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Dampyr Vol. 7: quando mitologia, história e sobrenatural transformam o terror em aventura (2021, Editora 85)

Publicado no Brasil pela Editora 85, Dampyr Vol. 7 reforça o motivo pelo qual a série criada por Mauro Boselli e Maurizio Colombo se tornou um dos títulos mais consistentes do catálogo da Sergio Bonelli Editore. Reunindo as edições originais italianas 25 a 28, o volume apresenta um mosaico bastante representativo da proposta narrativa da HQ: combinar horror sobrenatural, aventura e referências históricas em tramas acessíveis e envolventes. A abertura com Pesadelo Flamengo trabalha um dos elementos mais recorrentes da série: o passado que retorna como força sobrenatural. A trama ambientada em Gante aposta em uma atmosfera melancólica e progressivamente inquietante, explorando memórias, culpa e o peso do tempo. O roteiro de Boselli constrói bem o suspense, enquanto os desenhos de Luca Rossi reforçam o clima soturno que domina a narrativa. O Jardim Proibido mergulha em uma abordagem mais clássica do horror europeu. Ambientada em Praga, a história mistura assassinatos brutais, lenda...
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A Different Kind of Truth (2012): o retorno de David Lee Roth na despedida do Van Halen

Quando o Van Halen lançou A Different Kind of Truth em 2012, o disco chegou cercado por expectativas gigantescas e por uma carga emocional inevitável. Afinal, tratava-se do primeiro álbum de inéditas com David Lee Roth desde o clássico 1984 , encerrando um hiato de quase três décadas dessa formação histórica. Mais do que isso, o trabalho também representava o primeiro material novo da banda em 14 anos e apresentava Wolfgang Van Halen assumindo o baixo no lugar de Michael Anthony, o que já colocava o projeto sob forte escrutínio dos fãs. O que A Different Kind of Truth entrega é, essencialmente, um reencontro com a essência mais crua e energética do Van Halen. Grande parte do repertório vem da revisitação de demos compostas ainda nos anos 1970 e início dos anos 1980, lapidadas com produção moderna e executadas com a maturidade técnica que Eddie Van Halen desenvolveu ao longo da carreira. Esse resgate funciona como uma ponte entre o passado e o presente da banda. O álbum aposta em ...

Quando falar sobre quadrinhos virou falar sobre consumo?

Nos últimos anos, a produção de conteúdo sobre quadrinhos no YouTube brasileiro cresceu de forma impressionante. Surgiram novos canais, novas vozes e uma expansão significativa do alcance do hobby. Em muitos aspectos, esse movimento ajudou a popularizar a leitura de HQs e aproximar novos leitores de obras clássicas e contemporâneas. Mas, ao mesmo tempo, essa expansão trouxe uma transformação perceptível na forma como os quadrinhos são discutidos. Cada vez mais, falar sobre HQs parece significar falar sobre compras, coleções e lançamentos. Vídeos de unboxing, listas de aquisições e rankings de edições se tornaram formatos dominantes. Não há nada de errado nisso por si só. O colecionismo sempre foi parte importante da cultura dos quadrinhos. O problema começa quando o ato de possuir passa a ocupar um espaço maior do que o ato de ler. Em muitos casos, a lógica do consumo acelerado cria uma narrativa em que a relevância parece estar associada ao tamanho da coleção ou à quantidade de tí...

Entre a fúria e a melodia: o Kreator em Krushers of the World (2026)

Quando o Kreator chega ao seu décimo sexto álbum de estúdio, a expectativa inevitavelmente gira em torno de um ponto delicado: como uma banda com mais de quatro décadas de história consegue se manter relevante sem perder a própria identidade? Krushers of the World (2026) responde essa pergunta apostando em um equilíbrio cuidadoso entre tradição e modernização sonora, reafirmando o Kreator como um dos nomes mais consistentes do thrash metal mundial. Produzido por Jens Bogren, o disco apresenta uma sonoridade polida, pesada e extremamente eficiente, mantendo a agressividade que sempre caracterizou a banda liderada por Mille Petrozza, mas incorporando uma abordagem mais melódica e dinâmica, algo que o grupo vem desenvolvendo com maior ênfase desde Phantom Antichrist (2012). O álbum não tenta reinventar o Kreator, mas sim aperfeiçoar sua fórmula. Faixas como “Seven Serpents” e “Satanic Anarchy” apostam em riffs cortantes e andamento veloz, dialogando diretamente com a tradição do thr...

David Lee Roth e o brilho oitentista de Skyscraper (1988)

Quando David Lee Roth lançou Skyscraper em 1988, o vocalista estava diante de um desafio importante: provar que sua carreira solo tinha fôlego para ir além do impacto inicial de Eat ’Em and Smile (1986). O segundo disco solo manteve a mesma banda virtuosa, mas mostrou um artista disposto a ampliar horizontes sonoros, mesmo que isso dividisse opiniões. Skyscraper representa um passo claro rumo a um som mais acessível e polido. Se o álbum anterior apostava forte no hard rock explosivo e na técnica exuberante, aqui Roth e o guitarrista Steve Vai investem em arranjos mais variados, incorporando teclados, atmosferas mais sofisticadas e uma produção tipicamente oitentista. O resultado é um trabalho que equilibra peso, melodias radiofônicas e experimentação. Logo na abertura, “Knucklebones” mantém a energia e o espírito festivo característicos de Roth, enquanto “Just Like Paradise” surge como o grande hit do álbum. A faixa combina refrão grudento, levada ensolarada e um apelo pop irres...

Kuno: uma fábula moderna sobre identidade e pertencimento (2025, Poptopia)

Publicada no Brasil pela Poptopia, Kuno é uma graphic novel argentina escrita por Jonathan Crenovich e ilustrada por Fede di Pila que aposta em uma narrativa sensível e simbólica para discutir temas bastante contemporâneos. A obra acompanha um crash dummy que, após anos cumprindo mecanicamente sua função em testes de colisão, desenvolve consciência e decide partir em busca de identidade, propósito e pertencimento. A premissa já indica o tom da história: Kuno é uma fábula que utiliza personagens improváveis para refletir sobre dilemas humanos. Ao longo da jornada, o protagonista encontra figuras igualmente deslocadas de seus papéis originais, como um joão-bobo que deseja liberdade, um robô Polaroid obsoleto, uma pintura cansada de ser apenas observada e até uma vaca leiteira que compartilha inquietações existenciais. Esses encontros funcionam como espelhos narrativos, permitindo que o quadrinho explore questões ligadas à identidade, diversidade, amizade e aceitação. Kuno é uma ob...

Break the Silence (2026): Beyond the Black expande seu som e vai além do metal sinfônico tradicional

Em Break The Silence (2026) , o Beyond The Black deixa claro que não está interessado em repetir fórmulas nem em se acomodar no rótulo de metal sinfônico tradicional. O sexto álbum da banda alemã aposta em um equilíbrio cuidadoso entre peso, melodia e atmosfera, reforçando uma identidade própria construída ao longo da última década. A produção é um dos grandes trunfos do disco. Tudo soa limpo, moderno e bem distribuído, sem sufocar a emoção das composições. Há momentos grandiosos, quase cinematográficos, mas também espaço para sutilezas, texturas atmosféricas e arranjos que pedem atenção além do impacto imediato. É um álbum que cresce com o tempo, recompensando audições mais atentas. Jennifer Haben entrega uma de suas performances mais maduras. Sua voz transita com naturalidade entre força e vulnerabilidade, conduzindo as canções com intensidade emocional e carisma. Faixas como a própria “Break The Silence”, “Rising High” e “Let There Be Rain” mostram bem essa dualidade entre ener...

Tempo of the Damned (2004): o retorno feroz do Exodus ao trono do thrash metal

Depois de mais de uma década sem lançar um álbum de estúdio, o Exodus voltou ao jogo em 2004 com Tempo of the Damned , e não como uma banda tentando sobreviver à nostalgia, mas como um nome disposto a reafirmar sua relevância no thrash metal do século XXI. O disco não soa como um exercício de memória afetiva: ele é agressivo, direto e consciente de sua própria herança. Produzido por Andy Sneap, o álbum apresenta um som moderno e limpo, sem polir em excesso a aspereza que sempre definiu o Exodus. Os riffs de Gary Holt continuam sendo o motor central da banda: cortantes, velozes e cheios de variações, equilibrando ataques frenéticos com momentos de groove pesado. A presença de Rick Hunolt completa a parede sonora com solos intensos e bem distribuídos, mantendo a tradição guitarrística do grupo em alto nível. Steve “Zetro” Souza entrega uma performance que pode dividir opiniões, mas que funciona perfeitamente dentro da proposta do álbum. Seu vocal ácido e quase histérico reforça o car...

Sofrência, sexo e algoritmos: o novo lugar-comum da música brasileira

Ao longo de toda a sua história, a música popular brasileira sempre soube equilibrar acessibilidade e sofisticação. Mesmo nos momentos mais comerciais, nunca foi exigido que o público “pensasse pouco”. Pelo contrário: canções populares frequentemente carregavam camadas poéticas, sociais, políticas e afetivas que iam muito além do entretenimento imediato. A ideia de que “música pop sempre foi simples” é, portanto, apenas meia verdade. Sim, a música popular sempre dialogou com o grande público, mas isso nunca significou empobrecimento temático. Basta lembrar que artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Zeca Pagodinho e Rita Lee, ou mesmo nomes mais populares do rádio dos anos 80 e 90 como Barão Vermelho, Cazuza, Legião Urbana, Titãs, Engenheiros do Hawaii e Skank, conseguiam unir refrões memoráveis a letras que falavam de amor, cotidiano, identidade, política, desejo e contradição humana com inteligência e sensibilidade. O contraste com bo...

Túneis: humor, arqueologia e conflito por Rutu Modan (2024, WMF Martins Fontes)

A caçada à Arca da Aliança já rendeu histórias épicas, religiosas ou conspiratórias aos montes, mas Rutu Modan escolhe um caminho bem diferente em Túneis . Publicada no Brasil pela WMF Martins Fontes, que já havia lançado  A Propriedade , também da autora, a graphic novel usa esse artefato lendário menos como motor de aventura clássica e mais como pretexto para uma sátira afiada sobre identidade, obsessão histórica e convivência em um território marcado por conflitos reais. A trama acompanha Nili, filha de um arqueólogo desacreditado que dedicou a vida à busca pela Arca. Determinada a restaurar o legado do pai, ela se envolve em uma escavação clandestina que cruza fronteiras físicas e simbólicas, reunindo personagens israelenses e palestinos movidos por interesses muitas vezes incompatíveis. O que poderia facilmente descambar para um discurso pesado ou didático é conduzido por Modan com humor seco e ironia constante. Um dos grandes méritos de Túneis está justamente nessa abord...