A edição 46 de Dylan Dog, publicada no Brasil pela Mythos Editora com o título Metamorfose, reúne duas histórias escritas por Claudio Chiaverotti que representam com precisão um momento específico e muito particular da fase anos 1990 do personagem. Ao colocar lado a lado “Metamorfose” e “O Mosaico do Terror”, o volume funciona quase como uma obra dividida em duas partes sobre identidade, fragmentação e a perda de controle diante do horror.
Em “Metamorfose”, o ponto de partida é simples e profundamente perturbador: Rebecca Stanford, uma mulher bem-sucedida, acorda um dia presa em um corpo que não é o seu. A transformação física não é apenas um artifício grotesco, mas o gatilho para uma narrativa que mergulha no medo da dissolução do eu. Chiaverotti conduz a história de forma deliberadamente onírica, criando uma sensação constante de deslocamento e estranhamento. Nada parece sólido ou confiável, nem mesmo a própria identidade. É um terror mais psicológico do que explícito, potencializado pelos desenhos de Montanari & Grassani, que acentuam o desconforto sem recorrer ao exagero.
Já “O Mosaico do Terror” amplia o escopo da narrativa ao transformar um bairro inteiro em palco do horror. Em Bloodsbury, eventos aparentemente desconexos formam um quadro maior de insanidade e ameaça sobrenatural. Aqui, Chiaverotti trabalha com a ideia de fragmentação: pequenas histórias, situações e personagens que, juntos, constroem uma atmosfera opressiva e inevitável. A arte de Corrado Roi é decisiva para o impacto da história, com seus contrastes pesados, sombras sufocantes e um senso constante de decadência urbana.
Lidas em conjunto, as duas histórias dialogam entre si mais pelo clima do que pela trama. Ambas apostam em um Dylan Dog menos racional e mais vulnerável, preso em realidades instáveis onde o horror não vem apenas de monstros, mas da própria condição humana. Não são narrativas imediatas ou fáceis e ambas as histórias exigem atenção e envolvimento do leitor, mas recompensam com densidade temática e atmosfera.
A edição 46 da Mythos se destaca justamente por isso: não é apenas uma coletânea, mas um recorte muito claro de uma fase em que Dylan Dog flertava abertamente com o surreal, o simbólico e o desconforto existencial. Para leitores que apreciam o lado mais introspectivo, melancólico e inquietante do Investigador do Pesadelo, Metamorfose é uma leitura recomendadíssima.
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