Em 1978, no auge da popularidade e à beira de mudanças internas profundas, o Kiss lançou Double Platinum, sua primeira coletânea oficial. Mais do que um simples “best of”, o álbum, que saiu originalmente em vinil duplo, funciona como um retrato cuidadosamente embalado da fase clássica do grupo cobrindo o período entre 1974 e 1977, anos em que a banda construiu sua identidade sonora e visual.
A proposta parecia simples: reunir os principais momentos dos seis primeiros discos de estúdio. No entanto, Double Platinum foge do padrão ao apresentar versões remixadas e editadas de várias faixas. Em alguns casos as mudanças são sutis, e em outros alteram sensivelmente a experiência. “Strutter ’78”, por exemplo, surge regravada com um verniz mais moderno (e levemente flertando com a disco music), enquanto “Detroit Rock City” e “Black Diamond” aparecem com cortes e ajustes estruturais. A tentativa de uniformizar o som, considerando as diferenças de produção entre os álbuns originais, acaba sendo também o ponto mais controverso do disco.
Se por um lado essas intervenções incomodam puristas, por outro reforçam a ideia de que Double Platinum foi pensado como produto: uma peça de transição estratégica enquanto a banda preparava seus quatro álbuns solo. Isso fica ainda mais evidente na apresentação gráfica. A capa prateada em relevo, o acabamento luxuoso e o encarte celebrando o Kiss Army transformam o disco em um objeto de desejo, quase um troféu para fãs.
Historicamente, a seleção cumpre bem seu papel. Clássicos como “Rock and Roll All Nite”, “Deuce”, “Firehouse” e “Love Gun” garantem uma sequência sólida, ainda que não definitiva. Algumas ausências chamam atenção e reforçam a sensação de curadoria incompleta, mas essa é uma sensação comum em compilações. Ainda assim, como panorama da fase inicial da banda, o álbum funciona.
Com o tempo, Double Platinum se consolidou como um registro curioso dentro da discografia do Kiss: eficiente como porta de entrada, mas incapaz de substituir a força dos discos originais. Mais do que isso, é um documento de uma indústria que começava a explorar o conceito de coletâneas como eventos e de uma banda que, mesmo em pausa criativa, sabia exatamente como permanecer no centro das atenções.


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