Tex Gigante 38: Os Dois Fugitivos mostra como o universo de Tex ainda consegue se reinventar (2022, Mythos Editora)
Após quase oito décadas de aventuras, seria natural imaginar que Tex Willer já tivesse explorado todas as possibilidades do western. No entanto, a coleção Tex Gigante existe justamente para provar o contrário. Ao convidar artistas e roteiristas para desenvolver histórias fechadas em formato de luxo, a série oferece maior liberdade criativa sem abrir mão da essência do personagem. Em Os Dois Fugitivos, essa proposta encontra um de seus melhores exemplos.
Escrita por Gianfranco Manfredi e ilustrada por Giovanni Freghieri, a HQ surpreende logo nas primeiras páginas ao deixar Tex em segundo plano. Em vez de acompanhar imediatamente o lendário ranger, a narrativa apresenta Billy, um ladrão de pequeno porte, e Josephine, sua companheira, que decidem abandonar a vida criminosa em busca de um novo começo. O problema é que a fuga acontece após o roubo de um valioso objeto pertencente ao impiedoso Wade Gorman, desencadeando uma perseguição que envolve antigos comparsas, caçadores de recompensas e até um misterioso xamã conhecido como "mago da chuva".
A grande qualidade do roteiro está justamente na construção desses personagens. Manfredi evita a divisão simplista entre mocinhos e vilões, desenvolvendo figuras humanas, cheias de falhas e motivações compreensíveis. Billy e Josephine rapidamente conquistam a simpatia do leitor, tornando a perseguição cada vez mais envolvente. Quando Tex e Kit Carson finalmente assumem papel central na trama, sua presença funciona como um ponto de equilíbrio dentro de uma história que privilegia os dramas dos fugitivos.
Outro destaque é a arte de Giovanni Freghieri. Conhecido principalmente por seu trabalho em Dylan Dog, o desenhista imprime um visual detalhado e bastante cinematográfico à narrativa. As paisagens do Velho Oeste são amplas e imponentes, enquanto as expressões dos personagens reforçam a tensão emocional presente em praticamente toda a HQ. O formato gigante valoriza ainda mais esse trabalho, tornando a leitura um verdadeiro espetáculo visual.
A opção por manter Tex como um participante importante, mas não absoluto, pode causar estranhamento em leitores acostumados com a estrutura tradicional da série. Da mesma forma, os elementos místicos ligados ao "mago da chuva" dividem opiniões. Ainda assim, essas escolhas ajudam a diferenciar Os Dois Fugitivos de tantas outras aventuras do personagem, conferindo personalidade própria à obra.
Tex Gigante 38 apresenta um western sobre esperança, redenção e as consequências das escolhas individuais. É uma aventura que respeita a tradição criada por Bonelli, mas demonstra que ainda existe espaço para experimentar novas abordagens sem perder a identidade do velho ranger.
Para quem acompanha Tex há décadas, a HQ oferece uma leitura diferente e bastante competente. Já para novos leitores, funciona como uma excelente porta de entrada para entender por que o personagem continua sendo uma das maiores referências dos quadrinhos de faroeste.

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