Em 11 de outubro de 1996, o rock brasileiro perdeu Renato Russo. Ele tinha apenas 36 anos e uma carreira que, embora relativamente curta, havia sido suficiente para transformar a música popular brasileira e estabelecer a Legião Urbana como uma das bandas mais importantes da história do país. Trinta anos depois, suas músicas continuam sendo cantadas, regravadas, descobertas por novas gerações e, principalmente, utilizadas para dizer aquilo que muitas pessoas não conseguem colocar em palavras.
Renato Manfredini Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 27 de março de 1960, mas foi em Brasília que encontrou o ambiente que moldaria sua personalidade e sua música. Ainda adolescente, passou por uma grave doença óssea que o deixou durante longo período sem poder se locomover. Foi nessa fase que começou a escrever compulsivamente, desenvolvendo a relação com a palavra que mais tarde se tornaria uma de suas principais ferramentas artísticas.
Em 1978, aos 18 anos, formou o Aborto Elétrico, ao lado de Fê Lemos e André Pretorius. A banda ajudou a criar a cena punk de Brasília e funcionou como laboratório para um compositor que ainda estava descobrindo sua própria voz. "Que País É Este", "Conexão Amazônica", "Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você)" e outras músicas nasceram naquele período. Algumas seriam posteriormente gravadas pela Legião Urbana, enquanto outras chegaram ao repertório do Capital Inicial.
O Aborto Elétrico terminou em 1982, mas Renato não demoraria a encontrar seu próximo caminho. Ao lado de Marcelo Bonfá, iniciou a formação da Legião Urbana. Dado Villa-Lobos assumiria posteriormente a guitarra e completaria o núcleo que levaria a banda ao sucesso nacional. O baixista Renato Rocha chegaria para completar a formação. A indicação de Herbert Vianna e Bi Ribeiro ajudou a colocar uma fita demo do grupo nas mãos da EMI-Odeon, que contratou a banda.
O primeiro álbum, Legião Urbana, chegou em 1985 e imediatamente apresentou um compositor diferente do padrão que predominava no rock brasileiro. "Será", "Ainda É Cedo", "Geração Coca-Cola", "Soldados" e "Por Enquanto" tinham a energia do rock, mas suas letras iam muito além da rebeldia juvenil. Renato escrevia sobre política, relações afetivas, violência, solidão, religião, amizade, família e a sensação de não encontrar seu lugar no mundo. Essa combinação seria decisiva.
O rock brasileiro dos anos 1980 estava profundamente ligado à redemocratização do país. Bandas como Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Engenheiros do Hawaii e muitas outras encontraram uma geração que queria falar depois de anos de censura e repressão. Renato, porém, conseguiu algo particularmente difícil: transformar questões políticas e sociais em experiências pessoais.
Dois, de 1986, ampliou enormemente esse alcance. "Tempo Perdido", "Eduardo e Mônica", "Índios", "Quase Sem Querer" e "Daniel na Cova dos Leões" demonstravam que Renato não precisava escolher entre o discurso social e a intimidade. Podia falar de uma geração inteira em uma música e, na seguinte, entrar diretamente em um relacionamento amoroso ou em uma crise existencial. Essa capacidade de transitar entre o coletivo e o individual talvez seja o maior segredo de sua permanência.
Em Que País É Este, de 1987, a Legião recuperou músicas do período do Aborto Elétrico e apresentou "Faroeste Caboclo", uma narrativa de quase dez minutos que transformou a história de João de Santo Cristo em uma espécie de épico popular brasileiro. Em As Quatro Estações (1989), Renato já havia ampliado ainda mais seu universo. "Há Tempos", "Pais e Filhos", "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto", "Meninos e Meninas" e "1965 (Duas Tribos)" revelavam um compositor cada vez mais interessado nas contradições da existência.
A Legião Urbana deixou de ser apenas uma banda de rock, e Renato Russo deixou de ser apenas um cantor. Ele se tornou uma espécie de cronista emocional do Brasil. Sua escrita combinava referências literárias, históricas, religiosas e políticas com uma linguagem acessível. Não havia necessidade de simplificar as ideias para alcançar o público. Renato podia falar de Shakespeare, Bíblia, filosofia, política, sexo ou solidão e transformar tudo isso em canções que adolescentes cantavam em coro. Essa é uma das razões pelas quais sua influência ultrapassou o próprio rock.
Renato também teve coragem de expor aspectos de sua vida pessoal em uma época muito menos tolerante do que a atual. Declarou-se homossexual publicamente no início dos anos 1990, em um país ainda profundamente marcado pelo preconceito e pelo medo provocado pela epidemia de AIDS. Sua sexualidade, seus relacionamentos, suas dúvidas espirituais e sua relação problemática com as drogas acabaram fazendo parte, de maneiras diferentes, da obra e da imagem pública do artista.
A carreira solo revelou outro lado de sua personalidade musical. The Stonewall Celebration Concert (1994) revisitou clássicos internacionais, enquanto Equilíbrio Distante (1995) mergulhou na música italiana e nas raízes familiares. Esses trabalhos ajudaram a mostrar que o universo musical de Renato era muito maior que o punk e o rock que haviam formado sua identidade artística.
Ao mesmo tempo, sua vida pessoal atravessava períodos extremamente difíceis. A dependência química, problemas emocionais e, posteriormente, as complicações relacionadas ao HIV marcaram seus últimos anos. Renato morreu em 11 de outubro de 1996, no Rio de Janeiro. A Legião Urbana ainda lançaria A Tempestade ou O Livro dos Dias, pouco antes de sua morte, e posteriormente Uma Outra Estação, em 1997.
O mais impressionante, porém, aconteceu depois: a obra não envelheceu. Três décadas depois, dados do Ecad mostram a dimensão dessa permanência: o catálogo de Renato Russo reúne centenas de obras e gravações, enquanto "Tempo Perdido" continua entre suas músicas mais executadas e é também uma das mais regravadas. Mas números não explicam completamente seu legado. Renato continua importante porque suas músicas não oferecem respostas fáceis. Elas fazem perguntas. "Que País É Este" continua funcionando porque o país ainda produz motivos para a indignação. "Pais e Filhos" permanece porque as relações familiares continuam sendo complexas. "Tempo Perdido" sobrevive porque a sensação de que estamos deixando a vida escapar continua universal. "Perfeição" permanece desconfortavelmente atual porque sua crítica à sociedade brasileira ainda encontra eco.
Renato Russo não escrevia como alguém que estivesse acima dos problemas sobre os quais cantava. Ele estava dentro deles. Essa vulnerabilidade aproximava artista e público. Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas tenham a sensação de que Renato Russo continua conversando diretamente com elas. Não importa se o ouvinte tinha 15 anos em 1985 ou nasceu depois de 1996. As perguntas continuam disponíveis, as inseguranças continuam reconhecíveis e as músicas continuam esperando o momento certo para dizer alguma coisa.
É comum falar de Renato Russo como "a voz de uma geração". A definição é correta, mas insuficiente. Ele foi a voz de uma geração que cresceu durante a abertura política e encontrou no rock uma forma de expressar aquilo que antes precisava ser silenciado. Só que suas canções acabaram ultrapassando aquele contexto porque nunca foram exclusivamente sobre os anos 1980. Esse é o seu maior legado para o rock brasileiro. Renato mostrou que uma música poderia ser popular sem ser superficial, política sem ser panfletária, romântica sem ser ingênua, literária sem ser inacessível e confessional sem ser pequena. Ele ajudou a provar que o rock poderia falar sobre o Brasil, mas também poderia falar sobre aquilo que existe dentro de cada brasileiro.
Trinta anos depois de sua morte, Renato Russo continua presente não apenas porque suas músicas são lembradas, mas porque ainda são necessárias. O tempo passou. A Legião Urbana acabou. A geração que acompanhou seu surgimento envelheceu. Outra geração nasceu e cresceu depois da morte de Renato. Mas quando os primeiros acordes de "Tempo Perdido" aparecem, quando alguém canta "Pais e Filhos" ou quando "Que País É Este" volta a ser entoada diante de uma nova crise brasileira, acontece algo que poucos artistas conseguem alcançar: Renato Russo volta a estar entre nós e não como nostalgia, mas como presente.

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