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As melhores HQs de 2025 na opinião da Collectors Room


O ano de 2025 foi especialmente fértil para os quadrinhos, com obras que exploraram o meio em toda a sua potência narrativa, estética e emocional. A lista de melhores do ano da Collectors Room reflete esse momento singular, reunindo HQs que não apenas se destacaram pela qualidade técnica, mas que também provocaram, inquietaram e permaneceram com o leitor muito além da última página. São histórias que transitam entre horror, fantasia, suspense, western, drama psicológico e introspecção, sempre com identidade forte e propostas autorais bem definidas.

Mais do que um ranking, esta seleção é um recorte curatorial que valoriza obras capazes de usar os quadrinhos como linguagem, explorando ritmo, silêncio, composição visual e densidade temática. De títulos consagrados internacionalmente a produções nacionais marcantes, passando por edições brasileiras cuidadosas e relevantes, esta lista celebra HQs que ajudaram a definir 2025 como um ano memorável para leitores atentos e apaixonados pelos quadrinhos.


10 Hoje é Um Belo Dia para Matar

Hoje é Um Belo Dia para Matar, de Patrick Horwath, é uma das HQs mais perturbadoras e originais de 2025. Sob uma estética que remete a livros infantis e desenhos animados clássicos, a obra apresenta Samantha Strong, uma simpática ursinha que vive em uma cidade aparentemente perfeita e que, longe dos olhares da comunidade, leva uma vida dupla como assassina em série. O contraste entre forma e conteúdo é imediato e profundamente desconfortável.

Horwath utiliza o visual fofo como uma armadilha narrativa. Quanto mais acolhedor o mundo apresentado, mais chocante se torna a violência que emerge de suas páginas. A HQ dialoga com o horror psicológico e o humor negro ao expor a hipocrisia social, a normalização da brutalidade e o prazer mórbido do leitor em acompanhar uma protagonista monstruosa, mas meticulosamente carismática. Nada aqui é gratuito: cada escolha estética reforça o comentário sobre as máscaras sociais e o mal escondido sob superfícies impecáveis.

Publicada no Brasil pela DarkSide em uma edição de luxo que valoriza ainda mais esse jogo de contrastes, Hoje é Um Belo Dia para Matar é uma leitura que provoca, incomoda e permanece na memória. Premiada e amplamente discutida, a HQ confirma Patrick Horwath como uma voz singular no quadrinho contemporâneo e se impõe como um dos títulos mais inquietantes e indispensáveis do ano.


9 Somna

Somna, de Becky Cloonan e Tula Lotay, é uma das HQs mais marcantes de 2025. Ambientada na Inglaterra do século XVII, em meio às caças às bruxas, a obra acompanha Ingrid, uma mulher aprisionada em um casamento opressivo e em uma sociedade regida pelo puritanismo e pela repressão. Entre a realidade sufocante e sonhos cada vez mais intensos, a narrativa constrói um horror psicológico elegante e profundamente simbólico.

Um dos grandes destaques está na abordagem visual. Cloonan e Lotay dividem a narrativa de forma precisa: o mundo “real” é seco, rígido e contido, enquanto as sequências oníricas ganham um traço fluido, etéreo e carregado de erotismo. Essa alternância não é apenas estética, mas narrativa, reforçando o contraste entre repressão e desejo, vigilância e liberdade, culpa e afirmação do corpo feminino.

Vencedora do Eisner de Melhor Nova Série, Somna usa o erotismo como linguagem e não como provocação vazia, transformando desejo em ferramenta de crítica social. Sofisticada, inquietante e visualmente deslumbrante, é uma HQ que permanece com o leitor após a última página. A edição brasileira, publicada pela Comix Zone, é belíssima em todos os sentidos.


8 Helen de Wyndhorn

Helen de Wyndhorn é uma das experiências mais envolventes e emocionalmente ricas de 2025, reafirmando o poder da narrativa em quadrinhos quando fantasia, introspecção e arte se encontram com maestria. Criada por Tom King, com arte de Bilquis Evely e cores de Matheus Lopes, a HQ acompanha Helen Cole em uma jornada que nasce da dor da perda e se transforma em aventura, mistério e auto-descoberta. Ao retornar à misteriosa Wyndhorn House, a imensa mansão de sua família, Helen não apenas explora corredores e florestas enigmáticas, mas também se confronta com seus próprios medos e lembranças.

O que torna Helen de Wyndhorn um quadrinho tão memorável é a forma como equilibra momentos épicos de fantasia com temas profundamente humanos. A narrativa evoca clássicos do gênero enquanto dialoga com questões universais como luto, identidade e reconstrução interior. A arte de Bilquis Evely e a paleta de Matheus Lopes transformam cada página em um ambiente sensorial rico, onde cada sombra e detalhe contribuem para a atmosfera gótica e encantadora da obra, elevando a experiência para além do simples entretenimento.

Publicada no Brasil em edição capa dura pela Suma, Helen de Wyndhorn não apenas cativa pela beleza visual mas também pelo impacto emocional que permanece com o leitor muito depois da última página. Premiada e amplamente elogiada, incluindo o Eisner Awards para Bilquis pela arte, a HQ se firma como um dos títulos mais significativos e arrebatadores do ano.


7 Stria

Stria, de Gigi Simeoni, é uma das HQs mais inquietantes e atmosféricas publicadas no Brasil em 2025. A obra mergulha no terror psicológico ao acompanhar dois amigos que, já adultos, passam a ser assombrados por lembranças fragmentadas de um episódio traumático vivido na infância, durante as férias em um vilarejo isolado. A narrativa se constrói de forma lenta e envolvente, explorando o medo como algo íntimo, ligado à memória, à culpa e ao peso do que foi reprimido.

Simeoni trabalha o horror de maneira sutil e profundamente sugestiva, evitando sustos fáceis e apostando em uma atmosfera constante de tensão. A ambientação rural, carregada de superstição e lendas locais, funciona como extensão do estado psicológico dos personagens, enquanto o traço realista e contido reforça a sensação de desconforto e ambiguidade. Stria é um quadrinho que confia no silêncio, nos vazios e nas dúvidas do leitor para construir seu impacto, aproximando-se mais do terror literário do que do horror explícito.

Publicada no Brasil pela Editora 85 em um volume único, Stria amplia o acesso do leitor brasileiro a uma das obras mais elogiadas do quadrinho italiano contemporâneo. Intensa, madura e perturbadora, é uma HQ que permanece na mente após a leitura e confirma Gigi Simeoni como um autor essencial do horror psicológico moderno.


6 Ouroboros

Ouroboros, de Luckas Iohanatan, é um dos quadrinhos brasileiros mais fortes e emocionalmente impactantes dos últimos anos. A HQ acompanha Kesler, um policial que retorna à casa de sua infância após um evento traumático e se vê obrigado a encarar feridas antigas, especialmente a relação conflituosa com a mãe. A narrativa parte do íntimo para discutir memória, culpa e os ciclos que insistem em se repetir ao longo da vida.

O título não é casual: o símbolo do ouroboros, a serpente que devora a própria cauda, funciona como metáfora central da obra, refletindo padrões emocionais que se renovam e aprisionam os personagens. Luckas constrói a história com diálogos densos e confrontos psicológicos diretos, criando uma atmosfera sufocante e honesta, onde o desconforto não é evitado, mas enfrentado. A arte, marcada por escolhas cromáticas expressivas e enquadramentos precisos, reforça o peso emocional de cada cena.

Publicada pela Comix Zone em edição caprichada, Ouroboros confirma Luckas Iohanatan como uma das vozes mais relevantes dos quadrinhos nacionais contemporâneos. Intensa, madura e profundamente humana, é uma HQ que não busca agradar, mas provocar reflexão — e que permanece ecoando na mente do leitor muito depois da última página.


5 Baltimore Omnibus Vol. 1

Baltimore Omnibus Vol. 1, de Mike Mignola e Christopher Golden, é uma das leituras mais densas e atmosféricas do ano. Ambientada em uma Europa alternativa devastada pela guerra, pragas e criaturas sobrenaturais, a saga acompanha Lorde Henry Baltimore em sua cruzada obsessiva contra vampiros e horrores antigos. Trata-se de uma história movida por tragédia, vingança e fatalismo, que dialoga diretamente com o horror gótico clássico.

O grande mérito da obra está na construção de clima e mundo. Mesmo sem o traço direto de Mignola, sua assinatura estética está presente na arquitetura sombria, nos monstros grotescos e no ritmo narrativo seco e melancólico. A arte de Ben Stenbeck, aliada às cores de Dave Stewart, reforça a sensação de decadência e isolamento, enquanto o roteiro aposta menos em heroísmo e mais em perda, obsessão e consequências. Baltimore é menos uma aventura pulp tradicional e mais um mergulho em um universo corroído pela morte.

Publicada no Brasil em formato omnibus pela Mythos Editora, reunindo os primeiros arcos da série em um volume robusto, a HQ oferece uma experiência completa e imersiva. Baltimore Omnibus Vol. 1 se destaca como uma das melhores expansões do Mignolaverso fora de Hellboy, mostrando que o horror pode ser épico, literário e profundamente humano. Um título essencial para fãs de terror, fantasia sombria e narrativas que não oferecem redenção fácil.


4 Ninfeias Negras

Ninfeias Negras, de Fred Duval e Didier Cassegrain, é um daqueles quadrinhos em que forma e conteúdo caminham de maneira absolutamente integrada. Ambientada em Giverny, a HQ, que foi publicada no Brasil pela QS Comics, transforma o cenário eternizado por Claude Monet em palco para um thriller psicológico denso, elegante e cheio de camadas. A adaptação do romance de Michel Bussi aposta menos na urgência típica do gênero policial e mais na construção atmosférica, conduzindo o leitor por uma história marcada por silêncios, obsessões e segredos cuidadosamente ocultos.

O grande diferencial da obra está na arte de Didier Cassegrain, que dialoga diretamente com o impressionismo sem jamais cair na simples referência estética. As páginas parecem pinturas em movimento, com cores, luz e enquadramentos que reforçam o clima de mistério e melancolia. Cada quadro carrega uma sensação quase contemplativa, ao mesmo tempo em que sustenta a tensão narrativa, tornando a leitura visualmente hipnotizante e emocionalmente envolvente.

Ninfeias Negras se destaca por provar que o suspense pode ser sofisticado, sensorial e profundamente artístico. É uma HQ que pede leitura atenta, recompensa o leitor paciente e permanece ecoando depois da última página, tanto pela força de sua história quanto pela beleza singular de sua execução.


3 Final Cut

Final Cut, de Charles Burns, é mais uma prova do domínio absoluto do autor sobre narrativas que exploram obsessão, desejo e alienação. Ambientada em um universo que remete aos subúrbios norte-americanos dos anos 1970, a HQ acompanha jovens envolvidos com cinema amador, fantasia e frustração emocional, enquanto a linha entre realidade e imaginação se dissolve de forma inquietante. Burns constrói uma história que avança menos pela ação e mais pelo desconforto, convidando o leitor a mergulhar nos conflitos internos de seus personagens.

Visualmente, Final Cut impressiona pela precisão do traço e pelo uso expressivo das cores, que reforçam o clima de sonho febril e tensão psicológica. Diferente do preto e branco cru de Black Hole, aqui as cores vibrantes criam um contraste perturbador entre o cotidiano aparentemente banal e os impulsos sombrios que emergem aos poucos. Cada página parece calculada como um enquadramento cinematográfico, reforçando o diálogo constante da obra com o cinema de horror, ficção científica e o surrealismo.

Publicada no Brasil pela Darkside, Final Cut se destaca como uma obra madura, exigente e profundamente autoral. Não é uma leitura fácil ou imediata, mas justamente por isso se impõe como uma experiência marcante. Charles Burns entrega um quadrinho que fala sobre criação artística, desejo e identidade com uma força silenciosa e perturbadora.


2 Hoka Hey!

Hoka Hey!, de Neyef, é um western contemporâneo potente e emocionalmente carregado, que se distancia dos clichês do gênero ao colocar os povos originários no centro da narrativa. Ambientada nos Estados Unidos do século XIX, a HQ acompanha o encontro entre Georges, um jovem indígena afastado de suas raízes, e Little Knife, um guerreiro movido pela dor e pela vingança. A partir dessa jornada, a obra constrói uma história de violência, perda e reconexão cultural, tratando o Velho Oeste como um território de trauma, resistência e identidade fragmentada.

Neyef se destaca como autor completo, conduzindo roteiro, arte e cores com absoluto controle narrativo. O traço expressivo, de forte impacto visual, combina realismo e estilização para criar cenas intensas, muitas vezes silenciosas, em que o peso emocional fala mais alto do que os diálogos. A paleta de cores reforça o clima árido e brutal da história, enquanto o ritmo da narrativa alterna momentos contemplativos com explosões de violência seca e direta, tornando a leitura ao mesmo tempo dura e profundamente humana.

Publicada pela Taverna do Rei, Hoka Hey! se impõe como uma obra corajosa, que revisita o western sob uma perspectiva necessária e contemporânea. Mais do que uma história de vingança, trata-se de um quadrinho sobre pertencimento, memória e sobrevivência cultural, que permanece ecoando após a última página. Um trabalho maduro, impactante e visualmente arrebatador, que confirma Neyef como um dos grandes nomes dos quadrinhos autorais europeus atuais.


1 Friday

Friday, de Ed Brubaker e Marcos Martín, é uma obra que brinca com a nostalgia dos mistérios juvenis apenas para conduzir o leitor a terrenos bem mais sombrios. A história acompanha Friday Fitzhugh, uma ex-detetive mirim que retorna à sua cidade natal durante as férias da faculdade e se vê novamente envolvida em enigmas que misturam assassinato, segredos antigos e elementos sobrenaturais. Brubaker constrói a narrativa como um romance de formação tardio, em que o passado idealizado entra em choque com a maturidade, a culpa e a percepção de que nem todos os mistérios podem ser resolvidos sem consequências.

Visualmente, a HQ é um espetáculo de atmosfera. O traço limpo e elegante de Marcos Martín, aliado às cores de Muntsa Vicente, cria um contraste inquietante entre a aparência quase acolhedora da cidade e a escuridão que se esconde sob sua superfície. O clima invernal, os silêncios prolongados e a composição cuidadosa das páginas reforçam a sensação de isolamento e estranhamento, fazendo de Friday uma leitura que envolve tanto pelo suspense quanto pelo impacto emocional.

Mais um acerto da curadoria excelente da QS Comixs, Friday se destaca por sua habilidade de revisitar arquétipos clássicos como os detetives juvenis e os mistérios das pequenas cidades sob uma ótica madura e inquietante. É uma HQ que cresce a cada capítulo, equilibrando emoção, terror e reflexão sobre amadurecimento e identidade. Um trabalho elegante, acessível e ao mesmo tempo profundamente perturbador, que confirma o talento de Brubaker para reinventar gêneros sem perder sua essência.


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