A Obsolescência Programada dos Nossos Sentimentos: uma história que mostra que envelhecer não significa deixar de viver (2026, Pipoca & Nanquim)
A Obsolescência Programada dos Nossos Sentimentos, de Zidrou e Aimée de Jongh, coloca no centro da história uma situação pouco explorada nos quadrinhos: o que acontece quando duas pessoas que já passaram dos 60 anos se apaixonam? A resposta poderia resultar em uma história romântica convencional, apenas trocando personagens jovens por protagonistas mais velhos. Mas a HQ publicada pela Pipoca & Nanquim vai além ao usar esse relacionamento para discutir envelhecimento, solidão, desejo, luto e a maneira como a sociedade determina, muitas vezes, quando uma pessoa deveria deixar de desejar, sonhar e experimentar coisas novas.
Ulisses tem 59 anos, é viúvo e trabalhou durante décadas como carregador em uma empresa de mudanças. Quando perde o emprego, também perde uma parte importante da rotina e da identidade que construiu ao longo da vida. Mediterrânea, de 61 anos, administra uma queijaria familiar e acaba de perder a mãe, depois de acompanhá-la durante uma longa doença. Os dois vivem momentos diferentes de suas vidas, mas compartilham uma sensação semelhante: a de que estão se tornando invisíveis.
É nesse contexto que eles se encontram e começam uma relação que envolve atração, sexo, insegurança e descoberta. E esse é um dos maiores méritos de Zidrou: ele não transforma seus protagonistas em caricaturas de pessoas idosas nem trata o desejo na maturidade como algo engraçado ou inadequado. Ulisses e Mediterrânea continuam sendo um homem e uma mulher com vontades, fantasias, medos e necessidades afetivas. Eles não deixaram de ser pessoas porque envelheceram.
O título funciona justamente como uma provocação. A obsolescência programada é um conceito associado a objetos fabricados para se tornarem ultrapassados ou deixarem de funcionar depois de determinado período. Zidrou transporta essa ideia para os seres humanos e questiona uma sociedade que valoriza juventude, produtividade e aparência a ponto de fazer com que pessoas mais velhas sintam que suas vidas já deveriam estar entrando na fase final.
Aimée de Jongh potencializa essa discussão com um desenho expressivo, especialmente nos rostos e corpos dos personagens. Rugas, marcas e transformações físicas não são escondidas nem suavizadas. O envelhecimento está presente na própria aparência de Ulisses e Mediterrânea, e isso torna ainda mais significativa a maneira como a artista representa a atração entre os dois.
A primeira metade da história é particularmente forte ao construir a solidão dos protagonistas e a delicadeza de sua aproximação. No trecho final, Zidrou abandona parte desse realismo e conduz a história para uma solução mais próxima da fábula, uma escolha que pode soar excessivamente sentimental e menos convincente para quem estava envolvido com o tom mais naturalista apresentado anteriormente.
Ainda assim, A Obsolescência Programada dos Nossos Sentimentos encontra sua força em uma pergunta que permanece depois da leitura: existe mesmo uma idade em que devemos considerar determinados sentimentos obsoletos? Ao falar de duas pessoas que se apaixonam quando aparentemente já deveriam estar pensando apenas em envelhecer, a HQ lembra que o tempo pode transformar o corpo, a rotina e as circunstâncias, mas não necessariamente elimina nossa capacidade de desejar, amar e recomeçar.
Muito além do que uma história de amor na terceira idade, é uma obra sobre o direito de continuar vivendo plenamente quando a sociedade começa a nos tratar como se já estivéssemos fora do prazo.



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