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Alto Volume, de Henrique Inglez de Souza: um diário de bordo do jornalismo rock (2025, Independente)

Alto Volume: Bastidores e Conversas com Ícones do Rock/Metal Mundial , de Henrique Inglez de Souza, é um livro que se impõe menos como uma simples coletânea de entrevistas e mais como um relato autoral de vivência no jornalismo musical. Ao longo de suas páginas, o autor transforma décadas de encontros com grandes nomes do rock e do metal em uma narrativa fluida, que privilegia contexto, percepção e memória, elementos que raramente sobrevivem ao formato tradicional das revistas. Aqui, as conversas não aparecem de forma engessada ou protocolar. Henrique reconstrói ambientes, descreve atitudes, revela bastidores e, sobretudo, interpreta o que foi dito e o que ficou subentendido. O resultado é um livro que se lê como uma sucessão de histórias conectadas por uma mesma paixão: a música pesada e tudo o que orbita ao redor dela, do glamour ao desgaste, do mito à realidade. Um dos grandes méritos de Alto Volume está na humanização dos ícones. As figuras lendárias surgem não apenas como per...
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Ayreon em 01011001 (2008): quando a tecnologia tenta recriar a alma

Em 01011001 , Arjen Anthony Lucassen leva o Ayreon ao limite de sua própria ambição. Lançado em 2008, o álbum não é apenas mais uma ópera-rock dentro do já complexo universo criado pelo músico holandês, mas um ponto de convergência narrativa, estética e filosófica de tudo o que o projeto vinha construindo desde os anos 1990. Trata-se de uma obra gigantesca em duração, elenco e ideias, que exige do ouvinte tempo, atenção e disposição. A história gira em torno dos Forever, uma raça alienígena imortal que, ao alcançar um grau extremo de evolução tecnológica, perde justamente aquilo que os tornava vivos: as emoções. Na tentativa de recuperá-las, eles criam a humanidade como um experimento, usando seu próprio DNA, esperando observar sentimentos como amor, dor, medo e empatia à distância. O problema é que a experiência sai do controle. A humanidade acelera seu desenvolvimento tecnológico, repete os mesmos erros dos criadores e caminha para a autodestruição. A ironia é cruel e central para ...

The Metal Opera (2001): Tobias Sammet e a ambição que redefiniu o power metal

The Metal Opera (2001) não surgiu apenas como um álbum de estreia, mas como a apresentação de um conceito ambicioso que ajudaria a redefinir o power metal no início dos anos 2000. Idealizado por Tobias Sammet, então conhecido pelo trabalho no Edguy, o Avantasia nasceu já como algo maior do que uma banda tradicional: um projeto narrativo, coral e teatral, pensado como uma verdadeira ópera em forma de metal. A proposta é clara desde os primeiros minutos. The Metal Opera é um álbum conceitual que acompanha uma história de fantasia com fortes referências religiosas, conflitos de fé, amor e destino. Cada personagem ganha voz própria por meio de convidados que, à época, representavam o alto escalão do metal melódico europeu. Michael Kiske, Kai Hansen, Andre Matos, David DeFeis e Sharon den Adel não aparecem apenas como participações especiais, mas como peças essenciais da narrativa, reforçando a ideia de encenação sonora. E, em relação a Kiske, o disco tem ainda outro significado, pois m...

Fabio Lione fala sobre passado, presente e desgaste no Angra

A saída de Fabio Lione do Angra, após 13 anos como vocalista, não foi apenas o encerramento de um ciclo. Em entrevista recente à Rolling Stone Brasil ( leia aqui ), o cantor italiano deixou claro que sua decisão envolve mais do que o hiato anunciado pela banda: trata-se de uma leitura crítica sobre narrativa, legado e, principalmente, futuro artístico. Segundo Fabio, a explicação pública dada por Rafael Bittencourt de que ele preferiu sair para continuar ativo enquanto o Angra entra em pausa, é verdadeira, mas incompleta. Para o vocalista, trata-se de uma “verdade confortável”, construída de forma diplomática, que evita aprofundar divergências internas sobre os rumos da banda. Sem ataques diretos, Fabio aponta para uma diferença de visão: enquanto ele defende movimento e criação constante, o Angra parece cada vez mais ancorado na celebração do passado. Esse ponto se torna central quando o cantor fala de sua própria passagem pela banda. Foram três álbuns de estúdio, o trio Secret Ga...

Dystopia (2016): foco, maturidade e a reafirmação criativa do Megadeth

Quando Dystopia (2016) foi lançado, a discussão em torno do Megadeth já não girava mais apenas em torno da qualidade de cada novo disco, mas da própria capacidade da banda de permanecer artisticamente relevante dentro do thrash metal. Diferente de nomes que passaram a viver quase exclusivamente da nostalgia, Dave Mustaine sempre tratou cada álbum como uma tentativa, bem-sucedida ou não, de reafirmação criativa. Dystopia se destaca justamente por transformar essa necessidade em método. A entrada de Kiko Loureiro representa uma mudança profunda. Seu estilo não tenta emular Marty Friedman nem competir com o passado. Ele trabalha com fluidez, precisão técnica e uma abordagem mais racional dos solos, que não são apenas momentos de virtuosismo, mas extensões narrativas das músicas. Eles dialogam com os riffs, ampliam tensões e, muitas vezes, funcionam como comentários musicais sobre a própria estrutura das faixas. Chris Adler, por sua vez, traz uma abordagem rítmica mais contemporânea,...

Masterplan (2003): uma estreia moldada por experiência e personalidade

Lançado em 2003, Masterplan chegou cercado de expectativas. Não era apenas o álbum de estreia de uma nova banda, mas a reunião de músicos experientes como Roland Grapow e Uli Kusch, recém-saídos do Helloween, e o vocalista Jørn Lande, que carregavam consigo um passado relevante no metal europeu. O risco, nesses casos, costuma ser alto: ou o projeto soa como uma extensão previsível do que já foi feito antes, ou se perde tentando provar demais. Masterplan evita essas duas armadilhas com notável segurança. O disco se ancora no power metal melódico, mas não se limita a ele. Há peso, velocidade e refrões fortes, mas também espaço para estruturas mais elaboradas e momentos de densidade emocional que fogem do padrão mais épico ou fantasioso do gênero. Desde “Spirit Never Die”, que abre o álbum com energia e confiança, fica claro que a proposta é direta, mas não simplista. Os riffs são sólidos, a base rítmica é precisa e a produção favorece a clareza sem sacrificar o impacto. O grande di...

Animals (1977): o Pink Floyd em um estudo sobre poder, alienação e ruptura

Aprofundando a escuta de Animals (1977), fica cada vez mais claro que este é um dos álbuns mais coesos e radicais da discografia do Pink Floyd não apenas pelo discurso, mas pela forma como música, letra e estrutura trabalham juntas para transmitir desconforto. Trata-se menos de um álbum conceitual clássico e mais de um manifesto sonoro, onde cada escolha estética reforça a visão amarga de Roger Waters sobre a sociedade e, em certa medida, sobre a própria trajetória da banda. Diferente de The Dark Side of the Moon (1973), que usa metáforas universais, ou de Wish You Were Here (1975), que se ancora na melancolia e na ausência, Animals é direto, acusatório e pouco interessado em sutilezas. Waters assume o controle criativo quase total, e isso se reflete tanto na agressividade das letras quanto na rigidez estrutural do disco. Aqui, não há espaço para abstrações confortáveis: tudo é conflito, hierarquia e sobrevivência. A sonoridade é mais seca, menos espacial, com uma presença maio...

Beco do Rosário: Ana Luiza Koehler e a Porto Alegre que os mapas apagaram (2020, Veneta)

Beco do Rosário , de Ana Luiza Koehler, é uma daquelas graphic novels que dialogam com a história de forma profundamente incisiva. Ambientada na Porto Alegre dos anos 1920, a obra reconstrói um espaço real, o antigo Beco do Rosário, para refletir sobre memória urbana, exclusão social e os custos humanos dos projetos de modernização das cidades brasileiras. A narrativa acompanha Vitória, uma jovem negra que vive no beco e sonha em ser jornalista, em meio a um contexto marcado por racismo estrutural, desigualdade de gênero e transformações urbanísticas que empurram comunidades inteiras para fora do centro. A cidade cresce, se “europeíza”, mas deixa para trás histórias, afetos e identidades. Esse contraste entre progresso e apagamento é o eixo central do quadrinho. O grande diferencial de Beco do Rosário está na forma como texto e imagem se complementam. O traço delicado aliado à aquarela suave cria uma atmosfera contemplativa, quase melancólica, que convida o leitor a observar cada ...

Colecionismo, identidade e vida adulta: por que o hobby parece mais presente entre pessoas solteiras

O colecionismo é um hobby que atravessa gerações, estilos de vida e perfis sociais. Discos, quadrinhos, livros, action figures e objetos de memória ocupam estantes, caixas e prateleiras de milhares de pessoas, sendo elas solteiras, casadas ou em relacionamentos. Ainda assim, uma percepção recorrente surge tanto em conversas informais quanto em comunidades especializadas: o colecionismo parece mais presente, intenso ou visível na vida de pessoas solteiras. Essa associação nasce de fatores práticos e simbólicos que ajudam a explicar por que o hobby tende a ganhar mais espaço quando não há um relacionamento estável em jogo. Um dos principais elementos por trás dessa percepção está na autonomia. Pessoas solteiras, em geral, têm maior controle sobre o próprio tempo, orçamento e rotina. O colecionismo exige dedicação contínua: pesquisar edições, acompanhar lançamentos, comparar versões, organizar acervos e, muitas vezes, investir valores significativos ao longo do tempo. Sem a necessidad...

Novas pré-vendas de CDs na Kanto do Artista reúnem clássicos do rock e grandes lançamentos internacionais

A Kanto do Artista, em parceria com Oporto da Música, disponibilizou uma nova leva de pré-vendas de CDs, com títulos que transitam entre clássicos absolutos do rock, álbuns cult e lançamentos aguardados do pop internacional. Os discos começam a ficar disponíveis a partir de fevereiro de 2026 e contam com 10% de desconto utilizando o cupom COLLECTORSROOM10. Grande parte dos títulos é da Wikimetal, conhecida pelo cuidado editorial e gráfico em suas edições físicas, mas a seleção também inclui lançamentos da Warner Music, ampliando ainda mais o leque de estilos e públicos atendidos. Todos os itens em pré-venda podem ser conferidos diretamente na página oficial da loja: 👉 https://www.kantodoartista.com.br/pre-venda Entre os destaques da Wikimetal, estão edições caprichadas de álbuns fundamentais da história do rock. Salisbury (1971), do Uriah Heep, vem em versão com slipcase, encarte de 20 páginas e sete faixas bônus. Fireball (1971), do Deep Purple, chega em edição remixada e comem...