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Mr. Bungle (1991): uma das estreias mais improváveis dos anos 1990


É difícil imaginar uma estreia como a do Mr. Bungle chegando às lojas em 1991. Naquele momento, o rock estava passando por uma transformação profunda, com Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Red Hot Chili Peppers e Metallica ocupando espaços cada vez maiores. Em meio a esse cenário, uma banda formada por músicos que ainda eram adolescentes quando começaram a tocar apareceu com um álbum de mais de 70 minutos que misturava death metal, funk, ska, jazz, música de circo, hardcore, pop, ruídos e humor grotesco. Não havia exatamente um lugar pronto para o Mr. Bungle.

Formado em Eureka, Califórnia, em 1985, o grupo começou tocando death metal, mas rapidamente passou a incorporar tudo aquilo que despertava o interesse de seus integrantes. Trey Spruance, Trevor Dunn e Mike Patton, ao lado de Danny Heifetz, Clinton "Bär" McKinnon e Theo Lengyel, construíram ao longo dos anos uma linguagem própria, que já aparecia nos primeiros demos. A entrada de Patton no Faith No More acabaria colocando a banda no radar da Warner, mas também criaria uma expectativa que o próprio grupo parecia determinado a destruir.

O Mr. Bungle não é o "projeto paralelo" do vocalista do Faith No More. É justamente o contrário: uma banda que já existia antes de Patton se tornar famoso e que aproveitou a oportunidade de chegar a uma grande gravadora para apresentar algo absolutamente desconcertante. A produção de John Zorn foi fundamental nesse processo. Zorn entendeu que aqueles músicos tinham ideias demais e ajudou a organizar o excesso sem eliminar sua personalidade. O resultado é caótico, mas não descontrolado. Por trás de toda a loucura existe uma banda tecnicamente impressionante, capaz de transformar mudanças bruscas de andamento, gêneros e atmosferas em música de verdade.

"Quote Unquote" já deixa isso claro. A abertura começa em clima quase teatral antes de mergulhar em uma mistura de metal, funk e jazz, estabelecendo imediatamente as regras ou a ausência delas. "Slowly Growing Deaf" alterna peso e estranheza com uma naturalidade desconcertante, enquanto "Squeeze Me Macaroni" mostra como o baixo de Trevor Dunn é essencial para a identidade do grupo. "Carousel" abraça o lado carnavalesco, "Egg" se transforma em uma longa viagem instrumental e "My Ass Is on Fire" apresenta alguns dos momentos mais agressivos do disco.

"Love Is a Fist" merece atenção especial. Pesada, nervosa e construída sobre riffs que antecipam caminhos que seriam explorados posteriormente pelo metal alternativo, a faixa ajuda a explicar por que o Mr. Bungle se tornou tão influente. James "Munky" Shaffer, do Korn, já citou o álbum como uma influência importante sobre a banda.


Mas o disco também exige alguma tolerância com seu senso de humor. O grupo aposta constantemente no grotesco, no sexual, no escatológico e no infantil. Em determinados momentos, a provocação parece tão importante quanto a música. "The Girls of Porn" é provavelmente o exemplo mais evidente dessa característica. Para alguns ouvintes, esse humor faz parte inseparável da personalidade do álbum, enquanto que para outros é justamente o elemento que mais envelheceu.

Musicalmente, porém, o disco continua impressionante. O que poderia ser apenas uma coleção de ideias absurdas é transformado em algo coerente pela capacidade dos músicos de entenderem dinâmica, arranjo e contraste. O Mr. Bungle não toca diferentes estilos simplesmente para mostrar que consegue fazê-lo. A banda utiliza essas mudanças para criar tensão, surpresa e humor. É por isso que chamar o álbum apenas de "experimental" ou "maluco" acaba sendo insuficiente. Há uma inteligência musical por trás da confusão. U passagem de ska pode tornar um riff de metal ainda mais pesado, um trecho de jazz pode aumentar a sensação de caos, uma melodia aparentemente infantil pode se tornar perturbadora quando colocada no contexto certo.

Mais de três décadas depois, o impacto do disco está justamente nessa liberdade. O Mr. Bungle mostrou que música pesada não precisava respeitar fronteiras de gênero, estética ou comportamento. Era possível ser técnico e ridículo, brutal e engraçado, virtuoso e vulgar, sofisticado e completamente absurdo, às vezes tudo isso dentro da mesma música.

Mr. Bungle também é um daqueles discos cuja importância cresceu com o tempo. Em 1991, parecia uma aberração difícil de classificar dentro do catálogo de uma grande gravadora. Hoje, soa como um retrato de uma época em que músicos ainda podiam chegar a uma estrutura gigantesca como a Warner com a liberdade de colocar praticamente todas as suas ideias em um único álbum. O mais curioso é que a gravadora provavelmente esperava capitalizar a associação com Mike Patton e o sucesso do Faith No More. Recebeu, em troca, um dos discos mais estranhos e imprevisíveis do início dos anos 1990.

A melhor maneira de definir a estreia do Mr. Bungle é um álbum que parece caótico na superfície, mas revela uma construção extremamente consciente quando você começa a prestar atenção. Não é um disco para todos. Mas, para quem aceita entrar em seu universo, continua sendo uma experiência singular e uma das estreias mais improváveis, criativas e influentes de sua geração.

O álbum foi relançado em CD pela Wikimetal em uma edição slipcase e encarte de 12 páginas com as letras da músicas.

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