Quando o Van Halen lançou A Different Kind of Truth em 2012, o disco chegou cercado por expectativas gigantescas e por uma carga emocional inevitável. Afinal, tratava-se do primeiro álbum de inéditas com David Lee Roth desde o clássico 1984, encerrando um hiato de quase três décadas dessa formação histórica. Mais do que isso, o trabalho também representava o primeiro material novo da banda em 14 anos e apresentava Wolfgang Van Halen assumindo o baixo no lugar de Michael Anthony, o que já colocava o projeto sob forte escrutínio dos fãs.
O que A Different Kind of Truth entrega é, essencialmente, um reencontro com a essência mais crua e energética do Van Halen. Grande parte do repertório vem da revisitação de demos compostas ainda nos anos 1970 e início dos anos 1980, lapidadas com produção moderna e executadas com a maturidade técnica que Eddie Van Halen desenvolveu ao longo da carreira. Esse resgate funciona como uma ponte entre o passado e o presente da banda.
O álbum aposta em riffs vigorosos, arranjos dinâmicos e na química quase telepática entre Eddie e Alex Van Halen. A guitarra de Eddie, aliás, surge como protagonista absoluta, exibindo criatividade, agressividade e aquele senso melódico que sempre foi sua marca registrada. Faixas como “She’s the Woman” e “Big River” sintetizam bem essa vitalidade, evocando o espírito festivo e irreverente do Van Halen clássico.
David Lee Roth retorna em boa forma, apostando menos em alcançar notas impossíveis e mais em explorar seu carisma, teatralidade e presença vocal única. Sua performance reforça o caráter divertido e despojado do disco, embora em alguns momentos soe mais como um narrador carismático do que como o vocalista explosivo que marcou a fase clássica da banda. Ainda assim, sua participação é fundamental para recriar a identidade que muitos fãs associam ao auge criativo do grupo.
Nem tudo, porém, soa completamente equilibrado. Faixas como “Tattoo” evidenciam certa irregularidade composicional e deixam a sensação de que o álbum poderia ter passado por uma curadoria mais rigorosa. Além disso, o forte uso de material resgatado do passado transmite a impressão de que o Van Halen optou por revisitar sua história em vez de escrever novos capítulos.
Mesmo com essas ressalvas, A Different Kind of Truth funciona como um retorno digno e surpreendentemente vigoroso para uma banda que, naquele momento, já carregava mais de quatro décadas de estrada. O disco reafirmou o Van Halen como um dos pilares do hard rock e mostrou que a química entre seus membros clássicos ainda era capaz de gerar momentos inspirados.
Com o falecimento de Eddie Van Halen em 2020 e o consequente encerramento das atividades da banda, A Different Kind of Truth acabou ganhando um peso simbólico ainda maior. Hoje, ele permanece como o capítulo final da discografia de um dos grupos mais influentes da história do rock. Um fechamento que, longe de ser melancólico, celebra a energia, o virtuosismo e o espírito festivo que sempre definiram o Van Halen.


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