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Baby: o belo, o estranho e o inquietante na obra de Chang Sheng (2026, Comix Zone)


Baby
, do taiwanês Chang Sheng, é o tipo de obra que conquista no primeiro impacto e se sustenta ao longo da leitura mais pela força de sua proposta do que por eventuais fragilidades pontuais. Reunida em três volumes na edição brasileira publicada pela Comix Zone, a HQ apresenta uma ficção científica com horror corporal que parte de uma ideia potente e se desenvolve com consistência, ainda que sem explorar todas as possibilidades de seu universo.

A história se passa em 2043, quando um organismo parasitário conhecido como “Baby” leva a humanidade ao colapso. Ao infectar humanos e transformá-los em criaturas híbridas de carne e máquina, o parasita cria um cenário de devastação quase total. No centro desse mundo em ruínas está Elisa, uma protagonista que carrega uma anomalia: o organismo se instala em seu corpo, mas não a consome por completo. Preso à sua mão, ele a coloca em um estado intermediário, entre o humano e o monstruoso.

Esse ponto de partida sustenta o principal eixo temático da obra: a perda de identidade. Em Baby, o horror não está apenas nas deformações grotescas, mas na instabilidade do próprio corpo, que deixa de ser um limite seguro. A transformação física funciona como metáfora para a dissolução do eu, criando uma atmosfera constante de desconforto.


Chang Sheng entrega um trabalho impressionante. Seu traço detalhista, aliado a uma narrativa dinâmica e cinematográfica, constrói sequências de grande impacto. Há um domínio claro de composição e ritmo visual, com cenas que alternam entre o belo e o perturbador. O erotismo estilizado, presente em diversos momentos, reforça essa ambiguidade: em vez de suavizar a experiência, contribui para torná-la ainda mais estranha e inquietante.

As influências são evidentes. Baby dialoga com Akira e Parasyte, especialmente na fusão entre humano e não humano e nas implicações dessa transformação. No entanto, Chang Sheng opta por um caminho menos explicativo, privilegiando a experiência sensorial em detrimento de uma construção narrativa mais tradicional. Ao analisar a obra em sua totalidade, é possível perceber que sua principal limitação não está em se perder narrativamente, mas em não aprofundar com maior densidade algumas motivações e relações entre personagens. Há ideias interessantes que poderiam ganhar mais camadas, especialmente no desenvolvimento de figuras secundárias, o que enriqueceria ainda mais o impacto dramático.


Ainda assim, a narrativa se mantém coesa e conduz a um desfecho que cumpre bem seu papel dentro da proposta estabelecida. A conclusão não soa apressada nem desarticulada, mas sim alinhada à abordagem mais direta adotada pelo autor ao longo da obra, ainda que deixe a sensação de que certos elementos poderiam ter sido mais explorados.

Baby se estabelece como uma experiência de leitura marcada pelo equilíbrio entre impacto visual, atmosfera e conceito. Seu valor não reside apenas na história que conta, mas na forma como a apresenta, criando imagens e sensações que permanecem com o leitor. É uma obra visualmente poderosa e conceitualmente instigante, que poderia aprofundar mais alguns aspectos de seu universo, mas que ainda assim entrega uma narrativa consistente e envolvente. Um trabalho que provoca, incomoda e reafirma o talento de Chang Sheng como um autor que sabe, acima de tudo, como capturar o olhar e a atenção do leitor.

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