Para quem não viveu a época, não é tarefa das mais fáceis imaginar o impacto do álbum de estreia dos Raimundos quando o disco chegou às lojas em 1994. O rock brasileiro vivia um momento de renovação, e aquela banda de Brasília apareceu com uma combinação que parecia improvável até então: hardcore, punk, heavy metal, forró, baião, humor escatológico e uma energia absolutamente descontrolada. Produzido por Carlos Eduardo Miranda e lançado pelo Banguela Records, o álbum transformou uma experiência underground em um dos acontecimentos mais marcantes do rock nacional dos anos 1990.
Rodolfo, Digão, Canisso e Fred não inventaram simplesmente uma fusão entre rock pesado e música nordestina. O diferencial estava em fazer esses elementos funcionarem organicamente. “Puteiro em João Pessoa”, “Nêga Jurema”, “Marujo” e “Palhas do Coqueiro” mostram uma banda que entendia o forró e o baião como parte de sua identidade musical, incorporando seus ritmos e melodias às guitarras distorcidas e à velocidade do hardcore.
A produção de Miranda merece destaque justamente por não tentar domesticar os Raimundos. O disco soa cru, urgente e espontâneo, preservando a sensação de uma banda de garagem que subitamente ganhou um estúdio e uma oportunidade nacional. Até as imperfeições fazem parte do encanto. Há uma impressão constante de que tudo pode sair dos trilhos a qualquer momento.
E então existe “Selim”. A balada acústica, inicialmente rejeitada por Rodolfo, acabou se tornando uma das principais portas de entrada do álbum. É uma ironia perfeita: a música que menos representa a agressividade dos Raimundos ajudou a levar o disco para um público muito maior. Ao lado dela, “MM’s”, com participação de João Gordo, e outras faixas reforçam o espírito irreverente de um álbum que nunca fez questão de pedir licença.
As letras, porém, são o aspecto que mais exige contextualização atualmente. O humor sexual, vulgar e escatológico era parte fundamental da linguagem dos Raimundos em 1994, mas algumas piadas e representações envelheceram de maneira evidente. Reconhecer isso não diminui a importância histórica do disco, apenas torna sua leitura contemporânea mais complexa.
Musicalmente, o álbum continua impressionante. É um trabalho de estreia barulhento, engraçado, brasileiro e genuinamente original. Mais do que apresentar uma banda promissora, registrou o momento em que os Raimundos encontraram uma linguagem própria e provaram que era possível levar o forró para dentro do hardcore sem perder peso, velocidade ou personalidade.
Ouvir o disco hoje é voltar a um período em que o rock brasileiro ainda parecia capaz de surpreender. E os Raimundos fizeram isso da maneira mais improvável possível.
O álbum acabou de ganhar uma nova edição em CD slipcase pela Warner Records.
.jpg)
Comentários
Postar um comentário
Você pode, e deve, manifestar a sua opinião nos comentários. O debate com os leitores, a troca de ideias entre quem escreve e lê, é que torna o nosso trabalho gratificante e recompensador. Porém, assim como respeitamos opiniões diferentes, é vital que você respeite os pensamentos diferentes dos seus.