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David Lee Roth e o brilho oitentista de Skyscraper (1988)

Quando David Lee Roth lançou Skyscraper em 1988, o vocalista estava diante de um desafio importante: provar que sua carreira solo tinha fôlego para ir além do impacto inicial de Eat ’Em and Smile (1986). O segundo disco solo manteve a mesma banda virtuosa, mas mostrou um artista disposto a ampliar horizontes sonoros, mesmo que isso dividisse opiniões. Skyscraper representa um passo claro rumo a um som mais acessível e polido. Se o álbum anterior apostava forte no hard rock explosivo e na técnica exuberante, aqui Roth e o guitarrista Steve Vai investem em arranjos mais variados, incorporando teclados, atmosferas mais sofisticadas e uma produção tipicamente oitentista. O resultado é um trabalho que equilibra peso, melodias radiofônicas e experimentação. Logo na abertura, “Knucklebones” mantém a energia e o espírito festivo característicos de Roth, enquanto “Just Like Paradise” surge como o grande hit do álbum. A faixa combina refrão grudento, levada ensolarada e um apelo pop irres...
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Kuno: uma fábula moderna sobre identidade e pertencimento (2025, Poptopia)

Publicada no Brasil pela Poptopia, Kuno é uma graphic novel argentina escrita por Jonathan Crenovich e ilustrada por Fede di Pila que aposta em uma narrativa sensível e simbólica para discutir temas bastante contemporâneos. A obra acompanha um crash dummy que, após anos cumprindo mecanicamente sua função em testes de colisão, desenvolve consciência e decide partir em busca de identidade, propósito e pertencimento. A premissa já indica o tom da história: Kuno é uma fábula que utiliza personagens improváveis para refletir sobre dilemas humanos. Ao longo da jornada, o protagonista encontra figuras igualmente deslocadas de seus papéis originais, como um joão-bobo que deseja liberdade, um robô Polaroid obsoleto, uma pintura cansada de ser apenas observada e até uma vaca leiteira que compartilha inquietações existenciais. Esses encontros funcionam como espelhos narrativos, permitindo que o quadrinho explore questões ligadas à identidade, diversidade, amizade e aceitação. Kuno é uma ob...

Break the Silence (2026): Beyond the Black expande seu som e vai além do metal sinfônico tradicional

Em Break The Silence (2026) , o Beyond The Black deixa claro que não está interessado em repetir fórmulas nem em se acomodar no rótulo de metal sinfônico tradicional. O sexto álbum da banda alemã aposta em um equilíbrio cuidadoso entre peso, melodia e atmosfera, reforçando uma identidade própria construída ao longo da última década. A produção é um dos grandes trunfos do disco. Tudo soa limpo, moderno e bem distribuído, sem sufocar a emoção das composições. Há momentos grandiosos, quase cinematográficos, mas também espaço para sutilezas, texturas atmosféricas e arranjos que pedem atenção além do impacto imediato. É um álbum que cresce com o tempo, recompensando audições mais atentas. Jennifer Haben entrega uma de suas performances mais maduras. Sua voz transita com naturalidade entre força e vulnerabilidade, conduzindo as canções com intensidade emocional e carisma. Faixas como a própria “Break The Silence”, “Rising High” e “Let There Be Rain” mostram bem essa dualidade entre ener...

Tempo of the Damned (2004): o retorno feroz do Exodus ao trono do thrash metal

Depois de mais de uma década sem lançar um álbum de estúdio, o Exodus voltou ao jogo em 2004 com Tempo of the Damned , e não como uma banda tentando sobreviver à nostalgia, mas como um nome disposto a reafirmar sua relevância no thrash metal do século XXI. O disco não soa como um exercício de memória afetiva: ele é agressivo, direto e consciente de sua própria herança. Produzido por Andy Sneap, o álbum apresenta um som moderno e limpo, sem polir em excesso a aspereza que sempre definiu o Exodus. Os riffs de Gary Holt continuam sendo o motor central da banda: cortantes, velozes e cheios de variações, equilibrando ataques frenéticos com momentos de groove pesado. A presença de Rick Hunolt completa a parede sonora com solos intensos e bem distribuídos, mantendo a tradição guitarrística do grupo em alto nível. Steve “Zetro” Souza entrega uma performance que pode dividir opiniões, mas que funciona perfeitamente dentro da proposta do álbum. Seu vocal ácido e quase histérico reforça o car...

Sofrência, sexo e algoritmos: o novo lugar-comum da música brasileira

Ao longo de toda a sua história, a música popular brasileira sempre soube equilibrar acessibilidade e sofisticação. Mesmo nos momentos mais comerciais, nunca foi exigido que o público “pensasse pouco”. Pelo contrário: canções populares frequentemente carregavam camadas poéticas, sociais, políticas e afetivas que iam muito além do entretenimento imediato. A ideia de que “música pop sempre foi simples” é, portanto, apenas meia verdade. Sim, a música popular sempre dialogou com o grande público, mas isso nunca significou empobrecimento temático. Basta lembrar que artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Zeca Pagodinho e Rita Lee, ou mesmo nomes mais populares do rádio dos anos 80 e 90 como Barão Vermelho, Cazuza, Legião Urbana, Titãs, Engenheiros do Hawaii e Skank, conseguiam unir refrões memoráveis a letras que falavam de amor, cotidiano, identidade, política, desejo e contradição humana com inteligência e sensibilidade. O contraste com bo...

Túneis: humor, arqueologia e conflito por Rutu Modan (2024, WMF Martins Fontes)

A caçada à Arca da Aliança já rendeu histórias épicas, religiosas ou conspiratórias aos montes, mas Rutu Modan escolhe um caminho bem diferente em Túneis . Publicada no Brasil pela WMF Martins Fontes, que já havia lançado  A Propriedade , também da autora, a graphic novel usa esse artefato lendário menos como motor de aventura clássica e mais como pretexto para uma sátira afiada sobre identidade, obsessão histórica e convivência em um território marcado por conflitos reais. A trama acompanha Nili, filha de um arqueólogo desacreditado que dedicou a vida à busca pela Arca. Determinada a restaurar o legado do pai, ela se envolve em uma escavação clandestina que cruza fronteiras físicas e simbólicas, reunindo personagens israelenses e palestinos movidos por interesses muitas vezes incompatíveis. O que poderia facilmente descambar para um discurso pesado ou didático é conduzido por Modan com humor seco e ironia constante. Um dos grandes méritos de Túneis está justamente nessa abord...

Systematic Chaos (2007): o início de uma nova era para o Dream Theater

Lançado como o álbum de estreia do Dream Theater pela Roadrunner Records, Systematic Chaos (2007) surge após o fechamento simbólico de Octavarium (2005) e abandona qualquer pretensão conceitual unificada para apostar em uma coleção de ideias intensas, fragmentadas e, muitas vezes, deliberadamente excessivas. É um disco que parece querer provar força, energia e relevância em um cenário de metal progressivo que já havia mudado bastante nos anos 2000. Desde a abertura com “In the Presence of Enemies – Part I”, fica claro que o grupo opta por um tom mais sombrio e agressivo. Riffs pesados, mudanças bruscas de andamento e um clima quase épico atravessam o álbum, especialmente em faixas como “The Dark Eternal Night” e “Constant Motion”, que flertam abertamente com o metal moderno. "Constant Motion", inclusive, tem uma linha vocal idêntica a "Blackened", do Metallica, e traz claras influências da banda norte-americana. Ao mesmo tempo, há espaço para momentos mais melód...

Baby Vol. 1: horror corporal, desejo e ficção científica no traço de Chang Sheng (2025, Comix Zone)

Baby Vol. 1 , de Chang Sheng, chega ao Brasil pela Comix Zone como uma obra que combina ficção científica, horror corporal e ação pós-apocalíptica com identidade visual forte e personalidade própria. Ambientada em 2043, a história parte de um colapso global causado por um parasita conhecido como “Baby”, capaz de transformar humanos em criaturas mecânicas grotescas, fundindo carne e metal de maneira perturbadora. A protagonista, Elisa, sobrevive a um ataque dessas entidades, mas carrega uma condição singular: o parasita se aloja em sua mão sem consumi-la por completo. Esse detalhe funciona como eixo simbólico da narrativa, colocando a personagem em permanente tensão entre humanidade e monstruosidade. Um ano depois, sua jornada se cruza com um grupo de resgate e com a enigmática Alice, figura que amplia o mistério e os conflitos do mundo apresentado. Visualmente, Baby é impressionante. O traço de Chang Sheng é muito bonito, preciso e extremamente expressivo. Há um apelo sexual onipr...

Megadeth (2026): um ponto final coerente para uma carreira marcada pelo confronto

A decisão de encerrar a discografia com um álbum autointitulado diz muito sobre a forma como o Megadeth escolheu se despedir. O disco não soa como um testamento emocional nem como uma tentativa de revisitar glórias passadas a qualquer custo. É, antes de tudo, um trabalho que mostra Dave Mustaine consciente de suas limitações, mas também seguro da identidade que construiu ao longo de mais de quatro décadas. O álbum aposta em uma linguagem deliberadamente clássica. Os riffs são secos, diretos, ancorados no thrash metal que sempre foi a espinha dorsal da banda, enquanto os solos mantêm o caráter técnico e agressivo que distingue o Megadeth desde os anos 1980. Não há aqui a ambição conceitual de Rust in Peace (1990) ou o refinamento estrutural de Countdown to Extinction (1992) , mas existe um senso de eficiência quase pragmático: as músicas dizem exatamente o que precisam dizer, sem adornos desnecessários. Nesse contexto, algumas faixas se destacam com mais clareza. “Tipping Point”,...

A Própria Carne – Escrito com Sangue: o horror como herança e consequência (2026, Pipoca & Nanquim)

A Própria Carne – Escrito com Sangue  reúne duas das principais referências da cultura pop brasileira: o portal Jovem Nerd e o canal e editora Pipoca & Nanquim. A HQ não é apenas um produto derivado do filme produzido pelo portal: é uma expansão conceitual que entende o terror como algo múltiplo, fragmentado e profundamente humano. O quadrinho assume desde o início sua natureza de antologia e transforma essa característica em virtude, não em limitação. A obra reúne seis histórias curtas que orbitam o universo do filme A Própria Carne , mas evita a armadilha do simples “material complementar”. Cada capítulo funciona como um recorte específico de trauma, obsessão ou ruptura moral, explorando personagens e situações que antecedem ou tangenciam os eventos centrais da narrativa cinematográfica. O resultado é menos explicativo e mais atmosférico, algo que dialoga muito bem com a tradição do horror psicológico. A HQ aposta na diversidade. Os roteiros variam entre o horror ritualís...