Quando foi lançada em 2002 pela Image Comics, A Prô chamou atenção por levar a sátira dos super-heróis a um nível de irreverência poucas vezes visto. Mais de duas décadas depois, a HQ retorna ao mercado brasileiro em uma nova edição publicada pela Tábula Editora, trazendo material extra e recolocando a obra em evidência.
Escrita por Garth Ennis e ilustrada por Amanda Conner, com arte-final de Jimmy Palmiotti e cores de Paul Mounts, a história parte de uma premissa simples e provocativa: uma prostituta anônima recebe superpoderes de uma entidade alienígena e passa a integrar uma equipe de heróis que funciona como uma paródia escancarada da Liga da Justiça. A partir daí, Ennis constrói uma narrativa que mistura humor ácido, crítica ao moralismo típico dos quadrinhos de super-heróis e uma abordagem deliberadamente vulgar, que não economiza em exageros e situações constrangedoras.
Embora o choque seja parte essencial da proposta, A Prô funciona melhor quando deixa transparecer sua crítica à idealização do heroísmo. Ao colocar uma protagonista que não possui qualquer inclinação para o altruísmo clássico, a HQ confronta diretamente o conceito de pureza moral que marcou grande parte das narrativas tradicionais do gênero. A protagonista reage ao mundo dos super-heróis da mesma forma que encara sua própria realidade: com pragmatismo, sarcasmo e uma falta quase absoluta de reverência.
A nova edição brasileira traz 72 páginas em formato americano, capa brochura e marcador de páginas, e tem classificação indicativa adulta, o que não surpreende diante do conteúdo explicitamente sexual e da linguagem carregada. O principal atrativo desta versão é a inclusão de uma história curta publicada originalmente na antologia comemorativa de 30 anos da editora norte-americana. Esse material adicional amplia o caráter de curiosidade histórica da publicação e reforça o status cult da obra dentro da bibliografia de Ennis.
No Brasil, a HQ já havia sido lançada anteriormente pela Devir, mas a nova edição da Tábula surge como uma oportunidade de redescoberta, principalmente para leitores que passaram a conhecer o trabalho de Garth Ennis por produções mais recentes e populares. A publicação também confirma a proposta da editora de resgatar títulos relevantes do mercado internacional.
Mesmo para leitores acostumados ao humor provocador de Ennis, A Prô continua sendo uma obra divisiva. Seu apelo depende diretamente da tolerância do público à combinação entre paródia extrema e humor escatológico. Ainda assim, permanece como um retrato interessante de uma fase dos quadrinhos em que autores buscavam desconstruir o mito do super-herói com irreverência e liberdade criativa total.
Para colecionadores e fãs de histórias que desafiam convenções, a nova edição brasileira surge como um item interessante tanto pelo valor histórico quanto pelo impacto cultural que a HQ mantém dentro do universo das narrativas de super-heróis.


Comentários
Postar um comentário
Você pode, e deve, manifestar a sua opinião nos comentários. O debate com os leitores, a troca de ideias entre quem escreve e lê, é que torna o nosso trabalho gratificante e recompensador. Porém, assim como respeitamos opiniões diferentes, é vital que você respeite os pensamentos diferentes dos seus.