo refletem de maneira diferente em cada um de nós. Eu, uma pessoa apaixonada por música, me afastei da música por um tempo durante essa quarentena. Veja só, e vai saber porque. O fato é que deixei de ouvir discos, de escutar canções, por algumas semanas. O que é estranho para quem possui quatro estantes repletas de CDs na sala de estar. A reconexão com a paixão da minha vida começou com algo que queria fazer há tempos, mas só consegui agora: cadastrar toda a coleção no Discogs . Pra quem não sabe, o Discogs é um site que funciona tanto como um banco de dados quanto como um mercado entre colecionadores. Eu o uso apenas na primeira função, cadastrando meus discos e vendo quais edições possuo, essas coisas. Após fazer todo esse processo de cadastramento durante alguns dias, voltei aos poucos ao meu esporte favorito: ouvir discos, escutar música. E fiz isso utilizando uma ferramenta que gosto muito: dentro do Discogs, com um clique vo...

Metal, haterismo e redes sociais

Escrevo sobre heavy metal desde 2004. Isso já dá 15 anos. Um bom tempo, onde vivi muitas experiências legais, conheci diversas pessoas (pessoal e virtualmente), construí uma rede de contatos e aprendi muito. E onde também colecionei haters e tive algumas discussões mais sérias, tudo causado por uma soma de fatores: sinceridade em expor opiniões, imaturidade em diversos momentos (mais minha do que de outros) e um gênio às vezes um tanto explosivo (mais uma vez uma característica minha e não de outras pessoas). Dito isso, vamos ao assunto deste texto: o público de heavy metal é apaixonado pelo gênero musical que ouve. E confesso que não conheço público mais dedicado e passional que o de metal. Uma música tão intensa quanto o metal só poderia gerar uma base de fãs assim, e essa é uma das qualidades do estilo. Ao mesmo tempo em que conhece a fundo as bandas que curte e adora pesquisar sobre o gênero que ama, o fã de metal também é um tanto cabeça dura em relação a outros estil...

Aleatoriedade colecionável, ou a coleção espontânea

Um dia desses estava pensando sobre a forma como compro discos, a maneira como sempre adquiri discos. E me dei conta que foram poucas às vezes em que entrei em uma loja com um objetivo bem definido na cabeça. É claro que as exceções sempre existiram em se tratando das minhas bandas do coração como Led Zeppelin, Iron Maiden e Metallica, mas praticamente somente à elas. Vou explicar melhor. Sempre gostei de entrar em uma loja de discos sem ter algo definido na cabeça. Sempre curti chegar e começar a olhar o que estava à venda, o que estava disponível, quais eram os CDs que estavam me olhando e pedindo para serem levados pra casa. A sensação de estar olhando e olhando e de repente dar de cara com um álbum que você nem lembrava que queria, ou que até já tinha esquecido que existia (ou nem sabia que existia), ou que leu sobre em uma revista ou livro e sabe que é legal. Essa sensação de imprevisibilidade, essa surpresa que faz o coração bater mais forte, foi o que guiou a construç...

O conforto auditivo

Sempre gostei de pesquisar sobre música, descobrir novas bandas, ouvir novos discos. E, pra falar a verdade, acredito que essa seja uma característica comum em pessoas como eu, que consomem música em quantidades acima da média, colecionam discos, lêem sobre o assunto e estão sempre devorando algo sobre o tema. Porém, tenho percebido que meus hábitos em relação à música estão mudando um pouco. Sigo consumindo discos, a coleção continua aumentando, porém não há muitas novidades chegando aos meus ouvidos ultimamente. E esse foi um movimento, a princípio, inconsciente. Só percebi que estava ouvindo bandas e artistas que já conhecia e não me aventurando por terrenos desconhecidos como outrora depois de um certo tempo. E fiquei pensando porque isso aconteceu. Tudo bem que, pra um cara como eu, com 46 anos nas costas e que consume discos de forma quase compulsiva há quase 35 anos – comecei a ouvir rock seriamente a partir de 1985, com o primeiro Rock in Rio -, digamos que o q...

Trio, a pérola pop que veio da Alemanha

A banda alemã Trio foi um dos maiores one hit wonders dos anos 1980 e ficou conhecida mundialmente pelo single "Da Da Da", lançado em 1982 e que foi um enorme sucesso em mais de trinta países.  Mas o grupo tinha muito mais a dar do que apenas uma canção. Isso ficou claro desde o primeiro de seus quatro álbuns, batizado apenas como TRIO e lançado no Brasil pela gravadora Mercury em 1982. O disco saiu na Alemanha e na Europa um ano antes, e, puxado pelo sucesso de "Da Da Da", abriu as portas do mundo para a banda formada na cidade de Großenkneten em 1979. O trio era Stephan Remmler (vocal e teclado), Gert Krawinkel (guitarra) e  Peter Behrens (bateria), e contou com a ajuda do artista Klaus Voormann, criador da capa do álbum Revolver (1966) dos Beatles, que curtiu o som do grupo e decidiu produzir algumas de suas músicas, bem como dar uma mão no baixo. TRIO , o álbum, é um disco delicioso e que vai muito além de sua música mais conhecida. São dezesseis...