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O Evangelho Segundo o Coiote: quando Grant Morrison reinventou o Homem-Animal (2026, DC de Bolso)


Quando assumiu o título do Homem-Animal em 1988, Grant Morrison não estava interessado em apenas revitalizar um personagem obscuro da DC. O que o roteirista escocês fez nas sete primeiras edições da série, reunidas no volume O Evangelho Segundo o Coiote que a Panini acabou de publicar na coleção DC de Bolso, foi algo muito mais ambicioso: transformar uma HQ de super-herói em um laboratório de ideias.

Nos quatro primeiros capítulos, a estrutura ainda parece familiar. Buddy Baker é apresentado como um herói de segunda linha tentando equilibrar a vida doméstica com uma carreira instável, lidando com contas, família e uma sensação constante de inadequação. Mas já aqui surgem sinais de que algo diferente está em curso. Morrison introduz conceitos como a interconexão entre todos os seres vivos (uma espécie de “rede da vida”) e começa a deslocar o foco da ação para reflexões éticas e existenciais.

A arte de Chas Truog, finalizada por Doug Hazlewood, acompanha bem essa transição. O traço é limpo, funcional e quase discreto, mas ganha força justamente por não competir com as ideias do roteiro. Há um senso crescente de estranhamento que se infiltra nas páginas sem precisar de exageros visuais.


Mas é na quinta edição, intitulada O Evangelho Segundo o Coiote, que tudo muda. Ela não é apenas o ponto deste volume, mas uma das histórias mais impactantes já publicadas pela DC. Nela, Morrison apresenta um coiote antropomórfico que parece saído de um desenho animado violento, condenado a morrer repetidamente para entretenimento. Ao atravessar para o “mundo real”, ele busca seu criador, carregando uma narrativa que ecoa uma via-sacra absurda e perturbadora, carregada de metalinguagem. A leitura funciona em múltiplos níveis. É uma crítica à violência como linguagem do entretenimento, uma reflexão sobre o papel do autor como entidade divina e, ao mesmo tempo, uma parábola sobre sofrimento e propósito do personagem. O impacto vem justamente da forma como tudo isso é apresentado sem didatismo, deixando o desconforto se instalar de maneira inevitável.

As edições seguintes mostram um Homem-Animal transformado. Sua visão de mundo se torna mais radical, especialmente em relação aos direitos dos animais, e a narrativa passa a incorporar com mais intensidade discussões morais e políticas. O que antes parecia apenas uma abordagem “diferente” de super-heróis se revela, de fato, uma ruptura com o gênero.

Esse primeiro arco funciona como um manifesto. Morrison começa dentro das regras tradicionais, mas rapidamente expande os limites da narrativa até alcançar algo que dialoga mais com literatura, filosofia e arte conceitual do que com o formato clássico das HQs de super-heróis.

Reler essas histórias hoje deixa claro por que Homem-Animal se tornou uma obra tão influente. Antes mesmo da criação oficial da Vertigo, já estavam aqui os elementos que definiriam o selo: autoralidade, experimentação e uma disposição real de desafiar o leitor. O Evangelho Segundo o Coiote não é apenas uma boa porta de entrada para uma das fases mais originais e criativas dos quadrinhos, mas sobretudo o momento em que a série encontra sua voz. E, ao encontrá-la, redefine completamente o que um personagem como o Homem-Animal poderia ser.

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